Infância abreviada, história gigante
A anchietense Leonita de Souza, começou a trabalhar aos 8 anos e ao completar 70, carrega uma trajetória marcada por esforço, desafios e histórias
Aos 70 anos, Leonita de Souza segue em plena atividade, é mãe e avó e carrega na própria história ensinamentos valiosos que passou a seus filhos e segue para a próxima geração. (Foto: Ruthe Kezia)
Leonita de Souza, de Anchieta, carrega na própria história uma infância cheia de mudanças, perdas e recomeços. Embora seja reconhecida como uma figura ligada a Anchieta, ela não nasceu no município, veio ainda bebê, com menos de um ano de idade.
Sua família residia no Rio Grande, então, decidiram se mudar para Itajubá, interior de Descanso, e ali, Leonita nasceu, onde construiu praticamente toda a sua trajetória de vida, criando laços que ultrapassam o tempo e as circunstâncias.
Filha de Onor de Souza, o primeiro barbeiro de Anchieta, vereador e presidente da Câmara de vereadores, em um período em que a política era exercida de forma voluntária, Leonita cresceu em meio a uma forte vivência comunitária. O pai, comunicativo e atuante, foi uma referência importante na formação do seu olhar atento às pessoas e ao coletivo.
A infância, no entanto, foi marcada por rupturas. A separação dos pais ocorreu quando Leonita ainda era pequena. Ela e os irmãos permaneceram com o pai, mas com o passar dos anos, acabaram sendo separados entre familiares e amigos: “Ficamos bem afastados, e vou te dizer, foi uma das piores coisas da nossa vida”, comenta.
Esse período contribuiu para moldar sua sensibilidade, empatia e capacidade de adaptação, características que mais tarde se tornariam centrais em sua atuação profissional e social.
Educação como escolha de vida
Desde cedo, Leonita demonstrou uma relação natural com o aprendizado. Ainda criança, já tinha aprendido o alfabeto e tinha facilidade para memorizar textos. O desejo de estudar nunca esteve ligado apenas à ascensão profissional, mas, sobretudo, à vontade de lidar com pessoas.
Aos 14 anos, decidiu retornar definitivamente para Anchieta com um objetivo claro: continuar os estudos. Em um contexto em que estudar além do básico não era prioridade para muitas famílias, Leonita insistiu: “Todos da minha família e até amigos me perguntavam o porquê eu queria estudar, mas eu sabia desde pequena que queria lidar com pessoas”. Concluiu o ensino fundamental, fez contabilidade, magistério e mais tarde, buscou a formação superior.
A formação acadêmica não foi linear. Para cursar faculdade, deslocava-se mensalmente até Palmas-PR, conciliando trabalho, estudos e família. As exigências eram as mesmas de quem frequentava aulas diariamente: “Mesmo estudando com 33% de frequência, eu tinha que ter os mesmos conteúdos de quem escolhia 100%”, explica.
Leonita nunca deixou de estudar. Para ela, o aprendizado é contínuo e necessário, independentemente da idade, uma convicção que se reflete em sua atuação até os dias atuais.
Trajetória profissional na CASAN
A história profissional de Leonita se inicia com a própria implantação da CASAN em Anchieta. Ainda jovem, começou auxiliando o pai nas atividades administrativas quando o escritório da companhia funcionava na casa da família: “Começou aqui em 1973, como o meu pai morava na avenida, a CASAN começou a funcionar na casa do meu pai”, disse.
O que era ajuda informal se tornou em reconhecimento profissional, registrada oficialmente aos 18 anos, Leonita construiu uma carreira sólida ao longo de 24 anos na CASAN. Atuou em áreas administrativas, financeiras e mais tarde, em recursos humanos, acompanhando de perto a evolução do saneamento básico no município e na região.
Em tempos sem tecnologia, bancos ou sistemas automatizados, ela participou de um modelo de trabalho quase artesanal: “A cada 15, 20 dias, no máximo 1 mês, eu pegava o dinheiro, colocava numa bolsa, e levava de ônibus até a regional em Chapecó-SC. A viagem levava o dia todo, tinha que pegar até balsa”, comenta. E assim lidava com registros manuais, arrecadações em dinheiro e longas viagens para prestação de contas.
A CASAN, como ela mesma define, foi uma escola e uma mãe. Ali recebeu formação técnica, participou de cursos e teve incentivo constante para continuar estudando, o que foi determinante para suas escolhas futuras. “Eu sempre dizia que a CASAN pagava para eu estudar, seguidamente eu fazia cursos em Chapecó e em Florianópolis também”, explica.
Educação, empreendedorismo e atuação social
Mesmo em ascensão na carreira, Leonita decidiu se afastar da CASAN para seguir um chamado antigo: trabalhar diretamente com educação e pessoas. “No final de 1998, com quase 25 anos de CASAN, eu me afastei e fui em busca de novas experiências, novos desafios. Trabalhava com bastante gente, mas queria ir trabalhar na educação, porque tinha uma paixão muito grande para estar ensinando”, disse.
Atuou na área educacional, lecionou no ensino médio, trabalhou em órgãos regionais de educação e, posteriormente, empreendeu. Criou empresa de treinamentos, ministrou cursos e palestras em parceria com instituições como Sebrae e Senac, percorrendo diferentes regiões do estado.
Em Anchieta, participou ativamente da implantação de projetos sociais e educacionais, além de assumir funções na administração pública municipal, onde trabalhou por mais 17 anos. Sua atuação sempre esteve ligada ao planejamento, formação e desenvolvimento humano.
Paralelamente, Leonita esteve à frente de diversas entidades e conselhos, sendo frequentemente a primeira mulher a ocupar cargos de liderança: “Não que eu sou mais esperta que os outros, eu sou mais corajosa”, comenta. Câmara Júnior, Conselho da Comunidade, Conselho da Criança e do Adolescente e Lions Clube, são exemplos de espaços onde deixou sua marca.
Família, afetos e valores
A dor do abandono percorre a trajetória de Leonita. Com menos de cinco anos, seus pais se separaram e pouco depois, a mãe foi embora, ficaram três crianças pequenas com o pai, tentando compreender uma ausência que não sabiam explicar.
Foram 17 anos até que ela voltasse a ver a mãe. Nesse intervalo, cresceu com a lacuna de quem partiu cedo demais e com a lembrança de poucos gestos, como o versinho aprendido ainda pequena, antes de ir embora. Quando finalmente se reencontraram, já não era mais a relação de uma criança que corre para o colo.
Ainda assim, Leonita escolheu o cuidado. A mãe morou os oito anos finais da vida dela em sua casa, e foi a filha quem a amparou. Ao ouvir da própria filha que a avó não havia cuidado dela, respondeu: “Sim, porque eu estou mostrando para você como é para fazer comigo”.
Leonita é mãe de três filhos e avó de quatro netas. A maternidade, para ela, sempre foi vivida com intensidade e responsabilidade. Em diferentes momentos da vida, fez pausas na carreira para acompanhar de perto o crescimento dos filhos, convicta de que certas fases não voltam: “Quando tive filhos pequenininhos sempre parava, porque eu dizia, eles nunca mais voltam a serem pequenos, eu tinha que dar atenção”, comenta.
O amor se estende as netas, com quem mantém uma relação de afeto, presença e cuidado: “Eu pauso todas as minhas atividades quando elas veem aqui. Recentemente minhas netas vieram aqui em casa, ficaram um mês, não assumi nenhum compromisso, reservei meu tempo pra elas”, explica.
Casada atualmente com Carlos Terras, com quem construiu uma família ampliada, Leonita valoriza profundamente os vínculos familiares, o respeito entre gerações e a importância de honrar a própria história, inclusive nos momentos difíceis. “Para mim, amor é se importar com o ser e não com o ter, isso é amor”, comenta.
A fé, os valores humanos e a empatia orientam suas escolhas. Para ela, amar as pessoas, respeitar a natureza e ajudar sempre que possível não são discursos, mas práticas cotidianas.
Presente ativo e olhar para a vida
Aos 70 anos, Leonita segue em plena atividade, envolvida com projetos educacionais e convivendo diariamente com crianças. Longe de pensar em parar, ela acredita que o movimento é parte essencial da vida: “Eu acho que vou parar a hora que eu morrer, a menos que eu seja obrigada a parar”, explica.
Para ela, a vida acontece no agora. E enquanto houver pessoas, crianças, ideias e possibilidades, seguirá caminhando, aprendendo e compartilhando aquilo que acredita ser sua missão: “Acho que o principal cuidado que eu tenho que ter é com esse meu estado de espírito, para que eu viva bem, para que eu me sinta bem, a minha presença tem que ser um motivo legal para as pessoas e não um fardo”, conclui.
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