Quando uma cidade desfila a própria história

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Igor Vissotto

Há coisas que só fazem sentido quando vistas de perto.

Em uma grande cidade, um desfile de 7 de Setembro pode reunir milhares de pessoas, ocupar grandes avenidas e transformar-se em um espetáculo. Nas pequenas cidades, porém, o significado é outro. Talvez mais simples. Talvez mais verdadeiro.

É o filho que desfila e procura os pais na calçada. É a professora que passa carregando uma bandeira. É o avô que chega cedo para assistir aos netos. É o agricultor que deixa por algumas horas o trabalho na propriedade. É a banda tocando enquanto conhecidos acenam uns para os outros.

No interior, o desfile cívico é também um encontro da comunidade.

Nesta segunda-feira, 7 de Setembro, Palma Sola, Campo Erê e Guarujá do Sul deram mais uma demonstração disso. E fizeram sob um frio daqueles que convidam a permanecer em casa. Os termômetros chegaram a marcar apenas 2ºC pela manhã. Mesmo assim, as ruas receberam gente, bandeiras, escolas, entidades e, principalmente, disposição para celebrar a Independência do Brasil.

Em Anchieta, o desfile aconteceu no domingo, dia 6, em uma escolha que também merece ser destacada. A programação foi organizada para prestigiar a 12ª Feira das Orquídeas de Anchieta, aproximando duas importantes manifestações da comunidade e aproveitando o movimento de um dos eventos tradicionais do município.

São escolhas que mostram como as pequenas cidades sabem adaptar suas tradições sem perder aquilo que elas representam.

Porque o 7 de Setembro não é apenas uma data no calendário. É uma oportunidade de lembrar que cidadania não se constrói somente nos grandes centros, nos discursos oficiais ou nos livros de história. Ela começa justamente onde as pessoas vivem: na escola, na praça, na associação, na igreja, no campo, na rua onde todos se conhecem.

E talvez seja por isso que os desfiles das pequenas cidades tenham uma beleza particular.

Neles, o patriotismo não precisa ser grandioso. Ele aparece em gestos pequenos. Na criança segurando uma bandeira maior do que ela. Na família que acorda cedo. Na professora que ensaia durante semanas. No funcionário público que ajuda a organizar. No músico que toca mesmo com os dedos gelados. No grupo do CTG que desfila a cavalo...

Depois do desfile, Palma Sola ainda teve espaço para uma daquelas tradições que mostram que celebrar a comunidade também pode ser divertido.

A tradicional Lotopé da Independência Celso Hartmann transformou os 100 metros livres em uma divertida disputa entre duplas de palmassolenses. Ali, mais importante do que cruzar a linha de chegada em primeiro lugar é a resenha antes da largada, a torcida dos amigos, as provocações e as risadas depois da corrida.

É esporte, mas também é convivência.

E talvez esteja aí uma das maiores riquezas de uma pequena cidade: a capacidade de transformar um evento em memória coletiva.

Da criança que desfila hoje e amanhã talvez leve o próprio filho para assistir, ao corredor que entra na pista para disputar uma prova de 100 metros diante dos amigos, existe uma mesma história sendo construída. Uma história feita por pessoas que dividem o mesmo território e, principalmente, o sentimento de pertencer a ele.

Por isso, ficam os parabéns a Palma Sola, Campo Erê, Anchieta e Guarujá do Sul pelos desfiles de 7 de Setembro.

Parabéns às administrações municipais, escolas, entidades, professores, servidores, músicos, estudantes, famílias e a todos que participaram.

Num tempo em que tantas tradições desaparecem silenciosamente, manter uma comunidade reunida em torno de seus símbolos, de sua história e de suas próprias pessoas é algo que merece ser valorizado.

Porque, nas pequenas cidades, quando uma criança desfila pela rua, não é apenas a Independência que está passando.

É a própria cidade contando quem ela é.

 

 

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