22/12/2015 às 10h54min - Atualizada em 22/12/2015 às 10h54min

“Se pudesse tiraria a dor da minha avó”

Cuidadores contam suas histórias, muitas tristes, e mostram que às vezes viver a vida não é tão simples, mas é gratificante

Palma Sola

Uma característica está presente em todos os participantes do Grupo de Cuidadores de Palma Sola: O ato de servir. Cada um com sua peculiar e triste história mostra para as pessoas que às vezes viver a vida, não é fácil. É preciso ter força, união e a ajuda de profissionais.

É isso que o Grupo de Cuidadores traz para os mais de 20 participantes através de reuniões: ajuda. Todo mês a psicóloga, Rafaela Tres, e a assistente social, Dalvana Spironello

Anschau se encontram com os cuidadores para ouvi-los e prestar assistência, no que for necessário. Desde ajuda com fraldas geriátricas, até simples conselhos.

Os cuidadores são normalmente familiares, que como o próprio nome diz, cuidam do seu pai, mãe, irmão e muitas vezes filho, que por alguma razão sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), fratura na coluna, ou até mesmo tenha nascido com deficiência e vivem acamados. “São pessoas que por alguma razão precisam de cuidados, seja com alimentação, banho ou até para trocar fraldas. Eles normalmente não têm movimentos e precisam ser assistidos”, explica a psicóloga Rafaela Tres, afirmando que as profissionais da saúde, cuidam de quem cuida. “Temos o objetivo de promover o bem estar destas pessoas, de ouvir o desabafo. Muitos vivem apenas para cuidar e acabam ficando até doentes. É uma cura da saúde mental que promovemos, tanto para o acamado quanto para o cuidador”, comenta Rafaela.

Dentro do grupo os cuidadores aprendem a lidar com essa nova vida, junto do familiar, que precisa de cuidados. “É uma responsabilidade enorme e isso pesa em muitos momentos. Em alguns casos nos contam que o único momento do mês que saem de casa é para ir ao mercado, receber a aposentadoria e ir ao Posto de Saúde. É uma vida solitária, mas não precisa ser assim. Por isso buscamos auxiliá-los”, explica a assistente social, Dalvana.

No dia 10 deste mês, ocorreu o encerramento dos atendimentos realizados neste ano, pelo Grupo de Cuidadores. No Naes, os participantes foram reunidos, junto com as profissionais da Saúde, secretária de Saúde, Marilde Sandri e a assistente social, Rosani Prigol, e a presidente da Associação Casa de Apoio Irmão Cirilo, Maristela Testolin da Silva.

Na ocasião as representantes da Casa Irmão Cirilo, entregaram a doação de fraldas geriátricas e cestas de Natal, com doces, panetone e chocolates. Mas, o mais importante e emocionante foi a atividade de interação realizada, onde através de uma dinâmica, os participantes estouravam os balões e respondiam perguntas pessoais sobre a sua vida de cuidador.

 

 

Acompanhe os relatos:

 

Por que você vem para os encontros do Grupo de Cuidadores? Porque é bom poder sair de casa. Eu fico esgotada, as vezes, e aqui troco experiências.

O que mudaria na sua vida, se fosse possível? [começa a chorar...] Se pudesse tiraria a dor da minha avó. Não gosto de vê-la sentindo tanta dor.

O que você se propõe a fazer para ser feliz? Cuidar das minhas filhas [as duas são acamadas]. Quando elas estão bem, eu me sinto feliz.

O que te irrita? Já estou acostumada a ter que ser paciente. Não me irrito por muita coisa, tenho meus filhos e netos por perto e eles me ajudam. Peço a Deus o melhor.

Você cumpre seu dever? Seus direitos estão sendo respeitados? Eu faço a minha parte, agora não sei se todos acham que estou fazendo certo. Eu quase não saio de casa, cuido da minha mãe, então não acho que o direito de sair é respeitado.

Você está confortável consigo mesma? Um pouco sim e não. Eu tento sempre buscar o melhor, mas as vezes tem que ser devagar. Busco amenizar o sofrimento de quem cuido.

O que é família? Amor e união. Quando há dificuldade é preciso buscar a paz na paciência, compressão e cuidado. É preciso perdoar, principalmente quando você precisa cuidar de alguém que já lhe fez mal.

Qual sua maior frustração? O AVC que deu em minha mãe. Faz um ano, ela tem só 45 anos. Quem cuida dela somos eu, minha irmã e meu pai. Isso mudou toda a nossa vida e rotina. Somos unidos.

Qual sonho deixou de realizar? As pessoas têm muitos sonhos que não realizam, eu também. Às vezes é um pensamento, mas existem tantos problemas. A única coisa que pode nos ajudar é ter Jesus em nossa vida. Só quem cuida sabe do que passa. Minha mãe tem 96 anos, há quatro anos usa fralda, ela recentemente quebrou a bacia. Digo que é bom sonhar, e continuo sonhando para viver.

Qual a pessoa mais importante em sua vida? É a minha família. Eles são a minha base para tudo.

O que lhe deixa feliz no dia a dia? Muita coisa. Deus em primeiro lugar. Faz cinco anos que me mudei para o interior, consegui construir minha casinha. Eu estou guerreando e não desisto. 

Você faz a vontade dos outros? Sim. Mas as vezes é preciso dizer não, é muito difícil dizer isso à família.

O que te motiva a estar aqui? Muitas coisas. Eu já estive no fundo do poço. Venho e desabafo e isso me tranquiliza. Coloquei na minha cabeça, através de ajuda, que preciso ir em frente. Meu irmão, de 28 anos, sofreu um acidente e ficou tetraplégico. Minha mãe é idosa e eu tenho marido e filhos. É difícil conciliar tudo isto, entrei em depressão. Hoje me considero melhor do que já estive.

Fiz um acordo com a minha mãe, cada uma tem um final de semana livre. Também conversamos com meu irmão e ele está melhorando. Eu não conseguia sair de casa, pois pensava que não era justo eu poder me divertir e ele ficar acamado, acabava sofrendo o sofrimento dele. Aprendi que cada um tem uma cruz, sua própria história e precisa lutar sozinho. Somos unidos, mas cada um faz a sua história.

Eu peço a Deus para que olhe para nós, e a cada dia Ele mostra que está ao nosso lado. Minhas irmãs moram longe e nenhuma quer ter a responsabilidade de cuidar dele. Entendi que ele está na cama, e ficará lá, mas que a nossa vida não acabou por causa disso. Tenho esperança que nossa vida será a cada dia melhor. Meu irmão está melhor, aceitando e sinto que fui me libertando.

Se fosse para mudar algo em sua vida, o que seria? Eu casei, tive duas filhas, trabalhei a vida toda. Atualmente não moro com meu marido, mas venho cuidar dele a cada 15 dias. Ele bebia muito e agora precisa de cuidados. Eu teria batalhado mais para ele parar de beber. Eu gostaria de ter tido um marido que não bebesse. Cheguei a levar uns tapas dele, mas agora estou aqui o ajudando.

 

Casa Irmão Cirilo

Segundo a presidente da Casa Irmão Cirilo, que tem sede em Francisco Beltrão, a instituição foi fundada em 2007. Atualmente a entidade que não visa lucro, atende a 42 municípios da região, através da doação de fraldas geriátricas e infantis. O atendimento é intermediado pelas Secretarias de Saúde. Em Palma Sola essa parceria faz com que mais de 20 pessoas recebam a cada 60 dias, fraldas descartáveis.

“Somos taxados como pedintes. Por telemarketing pedimos doações, uma moto táxi passa coletar a doação, que pode ser a quantia que a pessoa quiser e o resultado disso é a doação”, afirmou a presidente, Maristela.

“Precisamos de mais doadores em Palma Sola, pois cada doação feita aqui é revertida para o próprio município. Quem tiver interesse pode nos procurar”, convida a psicóloga Rafaela. Para doar ligue na Secretaria de Saúde, no (49) 3652-0443.


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