14/04/2021 às 08h29min - Atualizada em 14/04/2021 às 08h29min

Situações de isolamento

Da redação
Ninguém vive apartado da sociedade, dos amigos, dos parentes por um tempo que parece não ter fim. O limite é variável, depende de cada pessoa, de seu temperamento, das circunstâncias, do planejamento. No início da pandemia, houve quem projetasse 100 dias de reclusão, achando talvez que estivesse arredondando para mais o período de confinamento. Hoje estamos a mais de um ano e contando. É natural que seja assim. O ser humano é gregário por natureza. Lembro-me de Tom Hanks, em Náufrago, que, para amenizar os efeitos do isolamento numa ilha deserta do Pacífico, durante quatro anos conversou com uma bola de vôlei, a quem chamava de Wilson. Por fim, entre a perspectiva de continuar sobrevivendo sozinho à base de monólogos intermináveis e a possibilidade remota de voltar à civilização a bordo de uma jangada improvisada, ele não teve dúvida em arriscar tudo. Havia chegado ao seu limite.
                Qual é o seu limite? Provavelmente depende de uma série de fatores. Limites são elásticos, vão sendo reconfigurados a partir da realidade que se impõe. O que ontem era inaceitável hoje pode ser perfeitamente possível. O primeiro ano da quarentena sempre é o mais difícil. Assim dizem. E isso provoca risos nervosos. Tenho reparado que o stress provocado pelo coronavírus está dividindo os brasileiros em dois estados de espírito: o perseverante e o ansioso. Não os vejo como categorias estanques. Elas estão presentes em cada um de nós. Convivemos, imagino, com um pouco de um e do outro. Um dia acordamos determinados a nos manter fiéis à rotina autoimposta, mas à tarde fraquejamos e ficamos afoitos para dar uma voltinha no quarteirão.
                O perseverante e o ansioso que nos habitam são o anjo e o diabo da nossa consciência, dizendo o que devemos fazer ou o que estamos perdendo por agir assim. “Continue se preservando”, diz o primeiro.  “Que nada! A vida não espera”, diz o segundo. Um apela à saúde física, o outro à sanidade mental. Percebo que o diabinho está cada vez mais ouvido. Entre os que se mantém no isolamento, há quem se sinta um idiota ao ver seus amigos levando uma vida normal.
                A humanidade parece ter desenvolvido uma capacidade de subestimar o perigo. No começo da quarentena, li que o isolamento exigido por uma pandemia costuma acabar antes da cura ser encontrada. Foi assim no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918: após o anúncio do cessar fogo, as pessoas saíram às ruas para comemorar, esquecendo-se que a gripe espanhola ainda não havia sido debelada.
                Diante de tantas dúvidas sobre o que fazer, o meio termo parece ser uma alternativa razoável. Sair às ruas, mas sem se expor. Ficar em casa, mas sem enlouquecer. O importante, acredito, é que essas escolhas, quaisquer que possam ser, sejam conscientes.

Texto de Lucilia Diniz
Por Odila Flach
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