Hospital Santo Antônio: meio século de princípios e compromisso com a vida

O Hospital Santo Antônio de Campo Erê, é a realização de um sonho do casal Olides Lunardi e Maria Lunardi, que há 50 anos são comprometidos e praticam uma medicina de qualidade

Por Ruthe Kezia-Campo Erê

Hoje, o Hospital Santo Antônio é um símbolo de resistência e compromisso. Mais de 35 mil cirurgias já foram realizadas ao longo de sua história, e incontáveis vidas foram salvas. (Foto: Igor Vissotto)

Há 50 anos, um sonho tomou forma em Campo Erê. Num tempo em que as estradas eram precárias, os recursos escassos e a medicina do interior era um desafio diário, o casal de jovens médicos Olides Lunardi e Maria Werle Lunardi decidiram que ali seria o lugar para construir não apenas um hospital, mas um propósito de vida. O único objetivo do casal era praticar uma medicina de qualidade, humana e comprometida com a comunidade.

O Hospital Santo Antônio surgiu do sonho de dois recém-formados em medicina que acreditavam que cuidar era mais que exercer uma profissão, era um ato de fé. A realização desse sonho contou com o apoio da família e principalmente com o casal Lidovino Mazetto [sócio fundador e irmão de Maria] e Cecília Mazetto [sócia fundadora e irmã de Olides]

“Para o meu pai, esses 50 anos representam a concretização de um projeto de vida”, conta a filha e também médica, Marta Werle Lunardi Gerber, hoje uma das herdeiras desse legado.

Na década de 1970, Olides e Maria estavam no início da carreira. Formados em Pelotas, trabalharam juntos por um ano em Maravilha-SC, onde amadureceram o desejo de construir e empreender em algo próprio. Segundo Marta, a escolha de Campo Erê foi natural, a família de Olides vivia na região, e o casal queria unir o trabalho à terra que os acolhera.

Naquele tempo, o município já possuía o Hospital Nossa Senhora Aparecida, mas os Lunardi decidiram ousar e erguer um segundo hospital em uma cidade pequena, movidos pela convicção de que havia espaço para um atendimento baseado em princípios e excelência.

A medicina no interior era, então, um ato de coragem. As referências hospitalares eram distantes, e os médicos precisavam resolver situações de alta complexidade com o que tinham à mão: “Eles estudaram muito para estarem preparados para o que viesse, porque sabiam que aqui não teriam a quem chamar”, relembra Marta. Assim, entre plantões, livros e noites em claro, o casal moldava o que viria a ser uma das instituições mais importantes da região.

O Hospital Santo Antônio foi inaugurado em 31 de outubro de 1975, fruto do esforço coletivo da família Lunardi. Quase todos os irmãos participaram de alguma forma, uns na construção, outros no apoio financeiro e logístico. A irmã de Olides, Cecília, e o cunhado Lidovino, foram sócios fundadores, e o irmão Luiz, mais novo, viria anos depois para atuar como médico e radiologista. O espírito de união era marca registrada, uma herança da infância humilde dos Lunardi em Guaporé-RS, onde a solidariedade entre os irmãos era a base para qualquer conquista.

O início, porém, foi repleto de desafios. O hospital não contava com credenciamentos públicos e sobrevivia do atendimento particular e de trocas. Pequenos agricultores, muitas vezes sem dinheiro, ofereciam animais, produtos ou serviços como forma de pagamento pelos serviços prestados.

“Sempre coloquei como prioridade número um, atender bem. Deixar o meu cliente satisfeito, porque a minha mercadoria é o ser humano, não um pacote de açúcar. É uma pessoa que está sentada ali, com sentimentos, com dificuldades e ninguém nunca saiu daqui sem ser atendido, tendo dinheiro ou não”, enfatizou Olides.

Com o tempo, o hospital foi se estruturando, conquistando credibilidade e ampliando serviços. Nos primeiros anos, o casal se dedicou a ações sociais fora dos muros da instituição. Eles percorriam comunidades rurais orientando famílias sobre higiene, saneamento e cuidados básicos de saúde. Em muitas delas, mais de 90% das crianças sofriam de verminose: “Eles iam até o interior para ensinar como ferver a água, como fazer uma patente, porque entendiam que não bastava medicar, era preciso transformar a realidade”, conta a filha orgulhosa.

Essa visão social deu origem a um dos projetos mais marcantes de Campo Erê, o Pró-Menor, criado em 1985 por padres, irmãs, lideranças do município, e alguns casais, entre eles Maria e Olides Lunardi. A primeira sede funcionava na garagem da casa da família e o programa buscava oferecer dignidade às crianças carentes por meio de trabalho e orientação. As crianças recebiam o material e junto com ele lições sobre estudo, respeito e fé, valores esses que a família Lunardi sempre cultivaram.

Entre as décadas de 1980 e 1990, o hospital consolidou-se como referência no atendimento médico da região. Passou por fases difíceis, desentendimentos societários e momentos de incerteza, mas manteve-se de pé, sustentado pela ética e pela persistência. Segundo Marta, o pai sempre repetia que o segredo era simples: “Fazer medicina de qualidade, resolver o sofrimento de quem chega até nós”.

Hoje, cinco décadas depois, o Hospital Santo Antônio é um símbolo de resistência e compromisso. Mais de 35 mil cirurgias já foram realizadas ao longo de sua história, e incontáveis vidas foram salvas. O hospital se modernizou, mas conserva o mesmo espírito que o originou, aquele que vê no paciente, antes de tudo, uma pessoa.

Para Marta, celebrar os 50 anos do hospital é também celebrar a história de seus pais: “Eles nunca se corromperam, nunca se desviaram dos princípios. Sempre colocaram o ser humano em primeiro lugar”. Além disso, a história do Hospital Santo Antônio é um lembrete de que, mesmo nas cidades pequenas, a grandeza está em quem acredita.

Na placa de fundação, o nome do hospital homenageia Santo Antônio, símbolo de fé e devoção. No coração de Campo Erê, porém, o que se celebra é o milagre humano de quem decidiu transformar um sonho em um legado e de quem, há 50 anos, escolheu servir à vida com coragem, humildade e amor.

 

 

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