05/07/2019 às 08h10min - Atualizada em 05/07/2019 às 08h10min

De Cedro para o mundial

A cedrense Luiza Bortolini participou da conquista do mundial de futsal feminino

Das lesões até o título
Luiza conta que precisou se recuperar de duas cirurgias, ficou fora da conquista da libertadores, mas voltou com tudo para o mundial
 
A cidade de São José do Cedro, assim como o time das Leoas da Serra e todos os amantes do futsal estão em festa! O motivo? A conquista de um clube brasileiro que disputou o primeiro mundial de futsal e faturou o título. A equipe das Leoas conta com muitas atletas destaque, dentre elas a melhor do mundo Amandinha, a capitã da seleção brasileira Diana e a cedrense Luiza Bortolini, que representa o orgulho do Oeste de Santa Catarina.
Luiza tem 21 anos, mora em Lages atualmente onde treina com as Leoas e cursa fisioterapia. Aproveitando um pouco das férias da faculdade e dos treinos pós conquista do mundial, Luiza esteve em Cedro para visitar a família e foi bombardeada com entrevistas, fotos e depoimentos. A equipe do Sentinela conversou com Luiza na última quinta-feira, dia 27, na sala onde seu pai mantém exposto nas paredes duas grandes paixões: fotos, troféus e lembranças do Internacional, disputam espaço com fotos e recordações de Luiza em seus momentos de vitória. O local é um verdadeiro santuário de futsal e futebol, onde o clima da vitória estava fresco, no ar.

O começo
O amor pelo futsal começou no time da escola, que era treinado pelo professor Arlei em São José do Cedro. Luiza tinha 7 anos e escolheu futsal por influência do pai, e por que como não tinha escolinha de campo para meninas, a quadra era a opção disponível. A equipe de Cedro chegou a ter um grande time de futsal feminino, que disputava competições escolares como as da Fesporte.
Luiza conta que Arlei era o professor de educação física e os treinos eram três vezes por semana. “Íamos na escolinha, na aula e brincávamos”, lembra. Em 2011 teve uma competição na cidade de Gaspar na qual as meninas do Cedro disputavam o estadual sonhando com a vaga para o nacional dos jogos escolares, que seria realizado em João Pessoa.
Não deu para a equipe de Cedro, que perdeu para Caçador. Mas foi nesse jogo que o treinador de lá convidou Luiza para jogar pela equipe de Caçador o Estadual de Clubes, promovido pela federação catarinense. Luiza tinha 13 anos. “Por incrível que pareça meus pais deixaram. Eu estava mais com o pé atrás do que eles, estava insegura, mas eles me apoiaram muito, me incentivaram dizendo pra eu ir, se não desce certo era só eu ligar que eles iam me buscar. Então eu fui e a partir daí me joguei de cabeça no futsal”, conta.
Então Luiza jogou, e venceu, o Estadual de Clubes com o time Kindermann. Jogar com uma equipe profissional foi outra realidade. Ela conta que lá em Caçador era um alojamento onde ficavam três meninas por quarto e que tinham a vida voltada para o futsal: treinos, academia, jogos e a escola. Até que o técnico de Caçador fechou contrato com o time de Chapecó e convidou Luiza para vir para a Capital do Oeste jogar pela equipe da Female.

Nova equipe, novo começo
Luiza ficou por cinco anos em Chapecó, dos 13 aos 18 anos, jogando pelo time da Female. Nesse período concluiu o ensino médio, entrou pra faculdade de fisioterapia e foi se profissionalizando no futsal. A mudança de Caçador pra Chapecó também foi grande, e novamente ela contou com o apoio dos pais. Com essa equipe Luiza disputou várias competições da Federação Catarinense até os Jogos Abertos de Santa Catarina e os jogos escolares. Também foi enquanto estava na Female que Luiza foi para a seleção catarinense sub 15.
“Em Chapecó encontrei pessoas que super me ajudaram, meu treinador e o dono do time, que me acolheram muito, além de poder contar com o apoio dos meus pais.  Eu morava pertinho da escola então pela manhã estudava e a tarde treinava. Eu sempre me senti muito madura, por que eu conseguia me adaptar a essa realidade, não foi algo difícil, mesmo com treinos diários, estudos e tudo mais. Eu sentina minha família perto, isso foi fundamental”, afirma.

As Leoas e a Seleção Brasileira
Até que, em 2015 Luiza foi disputar uma competição dos Jogos Abertos pela equipe de Lages. “Eu amei o time de lá e o dono da equipe me convidou pra jogar com eles no ano de 2016, eu fui. A partir daí minha vida mudou radicalmente”, afirma.
A primeira mudança foi estar ainda mais longes dos pais, que mesmo com a saudade continuaram apoiando a filha. Além disso, 2016 foi o ano em que Luiza foi para a Seleção Brasileira sub 20. Ela tinha 18 anos. “Foi louco, uma experiência muito legal, realmente incrível. Fui eu e mais duas colegas da equipe de Lages para a Seleção. Foi a partir daí que eu comecei a entender o comprometimento que eu tinha que ter”, comenta.
No primeiro encontro da Seleção os técnicos foram até Lages com as outras atletas para a concentração. Era inverno, em pleno frio de junho as meninas vestiam a amarelinha para os treinos. Pouco depois teve outra concentração em Brasília para montar o time da Seleção Sub 20 que iria disputar o Sul Americano. Foram duas semanas de treino e a equipe foi para o Paraguai. “Fomos campeãs ganhando do time da casa na semifinal por 2x1 e da Colômbia na final por 4x1. A sensação de vestir uma amarelinha é emocionante do início ao fim, desde tu colocar ela e cantar o hino. Vem uma responsabilidade boa de carregar contigo a família, os amigos e o país. Tem toda uma emoção, a amarelinha tem um peso especial!”, afirma.
Paralelo ao desempenho na Seleção, a equipe das Leoas da Serra também construía uma trajetória de sucesso. A equipe de Lages disputou o estadual sub 20, e conquistaram ainda o terceiro lugar no estadual adulto. “Foi incrível porque estávamos jogando contra atletas mais velhas e mais experientes. Pra nós, conseguir uma colocação no estadual adulto foi bem significativo”, afirma.

Reviravolta
No fim de 2016 aconteceu uma mudança que foi fundamental para o futsal feminino. No auge do sucesso, com troféus em competições nacionais e continentais, a equipe adulta do Barateiro Futsal, de Brusque, encerrou as atividades. Foram dezenas de títulos conquistados, dentre eles duas Taças Libertadores da América em 2015 e 2016. Além disso, o clube revelou muitas atletas de seleção, dentre elas a Amandinha (melhor do Mundo) e a Diana (Capitã da Seleção). “O time simplesmente acabou, não tinha mais verba, nem patrocínio. Então as duas melhores vieram pra nós, jogar com as Leoas”, conta Luiza.
Amanda Lyssa de Oliveira Crisóstomo, é a cearense mais conhecida como Amandinha, cinco vezes eleita melhor jogadora do mundo de futsal feminino, hoje com 24 anos. E Diana dos Santos, hoje com 27 anos, é de Caxias, capitã da Seleção Brasileira de futsal e a 5ª no ranking mundial. “Elas são dois grandes exemplos de atletas do futsal que passaram a atuar pela equipe de Lages. Mudou o nosso pensamento sobre futsal, depois que elas chegaram nos sentimos muito amadoras. Elas mudaram a nossa realidade”, afirma.

A potência das Leoas da Serra
A primeira competição que as duas atletas referência disputaram com a equipe de Lages foi a Taça Brasil, no fim de 2016, onde ficaram em segundo lugar, perdendo o jogo final. Mas a partir daí, já no ano de 2017, tanto a diretoria do time como as atletas mudaram a percepção de jogo e a equipe das Leoas da Serra só cresceu, começando a caminhada rumo ao mundial.
A equipe ganhou a Copa do Brasil em 2017, onde conquistou a vaga para a Libertadores que foi disputada em 2018, onde foram campeãs. Com a conquista da Libertadores veio também, a vaga para o mundial de futsal.

As lesões
“Eu tive duas lesões muito sérias em 2017 e 2018. Fiz duas cirurgias, uma em cada joelho, e fiquei seis meses parada em cada cirurgia. Agora em 2019 que estou voltando, por que fiquei o ano de 2018 quase todo parada. Quando as meninas ganharam o título da Libertadores eu não pude jogar, por que estava machucava”, lamenta.
Luiza conta que na primeira lesão não entendia muito bem como seria, qual a proporção disso em sua carreira. Para ela era algo novo, acreditava que era só operar e voltar a jogar, mas precisou enfrentar seis meses de recuperação. Luiza perdeu competições importantes, e paralelo às dores da recuperação no joelho precisava lidar com a dor de estar fora das quadras. “Minha maior dor foi ter ficado fora da Libertadores ano passado. Era nossa primeira grande competição e eu nem consegui viajar com as meninas para o Paraguai pois estava no pós cirúrgico”, comenta. Conforme ela, enfrentar a segunda lesão foi mais tranquilo por que ela já sabia com seria o tratamento e a recuperação.
Então Luiza voltou a jogar no final do ano passado, e mesmo com as duas cirurgias, em nenhum momento pensou em desistir do futsal. “Eu sabia que ia conseguir dar a volta por cima, tinha muita confiança nisso, confiava em mim. Sabia que ainda conseguiria contribuir para o time de alguma forma. Isso foi fundamental, eu me sentia muito importante dentro do time, elas faziam eu me sentir importante”, comenta. Então Luiza se recuperou, treinou e voltou para as quadras.

O mundial
Tudo começou no começo de 2019 quando a SporTV resolveu transmitir os jogos das Leoas. “Logo o SporTV que é o maior canal de esportes do Brasil”, afirma Luiza. Com a transmissão a equipe, e o futsal feminino, ganharam visibilidade. “Foi algo fora do normal, não tínhamos nem proporção”, comenta. A cada jogo a equipe conquistava mais seguidores no Instagram, curtidas, fotos e construía uma legião de fãs que as acompanhavam na TV. Então, com a transmissão e a visibilidade vieram os patrocinadores. “Eles começaram a ver que nós éramos um produto viável. Surgiu nosso patrocinador máster, a Engie Energia Elétrica Provada, que acreditou em nós e bancou nossa ida para o mundial”, comemora Luiza.
O mundial foi disputado em dois jogos, ida e volta. A equipe ficou sete dias na Espanha, onde disputou a primeira partida. “Foi louco lá, o fuso horário era diferente, tínhamos muito sono, a comida de lá era ruim, passamos fome até o hotel conseguir se adaptar ao que a gente gostava. E o time da Espanha quis complicar a nossa vida, colocava nosso horário de treino para às 6h da manhã, e só uma hora de treino. Além disso, adiantaram o jogo em um dia, a partida era pra ser no domingo, eles alteraram pra sábado. Mudou totalmente nossa programação, mas também não é desculpa. Perdemos o jogo de 3x1. O time delas é muito forte, conta com cinco brasileiras que foram referência aqui, já jogaram na seleção e tudo”, detalha Luiza.
O jogo de volta aconteceu no domingo, dia 23, em Lages. “Precisávamos ganhar no tempo normal, qualquer placar, pra levar para a prorrogação. Ganhamos de 3x1, só deu nós em quadra. Engolimos a bola no jogo, foi incrível”, comenta. Então fomos para a prorrogação, placar zerado. “Saímos perdendo, com um gol contra nosso, mas conseguimos a virada com dois gols da melhor do mundo, não esperávamos nada menos da Amandinha. Assim levamos o título, com o ginásio lotado, 7 mil pessoas assistindo no ginásio mais a transmissão da SporTV. Foi incrível”.
Luiza jogou na final, revezando com a Diana. “É uma responsabilidade revezar com uma das melhores. Ela sai de quadra e eu tenho que estar no mesmo pique. Ela, que é seis anos mais velha que eu, tem muito mais experiência, já foi cinco vezes campeã mundial pela seleção, é capitã da Seleção. Já eu sou nova, venho de duas lesões, preciso superar a insegurança. Então o treinador passar essa confiança pra mim, que consigo sim fazer a mesma função que ela em quadra, é muito importante”, afirma. Luiza joga na posição fixa, como se fosse o zagueiro.

O futuro
O futsal está crescendo assim como o futebol feminino, que esteve na Copa do Mundo recentemente. “Antes ninguém via o futebol feminino, só quem gosta mesmo ia atrás. A Band havia transmitido alguns jogos, mas a Globo nunca. A seleção já jogou oito mundiais, e muita gente nunca tinha visto a Marta jogar. Ela, que foi cinco vezes melhor do mundo”, enfatiza Luiza.
Conforme ela, é preciso que as pessoas acreditem no jogo feminino, tanto futebol, como futsal. “Querendo ou não ainda é um esporte machista, mas precisamos acreditar, incentivar e apoiar. E não apenas nós adultas, mas a base também, as escolinhas, por que elas são o nosso futuro”, enfatiza.
Em Lages a equipe mantém um projeto social de escolinha de futsal que atende 400 crianças carentes. “É muito gratificante ver as meninas que são nossas fãs, jogando, falando que um dia querem ser jogadoras. Elas são o nosso futuro, e se não investirmos na base quem sabe daqui há cinco anos acabe novamente e o salto que conseguimos dar hoje termine, esse é nosso desafio, continuar crescendo”, finaliza.
 
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