28/04/2020 às 11h04min - Atualizada em 28/04/2020 às 11h04min

Fechamento generalizado de escolas impõe desafio inédito à educação

Nos municípios de circulação do Sentinela, o ensino a distância na rede municipal e estadual vem sendo feito desde o início do mês e irá – pelo menos – até o dia 31 de maio

Além do efeito devastador na saúde, no cotidiano e na economia, a pandemia do coronavírus provoca também uma situação sem precedentes na educação. Segundo estimativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o fechamento de instituições educacionais em decorrência do vírus já atinge metade dos estudantes no mundo, um total de 890 milhões em 114 países.
Educadores avaliam quais serão as consequências dessa paralisação forçada. O aumento da desigualdade é um dos riscos mais temidos. De maneira geral, e muitas vezes sem planejamento, países têm apostado na educação à distância como solução para o período de confinamento. Os resultados da adoção massiva desse modelo, bem como o período ao longo do qual ele será necessário, ainda são desconhecidos, mas algo parece certo: estudantes com pior nível socioeconômico terão mais dificuldades.
Nos municípios de circulação do Sentinela, o ensino a distância na rede municipal e estadual vem sendo feito desde o início do mês, por conta de um decreto estadual – que prevê suspensão das atividades presenciais até o dia 31 de maio, podendo ser estendido. Os alunos da rede estadual fazem suas atividades no conforto de suas casas, através do gerenciador de atividades “Classroom”, o qual tem a finalidade de não gerar aglomerações nas escolas. E para os alunos sem acesso à internet, as escolas estão distribuindo o material impresso.
 
Momento “catastrófico”
A duração da emergência do coronavírus é vista por autoridades e educadores como chave para determinar se a suspensão das aulas presenciais irá de fato aumentar a disparidade entre alunos ricos e pobres. Estudos mostram que até as férias de verão produzem perdas de aprendizagem com maior efeito entre os de pior nível socioeconômico.
Segundo o que afirma a Unesco para a Educação, ‘as escolas ainda que imperfeitas, cumprem um papel de equalização na sociedade e, quando elas fecham, as desigualdades se tornam muito maiores’. Não é só entre grupos sociais que o efeito da paralização escolar pode ser diferente. Entre níveis de ensino também. A fase de alfabetização é vista como uma das mais difíceis de se transpor para o mundo online. E lacunas nessa etapa, se não resolvidas, deixam sequelas por toda a vida escolar.
As condições materiais, claro, não são o único desafio do isolamento. Segundo algumas apurações feitas pelo Sentinela, muitos alunos da escola de educação básica Claudino Crestani de Palma Sola destacaram os primeiros dias [de atividades em casa] como um momento catastrófico. O volume de material que tinham atrasado era numeroso e ainda não estavam adaptados com a plataforma, o que gerou pânico.
“Comparado as aulas presenciais estamos em desvantagem”, compara um dos alunos do ensino médio, que não quis ser identificado. Além dele, outra aluna diz estar se sentindo prejudicada. “Reconheço o esforço de todos os professores e sei que fazem o melhor que podem, mas as aulas online são completamente diferentes das aulas presenciais, por conta de vários fatores e com isso acabamos perdendo muito”, destaca.
É claro, que além da dificuldade, muitos dos alunos encontraram formas de tornar o estudo online mais fácil e prático. Sendo por meio de vídeo-aula para aperfeiçoar o conhecimento das plataformas digitais ou com bons artigos para retirar suas dúvidas. “Não tive dificuldade perante a forma online, pois já vinha utilizando muitas plataformas, apenas precisei me adaptar com mais uma. Além da escola, tenho o trabalho e por estar no último ano escolar, vejo que a correria aumentou, pois além do conteúdo dos professores tenho cursinhos. Mas estou dando conta e adorando essa nova fase, vejo que estou mais concentrada”, conta outra aluna do ensino médio.
 
O novo sistema prejudica o ensino?
Sim. Responde um dos professores do ensino médio, que também não quis ser identificado. “Ele acaba por agravar problemas sociais já existentes na sociedade, como o acesso à internet, segundo o IBGE em 2015 o acesso era de 63% da população. Nesse caso, aqueles que não tem acesso praticamente não tem nenhum contato com seus professores, ou um contato muito limitado, dificultando o trabalho do professor de orientar e o do aluno de questionar e tirar suas dúvidas”, conta.
“Com esse trabalho em casa, eu tenho enfrentado dificuldades de separar o lazer do trabalho, mesmo com horários definidos para o planejamento e organização das aulas, minha mente tem dificuldades em separar as duas coisas (o que tem afetado meu sono, sendo a insônia uma companheira constante). Quando estou trabalhando eu sinto que deveria estar fazendo outras coisas. Quando estou fazendo outras coisas eu sinto que deveria estar trabalhando. Na sala de aula o processo didático se torna mais dinâmico, eu posso ver e ouvir a reação dos meus alunos. Ao gravar uma vídeo aula eu estou sozinho e é isso, o movimento e a fluidez da aula se perdem no eco das paredes”, continua.
“A plataforma é bem completa e conseguimos atingir bem nossos alunos que tem acesso à internet de uma forma bacana, pois se igualamos a eles na geração tecnológica, mesmo sabendo que a maior dificuldade é atingir a todos, porque uma boa parte dos alunos catarinenses não possuem acesso a uma boa internet, por esta razão se torna muito mais difícil a aula à distância, exigindo muito mais deles em relação aos que possuem acesso”, destaca outro professor ressaltando comentando que os alunos que já se destacavam nas aulas presenciais, continuam se destacando, mesmo tendo perdido um pouco do ritmo.
Conforme outro professor da instituição, está sendo visto muitos pontos negativos e positivos no estudo à distância. “Eu sempre tive facilidade com meios digitais, não criei página no Youtube, faço as gravações na ferramenta Meet do Google, gravo elas e posto quando acho necessário. Faço vídeo-aula interativa com horários marcados nas turmas que acho necessário ou que pedem para fazer. Me adequei dessa forma e vejo que está dando certo”, enfatiza.
“Quanto a ajudar ou atrapalhar o ensino é uma questão de envolvimento de ambas as partes (alunos e professores). Eu particularmente estou trabalhando além de meus horários, ajudando alguns via WhatsApp, as vezes até depois das 22h, no horário de almoço, final de semana, feriado... Assim que vejo uma dúvida procuro auxiliar”, continua complementando que muitos alunos com grande potencial não estão dando importância e nem buscando aperfeiçoar seus conhecimentos digitais, na primeira dificuldade estão desistindo. “Essa é a hora dos alunos focados na aprendizagem se sobressaírem”, relata.
“Nesse período de pandemia nosso trabalho aumentou muito, pois estamos elaborando aulas em um outro formato que requer mais tempo, e para dois públicos: com internet e sem internet. Estamos preparando aula em horários nunca feitos antes. É um momento que exige mais do que o esperado e isso gera um desgaste e um cansaço maior” relata mais um dos professores entrevistado pelo Sentinela.
 
“Essa nova forma ajuda e prejudica”
“Nós educadores enfrentamos sempre um dilema quando vamos ensinar presencialmente, que é a diferença entre os alunos, todos possuem várias dificuldades, que são distintas de acordo com a formação que tiveram; cada um possuí uma base diferente. No meu ponto de vista, quando usamos a tecnologia para ensinar, por meio das aulas gravadas, os alunos podem aprender no ritmo deles. Eu vejo essa oportunidade como uma forma de melhorar muito o ensino e talvez até revolucionar a forma de como os nossos alunos o enxergam”, destaca um dos professores que se mobilizou por meio do Youtube a ensinar seus alunos.
 
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