24/08/2015 às 17h11min - Atualizada em 24/08/2015 às 17h11min

“Trabalhando mais e produzindo mais”

Em tempos de crise no Brasil, um dos sistemas que está dando certo e cada vez mais mostra seu potencial e valor é o sistema cooperativo

Igor Vissotto/Francieli Perondi
Região
Divulgação

Em tempos de crise no Brasil, um dos sistemas que está dando certo e cada vez mais mostra seu potencial e valor é o sistema cooperativo.  Em nossa região, onde a base da economia é a agroindústria, as cooperativas de crédito surgiram voltadas para este público, mas cada vez mais expandem seus negócios, e hoje trabalham com todos os tipos de associados. Uma dessas cooperativas, que é forte e consolidada em nossa região contando com mais de 42 mil associados, é o Sicoob São Miguel, criada há 26 anos.

Para falar sobre o cenário econômico atual e a ação das cooperativas de crédito em tempos de crise, o diretor do Jornal Sentinela, Igor Vissotto, conversou, na sede do Sicoob São Miguel, com o presidente da cooperativa, Edemar Fronchetti. Acompanhe a entrevista:

 

Como você, Fronchetti, avalia o cenário econômico em nossa região?

Nossa região tem um PIB centrado na agroindústria, que hoje não enfrenta recessão; o valor do leite subiu, o do grão também está alto e a produção continua grande. Mas a crise existe e o Sicoob São Miguel trabalha esse cenário econômico. Estamos buscando continuar a trabalhar com as linhas de crédito como já estávamos fazendo. Temos recursos garantidos para o crédito rural, e investimentos do BNDES, ou seja, as linhas de crédito para o setor produtivo estão garantidas. Nosso foco não é o crédito na área de consumo, e pretendemos manter isso, ao contrário da área de produção, que vamos buscar expandir, pois acreditamos que é assim que se sai da crise, trabalhando mais, produzindo mais e acreditando em nosso potencial.

Como a cooperativa lida com o crédito para a área de consumo?

As pessoas que já têm a linha de crédito conosco, vamos manter. Mas estamos conversando com os associados quando nos procuram em busca de crédito, para saber se realmente é a hora de ele investir esse volume de recurso em um determinado negócio. Não é que a cooperativa queira se meter na gestão das atividades do associado, mas precisamos questionar, como parceiros, para ver se esta é a melhor hora do investimento, ou se o associado corre o risco de se endividar e não conseguir dar o giro.

Podemos dizer que mais uma vez é o setor agrícola que vai manter nossa economia?

Sim, mais uma vez esse setor vai ser a salvação da economia. Estamos diante de uma situação complicada, vamos passar por ela, mas não sabemos quanto tempo isto vai levar.

Como o Sicoob está ajudando o associado que está em crise?

A cooperativa está buscando a elasticidade de prazos. Nós temos associados que têm financiamentos e estão nos procurando para renegociar, refinanciar. Isso aumentou um pouco, não é nada muito preocupante, mas aumentou. Diante disso, a cooperativa age cooperando com o associado, não há uma receita pronta que se aplique em todos os casos, então nós sentamos com o cliente, conversamos e analisamos os casos um por um. A gente precisa conversar para saber como solucionar o problema.

Como está a inadimplência do associado?

A inadimplência não aumentou muito, tínhamos uma média histórica de 1,3% ou 1,4% de inadimplência. Hoje estamos em 1,8%, mas esses são casos pontuais. Ninguém fica devendo porque gosta, e a gente quando emprestou o dinheiro é com a intenção de gerar produção, movimentação econômica, só que muitas vezes isso não se concretiza.

 

Essa conversa com o associado é uma maneira de fidelizar o cliente?

É a forma das cooperativas atuarem. Mas também busca a fidelização. A gente sabe que a hora que passar a crise nós precisamos estar vivos no mercado para continuar produzindo, trabalhando, então não adianta radicalizar, nem do lado do devedor, nem do lado da cooperativa, afinal somos uma cooperativa, onde os donos são os associados. Por isso eu acredito muito no crescimento das cooperativas em épocas de crise, porque é nesses momentos que a gente mais lida com as pessoas que estão em momentos delicados, e quando a crise passa, temos um novo associado, alguém que foi fidelizado e passa a integrar o sistema cooperativo.

 

Essa é a ideologia do sistema cooperativo?

Sim. Se formos estudar a origem das cooperativas, nenhuma delas foi criada em um momento excelente para seus fundadores, geralmente elas nasceram em períodos onde havia dificuldade na negociação de produtos, da agropecuária, dificuldade de crédito, dificuldade na área de consumo. Ou seja, as cooperativas surgem para solucionar problemas, enfrentar crises, melhorar a vida das pessoas.

 

A crise no Brasil vai além da econômica?

A meu ver o Brasil está passando mais por uma crise de confiabilidade do que uma crise econômica, e essa é ainda pior, pois os negócios só acontecem quando há confiança. Sem dinheiro eu posso começar um negócio, se sou confiável, mas com dinheiro e sem confiança o negócio não acontece. As pessoas devem ter mais cuidado, não apenas pelo fator econômico, mas pelo fator de confiabilidade. A confiança do Brasil vai ser recuperada quando as instituições brasileiras funcionarem. Temos crise política, a corrupção está em evidência e isso tira a confiança das pessoas, dos investidores.

O que pode ser apontado como um dos caminhos para sairmos dessa crise?

Precisamos criar um novo modelo de distribuição de renda, produção. Precisamos ter criatividade, melhorar o que já fazemos bem, e ter a capacidade de entender o que não está dando certo para podermos cortá-los. A mudança e boa, mas a gente não gosta dela. Acredito que no próximo ano, desde que tenhamos um desenvolvimento político, as coisas comessem a andar e a efetivamente melhorar.

E o que vai acontecer então?

Se as coisas começarem a melhorar vamos ter que derrubar nossos juros, porque para o setor produtivo é difícil absorver juros desse patamar, custos intermediários de energia elétrica, transporte e combustível. Todos esses preços controlados. Tenho algumas dúvidas quando se fala de retardar aumento de preços, pois é como represar água, uma hora ela pode causar uma enchente. Então é melhor deixar a água correr em um fluxo constante, todo dia incomodando um pouco, mas andando.

 

Vamos sair dessa situação mais fortes?

Sim. E o agronegócio vai sair beneficiado disso, porque ele é forte, é um trabalho de famílias, que produzem, geram e ajudam a economia. E outra, estamos em uma região de gente trabalhadora, pessoas que têm vontade e fazem acontecer. Aí vemos porque o cooperativismo tem um papel fundamental, porque ele tem uma importância grande no desenvolvimento local, regional, fazer as coisas acontecer onde estão as pessoas.


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