24/07/2015 às 13h32min - Atualizada em 24/07/2015 às 13h32min

Movimento das Mulheres camponesas é tema de doutorado

ASO/Igor Vissotto
Palma Sola
Zenaide Millan da Silva, Ivanete Mantelli, Mariateresa Mucara, Noemi Krefta, Diles Peliser e Marina Ester Mantelli (Foto: ASO/ Igor Vissotto)

Italiana, Mariateresa Muraca, dissertou em seu doutorado sobre o movimento social. A jovem de 29 anos, criou laços e viveu junto com as famílias do Movimento das Mulheres Camponesas de Palma Sola e região. Seu interesse pelo MMC surgiu em 2009, quando fazia seu mestrado na Ufsc . 

A jovem que se formou em pedagogia na Itália, realizou seu mestrado e agora dourado em parceria com projetos desenvolvidos pela Universidade Federal de Santa Catarina. Dentro do MMC, Mariateresa, dividiu seu período de imersão dentro do movimento na regional de Palma Sola, São José do Cedro, Anchieta, Guarujá do Sul e Dionísio Cerqueira.

No município de Palma Sola Mariateresa viveu junto das famílias de Noemi Krefta, Ivanete Mantelli, Diles Peliser e Zenaide Millan da Silva. “Depois fui para a Itália, onde terminei meu mestrado, e voltei, fui emendando um estudo atrás do outro. Minha formação é pedagogia, e meu trabalho de conclusão foi com um movimento de jovens na Guatemala, depois fiz meu mestrado na Itália, mas minha licitação foi sobre os projetos das periferias de Florianópolis, e agora meu doutorado sobre o Movimento das Mulheres Camponesas”, fala Mariateresa explicando sua trajetória no meio acadêmico. O título do seu doutorado é: Práticas pedagógicas populares feministas e de colônias do Movimento de Mulheres Camponesas em Santa Catarina.

Em recente visita as famílias com quem conviveu a doutora entregou cópias de sua dissertação, onde consta suas observações e também relatos das mulheres camponesas. “A pesquisa é vida, eu optei, portanto em conviver na casa das mulheres, e fui restringindo meu foco, onde tive oportunidade de experimentar mais detalhes e pesquisar em profundidade”, comenta.

A palmassolense Ivanete Mantelli lembra que a regional decidiu onde a italiana iria se hospedar. “Levantei quanto tempo ela ir ficar em Palma Sola, e nos agendamos para dividir os dias que ela passaria no município”, diz Ivanete. Outra palmassolense que participou do estudo de Mariateresa, foi Noemi Krefta, que devido as suas andanças pelo mundo [realizando seus projetos pelo MMC] foi a que menos tempo a hospedou. “Foi apenas de terça a domingo, mesmo assim tínhamos essa ansiedade para saber como seria, e foi uma experiência maravilhosa, ela se inseriu, quando vi estava varrendo minha casa, depois no pátio brincando e querendo lavar a louça”, conta rindo Noemi.

Para as mulheres camponesas de Palma Sola o ganho do estudo realizado por Mariateresa não pode ser mensurado. “Não teremos inovação tecnológica, mas divulgamos como vivemos enquanto camponesas, e através disso as pessoas podem saber que camponês não tem vida boa com muitos pensam, e que vivemos no campo como forma de vida, e não porque não sabemos fazer outra coisa”, afirma convicta Noemi.

Diles foi a primeira a hospedar Mariateresa em Palma Sola, e lembra que a italiana não se mostrou nem um pouco enjoada. “Ela fez pizza, bolinho de arroz, e nós saíamos juntas, conversávamos muito, ela ia até a estrebaria comigo, ordenhar as vacas”, conta Diles acrescentando que laços foram criados.

A pesquisadora, Mariateresa, explica que sua pesquisa foi realizada de forma colaborativa. “Tentei instaurar uma relação de colaboração, sendo que o retorno varia conforme a disciplina, por exemplo, em um documentário onde mostro a minha visão sobre o MMC e foi apresentado na assembleia estadual, onde não há forma de divulgar dados científicos, é algo criado na relação”, afirma.

A tese final ficou com 340 páginas. “Eu conclui que há muito para se dizer”, brinca. A tese foi divida então em partes, onde a pesquisadora fala em como o movimento transforma a vida das pessoas, analisando a educação formal, informal, bolsas de estudo e a qualidade do ensino. E como essas transformações geram compromissos e conflitos com as famílias e a sociedade. “Minha conclusão é que o movimento influência e em geral muda a visão de mundo, que passará a ser outra, onde seu sustento e sua felicidade nunca são desligados da felicidade e bem dos outros. E isso inclui, por exemplo, a produção da comida orgânica, onde você espera que toda a realidade mude para uma direção em que a felicidade se dá junto aos outros na questão agroecológica, onde existe uma luta”, opina.

Dentro desta fase do estudo Mariateresa fala sobre os estudos teóricos e da maneira convencional do transgênico, e da transição agroecológica onde o MMC busca resgatar o melhoramento das sementes crioulas, plantas medicinais, hortas orgânicas, entre outros projetos. 

A pesquisadora também realizou propostas com a intenção de melhorar o MMC. “Elenco pontos, por exemplo, a relação de grupo de origens diferentes. A minha ideia de luta da agroecologia acomoda orientações para que o movimento não seja somente popular e feminista, mas que se desconstrua as colônias. O Brasil foi colônia então essas marcas continuaram através da descriminação, desigualdade, o desprezo com o trabalho manual, que ainda é atual”, explica.

A defesa do doutorado, de Mariateresa Muraca aconteceu dia 1º de julho na Ufsc, em Florianópolis, onde estiveram presentes as palmassolenses Noemi e Zenaide. 


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