29/04/2020 às 15h41min - Atualizada em 29/04/2020 às 15h41min

Coronavírus, uma tragédia nacional

Coluna de opinião do jornal impresso

Doutor Drauzio Varella, aquele médico que estamos familiarizados com sua atuação no Fantástico, seguidamente trazendo explicações sobre doenças e tratamentos. Ele prevê “tragédia nacional” por coronavírus. O Brasil vai pagar o preço da desigualdade. O médico diz que se arrepende de ter sido otimista em relação ao novo coronavírus. Na época em que começaram a surgir as primeiras informações sobre o vírus na China, em dezembro do ano passado, ele diz que, como muitos considerou que se tratava de uma doença de baixa letalidade.
Para ele, vencer o avanço da pandemia no Brasil exigirá estratégias e obstáculos diferentes do que foi em países da Europa e Ásia. A principal peculiaridade brasileira é a imensa desigualdade social, que impõe condições de vida muito distintas para ricos e pobres, limitando o acesso de grande parte da população às práticas que previnem o contágio, como lavar as mãos, comprar álcool gel e praticar o isolamento social.
Há no país 35 milhões de brasileiros sem acesso à rede de água potável, segundo os dados do Instituto Trata Brasil de 2017. Em 2018, antes da crise do vírus, chegou a 13,5 milhões o número de brasileiros vivendo abaixo da linha de extrema pobreza, com menos de R$ 145,00 por mês. É esse o contexto que, na previsão de Varella, levará o país sem dúvidas a uma “tragédia nacional” durante a pandemia. No seu julgamento Varella considera que ‘nós brasileiros vamos ter, um impacto enorme na economia, uma duração prolongada, destaca também que a naturalização histórica das mazelas sociais será o principal determinante de tal tragédia.
“Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar. Porque é a primeira vez que nós vamos ter a epidemia se disseminando em larga escala em um país de dimensões continentais e com tantas desigualdades. Na pandemia fica mais evidente a ameaça da desigualdade a todos os segmentos da sociedade. Enquanto tivermos essa disseminação em lugares impróprios para a vida humana, você não se livra do vírus.
Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, conhecidos, e muitos vão perder familiares. E isso vai nos ensinar que não é possível viver como vivíamos até aqui. E esse vírus vai levar muito tempo para desaparecer do contato com a humanidade.

Texto de Ligia Guimarães BBC News Brasil em São Paulo – 20 de abril de 2020
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