Fique ereto: a dignidade também é uma postura

Por Igor Vissotto-

No livro 12 Regras para a Vida, o psicólogo canadense Jordan B. Peterson abre os trabalhos com uma orientação curiosa e quase corporal: “Fique ereto, com os ombros para trás.”

Parece conselho de avó na missa de domingo. Mas não é sobre coluna. É sobre caráter.

Peterson começa falando de lagostas. Sim, lagostas. Esses crustáceos pré-históricos já brigavam por território muito antes de qualquer Câmara de Vereadores sonhar em existir. Quando vencem, ficam mais altivas. Quando perdem, se encolhem. A postura comunica poder antes mesmo da primeira palavra.

Agora troque o fundo do mar por uma rua de Palma Sola, de Campo Erê, de Guarujá do Sul ou qualquer outro município.

Em cidades pequenas, todo mundo sabe quem anda curvado. Não fisicamente. Curvado de espírito. É o comerciante que desiste na primeira dificuldade, o servidor que empurra o expediente com a barriga, o político que prefere agradar a enfrentar, o cidadão que reclama na padaria, mas silencia na audiência pública.

 

Postura é destino em miniatura.

Em municípios como o nosso, com menos de 10 mil habitantes, ninguém se esconde atrás da multidão. Aqui, o CPF tem rosto e o sobrenome tem história. Ficar ereto significa assumir que a cidade é pequena demais para a omissão e grande demais para a covardia.

 

A Regra 1 não fala apenas de autoestima. Fala de responsabilidade.

Quem se endireita aceita que a vida é difícil, mas decide participar do jogo mesmo assim.

Pense no agricultor que acorda antes do sol. Ele não controla o clima, o dólar ou o preço da soja. Mas controla a postura com que enfrenta o dia. Ombros para trás. Chapéu firme. A lavoura responde à disciplina invisível que começa na espinha.

Pense no diretor de escola que precisa lidar com orçamento apertado e pais exigentes. Ou no dono de pequeno negócio que vê o fluxo cair e, ainda assim, escolhe abrir a porta às oito em ponto. Postura é mensagem. E a cidade inteira lê.

Em lugares grandes, é possível diluir fracassos. Em Palma Sola, cada atitude reverbera como sino de igreja. Se o prefeito hesita, a cidade sente. Se o vereador se encolhe, a comunidade percebe. Se o jornalista baixa a cabeça, a informação perde estatura.

Peterson sugere que, ao alinhar o corpo, enviamos um sinal ao cérebro de que estamos prontos para enfrentar o caos. Em termos práticos, é a diferença entre sentar na reunião esperando o problema passar ou levantar a voz para propor solução.

Talvez a Regra 1, no fundo, seja um lembrete de que desenvolvimento começa no indivíduo antes de aparecer no asfalto. Antes de cobrar progresso da prefeitura, é preciso erguer a própria coluna ética. Antes de exigir transparência, é preciso praticar clareza nas próprias contas. Antes de falar em futuro, é preciso sustentar o presente com firmeza.

Lagostas brigam por território. Nós brigamos por significado.

E, no fim das contas, em Palma Sola ou em qualquer outro ponto do mapa, a diferença entre ser levado pelas marés ou construir um porto começa na mesma decisão silenciosa: endireitar-se.

Ombros para trás. A cidade agradece.

 

 

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