12/06/2019 às 11h06min - Atualizada em 12/06/2019 às 11h06min

“Vale a pena ser professora”

A fala é de Joice Lalle Laste, professora do Claudino Crestani que na última sexta-feira ministrou sua última aula em sala

Quem mora em Palma Sola e estudou na Escola Estadual Claudino Crestani certamente sabe quem é a professora Joice Lalle Laste. Com um perfil calmo e uma postura segura em sala, a professora, que completa 52 anos em julho, ministrou na última sexta-feira sua última aula de matemática.

Joice, que também foi aluna do Claudino Crestani, encerrou o ensino fundamental em Palma Sola em 1982, mudou-se para Pato Branco onde completou o ensino médio e junto com ele o magistério. Depois de formada iniciou a graduação em matemática, tendo sido bem colocada no vestibular, inclusive. Ela, que sempre gostou e matemática, diz lembrar claramente do professor Cleunir ensinando equação do primeiro grau, e da professora Marilete falando sobre cálculos.

O período da graduação não foi exatamente fácil. Quando iniciou a faculdade era a Funesp e no decorrer do curso passou a se chamar Cefet. Os dois primeiros anos da graduação eram focados em ciências, então aprendeu sobre biologia, zoologia, botânica, e diversas outras áreas da ciência. Depois, era preciso decidir por matemática, física, biologia ou alguma outra área específica. Os números e fórmulas da matemática ganharam, e essa foi a opção de Joice.

A professora viveu por 13 anos em Pato Branco, dos quais um ano e meio foi dando aula. Nesse tempo casou, teve um filho, o Nathaniel, e após a faculdade se divorciou. Em 1995 voltou para Palma Sola. Joice tinha 27 anos, um filho, e uma bagagem de pouco mais de um ano em sala. Foi convidada pela então secretária de Educação Rosa Vargas e pela professora Nilza Sufredini para dar aulas no Núcleo de Avançado de Ensino Supletivo (Naes), mas também recebeu um convite da então diretora do Claudino, Marilete Schneider para atuar na escola onde havia estudado. Joice aceitou e em agosto de 1995 iniciou suas aulas de matemática no Claudino. “Eu sempre quis ser professora”, afirma.

Em Pato Branco, Joice ministrava aula no ensino fundamental, séries iniciais, especificamente para turmas do interior, numa escolinha da comunidade Passo da Ilha. “Entrar em uma sala pela primeira vez tendo a responsabilidade da turma ser sua é uma sensação edificante. ‘Agora sou eu, a turma é minha’, é bem diferente dos estágios”, comenta.

Joice destaca que não é algo fácil, mas é gratificante. “Você encontra diversos saberes em uma sala de aula, diversas culturas, estilos de vida, cada um vem de uma família diferente. Quando você é professor é responsável pelo ensino das disciplinas, pela educação deles, pelo cuidado. Às vezes você precisa colocar a mão no ombro e pedir o que aconteceu, olhar nos olhos e dizer: ‘vai passar’. Ou então você se limita a dar um abraço. Ser professor é um desafio, uma missão, mas é gratificante, desde o primeiro dia até o último”, afirma.

A professora conta que voltar para o Claudino Crestani, de onde saiu como aluna, e voltou como professora foi uma sensação diferente. Apesar de tudo, foi acolhida por professores e alunos, trabalhando ao lado daqueles que um dia foram seus mestres. “Eu vim para somar, e acredito que tenho feito um bom trabalho até então”, enfatiza.
As aulas eram ministradas para o ensino médio com algumas horas no fundamental. Efetivou-se como professora em 1999, trabalhando com adolescentes. Conforme ela ministrar uma aula tem todo um encantamento, mas às vezes é preciso deixá-lo de lado. “Às vezes o puxão de orelha é por que queremos o bem deles, queremos que cresçam enquanto pessoa. Tem turmas e turmas, se levássemos apenas alguns alunos em consideração acho que desistia, temos, e sempre teremos, alunos que nos desanimam. Mas também temos aqueles que nos dão força para continuar. É sempre um equilíbrio”, destaca.

Sobre a educação nos dias de hoje, Joice pondera que existe um sistema difícil de se trabalhar. Conforme ela há muita liberdade para os alunos, e às vezes chega o ponto em que é difícil o professor ter o domínio da sala. “Por conta de toda uma situação que vivemos hoje, que envolve as famílias e os sistemas de trabalho, acaba que a escola precisa impor limites, e isso não é fácil”, salienta.

Fazendo um comparativo com as primeiras turmas que formou, nos anos de 1995 e 1996, por exemplo, com os alunos atuais, Joice vê uma mudança significativa. “Antigamente tinham uma mentalidade, se formavam aos 17 mais maduros, podíamos trabalhar com eles tendo amizade, hoje não dá pra fazer isso, porque eles não tem maturidade. Tem que ter um distanciamento entre professor e aluno”, comenta.

A didática em sala de aula foi mudando com o tempo, conforme Joice é uma construção ao longo da caminhada. Por vezes a maneira como se trabalha com uma turma é diferente de como se trabalha com outra, a didática se modifica, se atualiza, o que permanece é o gosto pelo ensinar. “Aí entra o grande impasse, o que fazer para atingir a todos? Por vezes são 20, 30 em uma sala, e cada um pensa diferente, aprende diferente, se comporta diferente. É um desafio”.

Falando sobre a matemática, Joice diz que é difícil definir se ela é um conteúdo fácil ou difícil. “Essa imagem da matemática como um bicho papão permanece desde quando eu estudava. Tem alunos que dizem que gostam muito da profe, mas não da matemática. Mas algumas coisas vem mudando, quando os professores também se moldam, se modificam, se lapidam de acordo com a realidade, é mais fácil de atingir os alunos e ensinar, até mesmo a matemática”, comenta.

Ao longo dos 25 anos de caminhada em sala de aula, Joice, ao deixar o Claudino Crestani, permanece com algumas dúvidas. Pergunta-se o que mais poderia ter feito, se ela enquanto professora fez tudo o que podia pela escola e pelos alunos. Permanecem os questionamentos e as muitas boas lembranças. “Lá em 97, quando fui regente dos formandos pela 1º vez, eu criei com eles um grande laço de amizade, e são amizades que duram até hoje.  Tem outras turmas que vieram até minha casa fazer chocolate quente, comer pipoca, ou que no dia do professor me fizeram chorar com declarações. São coisas emocionantes. Alunos que nos abraçam não só no dia do professor ou no aniversário. Que chegam, dão um abraço e nos dizem ‘ah professora você é tão querida’”.

Joice lembra de um exemplo que marcou, pela simplicidade e pelo valor das palavras do aluno. “Teve um aluno no ano passado, bem humilde, que vive uma realidade precária e tem dificuldades na escola. Ele me olhou e disse ‘professora como você é amorosa com nós’, e isso me deixou sem palavras, porque de fato eu tratava eles com amor. E se ele, na condição que vive, foi capaz de perceber é por que estou fazendo o certo, são essas demonstrações que fortalecem a gente na caminhada”, relembra.  
Muito mais que passar conteúdo didático e falar sobre conhecimento, ser professor também é saber ouvir, “Às vezes tu se prepara para dar uma aula e chegando lá não consegue fazer o que planejou. Ou por que não entenderam o conteúdo da aula passada, ou por que precisam conversar sobre outro assunto. Os alunos confiam em nós, e precisam disso também, desse aconselhamento, de uma orientação, do acolhimento. Por vezes a dúvida não é na matemática, são conflitos interiores, próprios da adolescência e que eles precisam conversar com alguém. Ser professor também é saber ouvir”, afirma.

Sobre o fim da carreira, Joice destaca que não tem como estar preparada para se despedir. Chegando o dia ela percebeu que era difícil para os alunos também, alguns sentirão saudades, outros não, mas ela vê como um privilégio poder se aposentar da sala de aula bem, com saúde, energia e disposição. A sexta-feira foi um dia diferente, com manifestações de carinho, flores, cartões, abraços, presentes, quadros desenhados e surpresas. “Foi muito bonito, um reconhecimento bem carinhoso por parte deles que me deixa bem contente. Tive muitos abraços, alguns bem emocionados, inclusive de alunos que eu nem esperava que me abraçassem e que vieram com os olhos úmidos. Foi um dia de carinho, com abraços demorados, apertado, em que a pessoa não quer se afastar, como quem diz: ah, fica mais um pouquinho”, conta, emocionada.

A despedida teve carinho e presentes dos colegas também. No fim, Joice destaca que é uma caminhada de 25 anos em sala, onde teve seus erros e acertos, mas afinal todo ser humano está sujeito à falhas. “Acredito que as coisas boas que fiz e deixei são bem maiores do que as não boas. Tudo o que nos doamos para a educação, e para a escola, fazemos com carinho, por que os alunos estão lá para crescer como pessoa e cidadão. E nós professores fazemos aquilo que no momento nos parece o melhor. A gratidão é constante. Agradeço a Deus por ter me dado força e paciência, aos meus colegas e alunos que são a razão do meu trabalho, e peço que se e alguma vez falhei, espero que possam me perdoar. Na escola nem tudo são flores, há muitos espinhos, mas as rosas são assim, precisamos vencer os espinhos para desfrutar da beleza da flor. No fim vale a pena, ser professor, educador. Enquanto as pessoas se preocuparem umas com as outras ainda há esperança de uma educação melhor, e um mundo melhor”, finaliza.
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