15/04/2019 às 08h31min - Atualizada em 15/04/2019 às 08h31min

Esporte: cuidado com o coração

A morte do radialista Rafael Henzel após sofrer um infarto enquanto jogava futebol despertou um alerta sobre a prática de atividades físicas

No fim do mês passado a morte do radialista Rafael Henzel, um dos sobreviventes da tragédia da Chapecoense, trouxe um alerta. Rafael tinha 45 anos e faleceu após sofrer um enfarto enquanto jogava futebol. A questão levantada é justamente sobre os riscos relacionados ao coração quando falamos sobre atividade física.

Juarez de Oliveira Pinto, 70 anos, já foi jogador profissional, é médico desde 1974 e destaca que em 44 anos de trabalho só viu um caso de um jogador infartar em campo.

O que leva atletas profissionais infartar durante uma atividade física?

O principal é não haver exames médicos específicos e periódicos. Percebo que alguns clubes estão começando a se atentar a isso. Outra coisa é que existem doenças cardíacas e pulmonares que só se manifestam quando há um esforço físico e não apresentam sintomas quando se está em repouso. O atleta que eu acompanhei e vi infartar em campo, foi o Beto que jogava no Guarapuava. Ele não morreu, mas teve um mal súbito durante o jogo, caiu no meio do campo onde foi atendido e os exames mostraram que ele havia infartado.

Este é o grande medo que temos, quando falamos de atletas de alto nível. Eles precisariam fazer exames contínuos, e com sobrecarga de trabalho, uma vez que o esforço do pulmão e coração no fim de uma partida é muito maior que no começo do jogo.

Há ainda algumas doenças que são adquiridas durante a gravidez, ou que são genéticas e só vão se manifestar depois de uma certa idade. Por exemplo, um atleta de 20 anos que tem um sopro cardíaco, a vida dele está bem, ele ainda é jovem, mas o coração envelhece, porque durante anos da vida ele sofreu com sobrecarga no coração, no pulmão, nas articulações, ou seja, podemos dizer que o coração dele “cansou”. Ironicamente eu sou um exemplo, não consigo nem andar direito, fui atleta profissional até os 22 anos, depois virei jogador de final de semana e a paixão pelo futebol era tanta que acabei com o meu joelho.

Para que um problema grave de saúde não vitime um atleta é preciso que existam exames periódicos específicos. Por exemplo, um sopro no coração, pode ser identificado com muita antecedência.

E quanto aos atletas de “fim de semana?”

Os atletas de fim de semana devem fazer no mínimo um exame médico. Todos devem fazer estes exames, principalmente no futebol amador, onde os atletas dão o máximo no esforço físico, sem estar preparados. São exames básicos como um eletrocardiograma que pode ser solicitado no posto de saúde. Se der tudo normal ok, mas se aparecer alguma dúvida ele precisa fazer o teste de esforço na esteira, chamado teste ergométrico. Recomendo isso pra quem disputa campeonato amador e campeonatos municipais.

Além disso, a recomendação é que eles comam bem, duas horas antes do jogo, carboidratos como macarrão, batata, isso na véspera e antes do jogo. Atleta precisa de carboidrato. Passei por uma situação quando morava em Aratiba-RS, um atleta desmaiou no meio do campo, fui ver e ele tinha desmaiado por hipoglicemia, simplesmente tinha jantado na noite anterior e nem dormido bem, além disso, de manhã não tinha tomado café e foi para o jogo, aí desmaiou. A glicose normal é de 80 a 100%, e ele estava em 50%, desmaiou por hipoglicemia.
 
E pra quem pratica academia?

Eu acho que o grande problema desses atletas, é não ter um regime alimentar e nem os exames necessários. Na academia eu também vejo muitas sobrecargas, o bonito hoje é ser forte, pode até não estudar, mas tem que ser forte. As academias eu noto que já tem certo cuidado, mas é preciso exigir alguns exames como hemograma, glicemia, eletrocardiograma.

Por exemplo, o teste ergométrico registra como seu coração está funcionando, se comportando. Esses atletas de academia deveriam ter todos esses exames, anualmente pelo menos. Outra coisa, vejo sobrecarga de trabalho para o corpo, falando sobre academia, ele deve visar o bem físico, psicológico, não só corporal.

Pra quem os riscos são maiores?

A faixa etária de maior risco em um atleta profissional de nível é a partir dos 30 anos.  Estes atletas passam a receber uma sobrecarga já muitos novos, com 12 anos já temos competições de rendimento. Dessa forma, aos 30 anos o coração está cansado, o pulmão sofreu também.

Existem atletas que mal melhoraram de uma lesão ou algo assim e já estão jogando de novo. Machucam joelhos, fazem cirurgias e voltam com tempo recorde.
 
Sobre Juarez
O médico Juarez de Oliveira Pinto, estudou no Colégio Militar de Curitiba, e depois formou-se em medicina no ano de 1974. Atua na região de Palma Sola, São José do Cedro, Flor da Serra do Sul e Anchieta desde a década de 90. Já foi jogador de futebol profissional, jogando no Atlético Paranaense, de 1966 até 1972. Juarez atuou no departamento médico do Atlético Paranaense entre 1973 e 1974, como estagiário de ortopedia com supervisão do médico José Schiavon. Após formado foi médico do Guarapuava Esporte Clube, de 1974 até 1982. Tem 70 anos e no dia anterior a entrevista havia trabalho 14 horas.
 
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