18/05/2020 às 17h48min - Atualizada em 18/05/2020 às 17h48min

Uma recuperação difícil

Coluna de opinião do jornal impresso

A tolerância do brasileiro será ainda menor.
                Um belo dia, por qualquer razão, a epidemia do coronavírus vai acabar. Seja porque teremos encontrado uma vacina, seja porque o tratamento terá se tornado banal, podendo ser adquirido em toda farmácia de esquina. As pessoas retornarão às ruas e lotarão os transportes públicos. Irão aos cinemas e aos jogos de futebol. As praias ficarão cheias nos fins de semana. Tomara que sim.
Mas será que tudo voltará mesmo ao normal? E será que o que era normal antes será considerado normal depois? O fim de uma crise que não sabemos como se encerará nos leva à certeza de que, no fim das contas, nada vai ser como antes. Uma marca permanecerá nas famílias que perderam os seus. E também nos profissionais de saúde, que se sacrificaram para cuidar dos doentes, assim como tantos outros que trabalharam correndo riscos. Já temos milhões de desempregados e pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Esta pandemia vai piorar a situação. Como enfrentar o que vem por aí?
                Não se trata, obviamente, de uma pergunta fácil. Sabemos que, por enquanto, a era da austeridade terminou. Viveremos tempos de “banco imobiliário”, quando o governo distribuirá dinheiro de mãos abertas. Justo por isso precisaremos ter muito cuidado com as escolhas a ser feitas. Investimentos em infraestrutura deverão ser priorizados, urgente e obrigatoriamente, para evitar a explosão do desemprego. O bom é que necessitamos bastante de ferrovias, hidrelétricas, estradas, hospitais, escolas, portos e habitação. E dispomos de capacidade técnica para construir tudo isso.
                Precisamos sanear e urbanizar as favelas e as comunidades carentes, só assim empregaremos milhões de brasileiros. Teremos de levar o Estado aonde ele não chega de maneira efetiva. Teremos de reduzir a desigualdade social e o Estado deverá funcionar de forma mais eficiente e menos onerosa.
                Os brasileiros descobriram como precisam do Sistema Único de Saúde. Vale lembrar o que disse Boris Johnson, primeiro – ministro inglês, quando deixou o hospital já curado da Covid-19: o sistema público de saúde do reino unido é o coração pulsante da nação. Por aqui, o Brasil tem de cuidar do nosso coração pulsante.
                Já que gastar será inevitável para sairmos da crise, que o Brasil gaste bem em saúde e segurança pública, educação e infraestrutura. E não em altos salários e mordomias. A política deve entender que a tolerância do brasileiro será ainda menor diante de escolhas erradas. O destino do país vai ser o que merecemos. E o que merecemos será decidido por nossas escolhas.

Texto de Murilo de Aragão
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