18/03/2019 às 13h46min - Atualizada em 18/03/2019 às 13h46min

Para ficar mais seguro, fogão vai perder a tradicional tampa

Produto que mais causa acidentes, segundo dados do Inmetro, terá normas padronizadas no Mercosul
 

tradicional paninho sobre o fogão, um clássico nas cozinhas brasileiras, está com seus dias contados. O Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) está reformulando a regulamentação dos fogões para aumentar o nível de segurança do produto, e uma das primeiras medidas é a eliminação da tampa. A mudança será feita por meio de portaria que deve ser publicada em três meses. Os fabricantes terão 12 meses para se adaptarem.

- A tampa só torna o fogão mais caro e aumenta o risco de acidentes para o consumidor. Por isso, vamos publicar uma portaria determinando sua eliminação. Na maior parte do mundo, os fogões já não têm tampa- explica Marcos André Borges, coordenador do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) do Inmetro.

Essa é apenas a primeira das mudanças previstas para a nova regulamentação do produto, que é o maior responsável pelos acidentes registrados no banco de dados do Inmetro (Sinmac), com 15% do total dos relatos. A última revisão nas regras de certificação dos fogões havia sido feita em 2012. No entanto, algumas modificações, como a determinação de redução na temperatura das laterais, para diminuir o risco de queimaduras, só foram implementadas no ano passado.

- Algumas mudanças precisam de mais tempo de adaptação da indústria, pois exigem revisão de projeto, mudanças na fabricação e de toda a cadeia produtiva. Um período de cinco anos pode parecer muito tempo, mas, se aceleramos demasiadamente o processo, podemos encarecer o produto, de tal forma a levar brasileiros dos cantões do país de volta ao fogão a lenha - explica Borges.

Padrão Mercosul

Desta vez, a alteração no padrão do eletrodoméstico será feita em consonância com o Mercosul. E uma das medidas que serão adotadas prevê a redução da eficiência energética em prol da maior segurança do produto. Na prática, isso significa dizer que o consumidor vai gastar um pouco mais de gás para garantir que as grades de mesa do fogão sejam mais seguras.

É que para garantir o selo A, do PBE - um dos critérios de escolha para os consumidores -, explica o coordenador do programa, os fabricantes foram desenvolvendo grades que interferissem o mínimo possível com a chama, garantindo um menor consumo de gás. O resultado, no entanto, diz Borges, é insatisfatório em relação à segurança.

- A instabilidade das grades responde por 27% dos relatos de acidentes com fogões. Por isso, optamos por abrir mão do selo para que as empresas possam desenvolver grades de espessuras e materiais diferentes que deem maior estabilidade às panelas - esclarece Borges, lembrando que as panelas também são certificadas pelo Inmetro.

Novas regras aperfeiçoam fabricação

  • Cada queimador terá uma válvula para cortar o gás, caso a chama se apague
  • As panelas também já são certificadas pelo Inmetro
  • A tampa de vidro do fogão será eliminada, reduzindo riscos de acidente
  • As grades devem ganhar novo formato e podem vir a ser produzidas em material diferente do atual, tudo para dar mais estabilidade às panelas. Essa mudança vai significar maior consumo de gás, mas vai garantir mais segurança
  • No forno, as grades deverão sair mais da caixa do fogão para evitar queimaduras
  • Os fogões terão que vir com dispositivos para fixação para evitar tombamento e deslizamento, motivos de vários acidentes

15% dos acidentes registrados no Sistema Nacional de Monitoramento de Acidentes do Inmetro (Sinmac) acontecem com fogão

27% dos acidentes com o produto estão relacionados as grades das mesas de queimadores

7% das pessoas que se acidentaram com fogão precisaram de atendimento médico

7% foram afastadas de suas atividades por prescrição médica

Fonte: Inmetro

Segundo o coordenador do PBE, o impacto na conta de gás não será significativo. O nível de exigência de consumo do produto, diz ele, ficará entre o que é previsto hoje nas classificações B e C do programa de eficiência energética.

Ainda na mesa do fogão, outra novidade que será adotada simultaneamente por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai é a exigência de válvulas em cada um dos queimadores para garantir o corte do gás caso a chama se apague. O sistema é o mesmo já presente nos fornos, que, pela nova regra, terão grades que saiam mais da caixa do fogão para evitar queimaduras.

Diante dos relatos de tombamento e instabilidade dos fogões sobre os pisos das cozinhas, quase sempre muito lisos, a nova regra preverá ainda que o produto passe a contar com presilhas de fixação. O acessório já é obrigatório na Argentina.

O novo regulamento para a fabricação de fogões no Mercosul deve ser publicado este ano. O prazo previsto para a implementação integral é de até quatro anos.

Registro de acidentes

Segundo Borges, 7% dos acidentes relatados ao instituto exigiram atendimento médico. E, do total de registros, 7% resultaram em afastamento do consumidor das suas atividades por prescrição médica.

- Tão importante quanto tornar o produto mais seguro é orientar o consumidor para fazer o melhor uso dele. Por isso, junto com a mudança na regulamentação, vamos fazer uma campanha de conscientização da população para alertar sobre os riscos e chamar atenção para a importância do relato dos acidentes ao Inmetro - antecipa Borges.

Os consumidores brasileiros, diz Paulo Coscarelli, pesquisador da Diretoria de Avaliação da Conformidade do Inmetro, não têm a cultura de registrar acidentes:

- Há uma subnotificação de acidentes de consumo no país. Para se ter uma ideia, temos um quinto dos relatos de acidentes registrados no Canadá. E, apesar de ser baixo o número de registros, ainda assim ele é um importante sinalizador de risco e orientador da nossa atuação.

Procurada, a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) ressaltou que a prioridade absoluta da indústria é a segurança do consumidor. E informou trabalhar com o Inmetro no aperfeiçoamento das regulamentações no âmbito do Mercosul.

Fonte: Portal Tri 



 
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