O filho que ensinou o pai a ler

Olides Lunardi nasceu em uma família simples de agricultores, porém teve seu destino transformado através de um incentivo do irmão mais velho e da paixão pela medicina

Por Igor Vissotto/Ruthe Kezia-Campo Erê

Com uma infância marcada por enxadas e plantações, aos 15 anos criou gosto pela leitura e estudos. Anos depois se apaixonou pela medicina e mudou a qualidade de vida de sua família. (Foto: Divulgação)

Da roça humilde em Guaporé-RS ao comando de um hospital em Campo Erê, a trajetória de Olides Lunardi é a história de um menino que acreditou no poder do conhecimento. Um menino que antes de curar pessoas, precisou curar suas próprias limitações, e que movido pela fé, esforço e pelo amor à família, transformou um destino improvável em um legado.

Olides nasceu em uma família de agricultores simples. Eram seis irmãos, filhos de um casal que vivia do que a terra dava. A infância foi marcada por enxadas, plantações e poucas letras, não havia livros em casa, tampouco tempo para estudar.

A escola local oferecia estudo apenas até a quarta série e aos 11 anos, Olides deixou de frequentar as aulas. A língua falada em casa era o italiano, o português era estranho e distante. Quando completou 15, era praticamente analfabeto e o futuro parecia traçado entre enxadas e lavouras.

Mas foi um gesto do irmão mais velho, Antônio Lunardi, que mudou tudo. Homem de visão e inquietude, Antônio acreditava que a família só sairia da pobreza se um deles estudasse, e em conversa com Olides decidiu que o irmão [Olides] deveria estudar.

Com grande esforço, comprou uma bolsa dos Irmãos Maristas [uma espécie de passe vitalício que permitia continuar estudando enquanto o aluno fosse aprovado], em Guaporé, e assim o adolescente tímido e quase analfabeto embarcou rumo a um novo mundo.

 

O despertar para o conhecimento

O começo foi difícil, ao tentar ingressar no ginásio, Olides foi reprovado: “Não consegui fazer uma redação de 15 linhas”, contou. O professor o aconselhou a fazer o curso de admissão, foi ali, aos 15 anos, que tudo mudou.

Foi a minha sorte, porque aquilo me despertou e foi ali com 15 anos que eu comecei a gostar de estudar”, lembra. A cada novo conteúdo, descobria que o conhecimento podia libertar. Aprendeu português, as quatro operações e pela primeira vez, entendeu o poder dos livros. Desde então, nunca mais quis ser o segundo em nada.

O esforço deu resultado, Olides tornou-se um aluno exemplar e ao concluir o ginásio, foi selecionado entre os dois melhores estudantes para uma vaga no Colégio Rosário, em Porto Alegre-RS, uma das escolas mais prestigiadas do estado. A mudança marcou o início da virada e em Porto Alegre cursou o Científico, equivalente ao ensino médio, direcionado às áreas da saúde.

No Colégio Rosário, Olides encontrou professores inspiradores e o estímulo que precisava. As aulas de História Natural [conhecida hoje como Ciências], despertaram a paixão pela medicina. Ele relembra que na 8ª série, um médico foi palestrar em sua escola e levou vários modelos anatômicos e aquilo encantou Olides: “Eu bebi aquilo e ali eu tive certeza que era aquilo que eu queria”, contou.

Aos 22 anos, o jovem de origem rural e sotaque carregado, foi aprovado em Medicina na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), em 1968. O irmão Antônio, seu maior incentivador, comemorou a conquista como própria.

Porém, a vida universitária não foi nada fácil. Na época, quando era possível, a família Lunardi enviava dois salários mínimos por mês para Olides: “Os dois salários mínimos na época, é equivalente a R$ 3 mil hoje, eu sobrevivia e pagava a minha faculdade”, relata. Para conseguir dar a volta e realizar seu sonho, Olides dividia o quarto, fazia plantões noturnos em troca de comida e sobrevivia do essencial, mas sempre mantendo o sonho de se tornar médico.

 

O encontro que virou destino

Durante o segundo ano da faculdade, Olides conheceu Maria Werle, colega de curso. Uma mulher inteligente, determinada e que compartilhava do mesmo sonho: ser médica e servir às pessoas. O relacionamento, respeito e afeto nasceu nas discussões de casos clínicos e cresceu entre as salas de aula e os plantões.

Casaram-se pouco depois de formados [Olides se formou em 1973 e Maria em 1974], e decidiram juntos que o amor à medicina seria o norte da vida em comum: “Nosso sonho era praticar uma medicina de qualidade e resolver o sofrimento das pessoas”, diz Olides.

O casal iniciou a carreira em Maravilha-SC, onde trabalharam por um ano. Foi o período de aprendizado prático e de amadurecimento da ideia de construir um hospital. As condições de trabalho na época eram precárias, os recursos escassos e a distância até os centros maiores tornava qualquer emergência um desafio.

Porém inquietos e com a vontade de fazer mais e melhor, nasceu o projeto do Hospital Santo Antônio, em Campo Erê, que neste ano, de 2025, completou 50 anos [Na edição 861, o Sentinela publicou a matéria: “Hospital Santo Antônio: meio século de princípios e compromisso com a vida”].

 

Um hospital nascido de princípios

Campo Erê já possuía um hospital, o Nossa Senhora Aparecida, mas o casal acreditava que havia espaço e necessidade para mais. Em 1975, com o apoio da família Lunardi, o Hospital Santo Antônio foi inaugurado.

Todos ajudaram: irmãos, cunhados e sobrinhos. A irmã de Olides, Cecília Mazetto e o cunhado Lidovino Mazetto, entraram como sócios-fundadores. Luiz Lunardi, irmão mais novo, atuou no hospital como médico e radiologista anos depois.

Os primeiros anos foram de desafios imensos, devido a falta de credenciamento público, o hospital sobrevivia de atendimentos particulares. Muita gente, já desesperançada de outros atendimentos vinha até o hospital fragilizada, muitas delas sem condições de arcar com os custos do atendimento. Dr. Olides e a doutora Maria nunca deixaram ninguém sair sem ser atendido, sem um diagnóstico, sem um tratamento. “Nós parcelávamos o pagamento, recebíamos alguma coisa, se dava um jeito” explica.

Sempre coloquei como prioridade número um, atender bem. Deixar o meu cliente satisfeito, porque a minha mercadoria é o ser humano, não um pacote de açúcar. É uma pessoa que está sentada ali, com sentimentos, com dificuldades e ninguém nunca saiu daqui sem ser atendido, tendo dinheiro ou não”, enfatizou Olides.

Com o tempo, o hospital foi se estruturando, conquistando credibilidade e ampliando serviços. Nos primeiros anos, o casal se dedicou a ações sociais fora dos muros da instituição. Eles percorriam comunidades rurais orientando famílias sobre higiene, saneamento e cuidados básicos de saúde. Muitas vezes, mais de 90% das crianças sofriam de verminose: “Eles iam até o interior para ensinar como ferver a água, como fazer uma patente, porque entendiam que não bastava medicar, era preciso transformar a realidade”, conta a filha, Marta Werle Lunardi Gerber.

Essa postura solidária deu origem a um dos projetos mais marcantes de Campo Erê, o Pró-Menor, criado em 1985 por padres, irmãs, lideranças do município, e alguns casais, entre eles Maria e Olides. A primeira sede funcionava na garagem da casa da família e o programa buscava oferecer dignidade às crianças carentes por meio de trabalho e orientação. As crianças recebiam o material e junto com ele lições sobre estudo, respeito e fé, valores esses que a família Lunardi sempre cultivou.

 

Entre a ciência, a fé e o legado

A trajetória de Olides Lunardi é marcada por uma combinação rara de razão e espiritualidade. Católico praticante e franciscano leigo, ele vive a fé com simplicidade, sem ostentação. Ao longo de sua carreira, realizou mais de 35 mil cirurgias, além de incontáveis atendimentos clínicos.

Aos 79 anos, mantém uma memória afiada e um olhar sereno sobre o tempo. Lê com avidez, um hábito que carrega desde aquele despertar na 5ª série: “O que mais gosto de fazer é ficar em casa lendo. Leio muito, eu devoro os livros, até hoje leio dois, três livros por mês”, detalha Olides.

Esse desejo pela leitura se tornou algo tão inspirador, a ponto de um dia em uma conversa, o pai de Olides se interessar em aprender a ler. O filho que ensinou o pai a ler em 15 dias, destaca que ninguém deixa de estudar por vontade própria, essa pessoa é imbuída a fazer isso.

A história de Olides não termina nele. Seus filhos seguiram seus passos, o filho trabalha e reside em Porto Alegre-RS e a filha ao se formar em medicina e se especializar em cardiologia, em 2009 voltou para Campo Erê: “Parecia assim, que eu tinha que voltar, o meu pai esperava que eu voltasse e eu não podia decepcioná-lo”. Hoje, ela atua ao lado do pai no mesmo hospital que viu nascer como instituição, carregando o mesmo propósito de servir.

Para Marta, o maior ensinamento do pai não foi apenas a paixão pela medicina, mas a honestidade, empatia e perseverança: “Ele nunca se corrompeu, nunca perdeu os princípios. Sempre acreditou que a medicina é uma forma de fazer o bem”, destaca.

Em casa, Olides é o avô que troca fraldas, dá banho, conta histórias e ensina valores: “Ele foi um pai amoroso e é um avô ainda mais presente”, diz a filha. Entre risos, ela se define como a filha preferida do pai, lembrando com carinho a cumplicidade entre os dois, e destaca que o irmão é o filho preferido da mãe.

Marta destaca que essa cumplicidade vem muito pelo fato de serem parecidos na maneira de pensar, agir e na empatia com o próximo. A relação, o amor e o companheirismo entre pai e filha, se tornam nítidos a todos os que o conhecem. Marta carrega em seu olhar um brilho de orgulho do seu pai, que lhe ensinou valores que vão além da teoria e se vivenciam na prática.

 

O menino que mudou seu destino

A história de Olides Lunardi é acima de tudo uma prova de que o conhecimento transforma vidas e muda destinos. Um menino da roça que aprendeu português na adolescência e com esforço e fé, tornou-se médico e um exemplo ético para uma comunidade inteira.

O menino que um dia ajudou o pai a decifrar as primeiras palavras foi o mesmo que, anos depois, ensinou centenas de pessoas a viver com dignidade, através do seu legado. Entre bisturis e livros, entre cirurgias e conselhos, Olides Lunardi escreveu uma história que ultrapassa os limites da medicina. Uma história de amor, coragem e fé.

E enquanto houver alguém em Campo Erê que leve o nome Lunardi no jaleco, essa história continuará sendo contada, não apenas nas paredes do hospital, mas na memória de todos que um dia foram tocados por suas mãos e pelo seu exemplo.

 

 

 

Encontrou algum erro? Clique aqui Receba as notícias do Portal Sentinela do Oeste no seu telefone celular! Faça parte do nosso grupo de WhatsApp através do link: https://chat.whatsapp.com/EFKEYeuj7g4GAIoNEfPdgW?mode=r_c
Siga nosso Instagram: https://www.instagram.com/jornalsentineladooeste/