Férias: o tempo que dinheiro nenhum compra

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Igor Vissotto

Vivemos repetindo uma frase que já virou quase um mantra: “o importante é ter tempo de qualidade com a família”. A intenção é boa. Mas, às vezes, ela esconde uma armadilha. Como se alguns minutos bem aproveitados fossem suficientes para substituir a presença constante.

A verdade é que qualidade e quantidade não são adversárias. São parceiras.

Filhos não revelam quem são em meia hora de conversa entre um compromisso e outro. Eles se mostram aos poucos. No banco de trás do carro, durante uma viagem sem pressa. Na fila de uma atração. Em uma caminhada depois do almoço. Em uma gargalhada espontânea ou em um silêncio que pede atenção.

É convivendo que descobrimos do que eles realmente gostam. Qual música escutam. Quais vídeos assistem. Quem são os amigos que ocupam espaço em suas conversas. O que os faz sorrir. O que os preocupa e, muitas vezes, o que escondem.

Nenhum pai conhece verdadeiramente um filho apenas perguntando como foi o dia. Conhece vivendo dias ao lado dele.

As férias têm esse poder quase invisível. Elas desaceleram o relógio. De repente, não existe apenas a rotina de acordar, trabalhar, estudar e dormir. Existe tempo para conversar sem olhar para o relógio, para dividir um chimarrão, para brincar, caminhar, errar o caminho e descobrir um lugar inesperado. São nesses pequenos intervalos da vida que os vínculos se fortalecem.

Também é durante esse tempo que percebemos algo cada vez mais importante: a internet faz parte da infância e da adolescência tanto quanto a escola ou a praça. Saber o que um filho consome nas redes, quem ele acompanha, quais jogos joga e com quem conversa não é invasão. É cuidado. E cuidado exige presença, não fiscalização.

Nenhum aplicativo substitui um pai atento. Nenhum algoritmo compete com uma família que realmente convive.

 

 

Há outra reflexão que as férias costumam despertar.

Passamos anos dizendo que vamos viajar “quando sobrar dinheiro”, “quando o trabalho diminuir”, “quando as contas estiverem em dia”, “quando as crianças crescerem”. O problema é que esse “quando” muitas vezes nunca chega. Enquanto esperamos o momento perfeito, a infância passa. Os filhos crescem. Os pais envelhecem. E oportunidades deixam de existir.

Isso não significa agir com irresponsabilidade financeira. Muito pelo contrário.

É preciso trabalhar. Trabalhar muito, inclusive. Buscar crescimento profissional, empreender, economizar, investir e construir uma vida confortável. Não há demérito algum em desejar prosperidade. Pelo contrário. O dinheiro, quando conquistado com honestidade, amplia escolhas. Permite viajar. Conhecer lugares novos. Descansar. Presentear quem amamos. Criar memórias que permanecerão muito depois de esquecermos quanto custou a viagem.

A prosperidade só perde o sentido quando nos torna especialistas em acumular recursos e analfabetos em viver.

Há pessoas que constroem um excelente patrimônio para usufruí-lo quando tiverem tempo. Só descobrem tarde demais que o tempo não aceita ser guardado em uma conta bancária.

As férias nos lembram de uma verdade simples: o melhor investimento que fazemos não aparece em extratos. Ele aparece nas lembranças dos nossos filhos.

Talvez eles esqueçam o hotel. Talvez não recordem o restaurante ou a estrada percorrida. Mas dificilmente esquecerão que o pai brincou, que a mãe riu, que a família esteve reunida e que, por alguns dias, ninguém parecia ter mais pressa do que a própria felicidade.

No fim das contas, trabalhar continua sendo necessário. Sonhar também. Prosperar, igualmente. Mas tudo isso deve servir para uma finalidade maior: viver.

Porque dinheiro pode comprar viagens. Pode reservar hotéis. Pode pagar ingressos.

O que ele nunca conseguirá comprar é a oportunidade perdida de estar presente enquanto ainda havia tempo.

 

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