Pai de Domingo: presença não é visita.

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Juliane Silvestri Beltrame

Durante muitos anos, tornou-se comum enxergar como "normal" que, após a separação, os filhos permanecessem sob os cuidados da mãe, enquanto o pai assumia o papel de visitá-los em finais de semana alternados. Esse modelo ficou conhecido como "Pai de Domingo" (Sunday Dad).

Mas será que isso realmente atende aos interesses da criança? Mais importante: será que basta pagar pensão alimentícia e aparecer eventualmente para cumprir o papel de pai?

A resposta é não.

A legislação brasileira evoluiu, a sociedade mudou e, principalmente, a forma de compreender a parentalidade também precisa mudar. Ser pai vai muito além da obrigação financeira.

Ainda existe a falsa ideia de que o dever do pai termina no pagamento da pensão alimentícia. Da mesma forma, muitas pessoas acreditam que cuidar da rotina dos filhos é uma missão naturalmente atribuída à mãe. Essa visão está ultrapassada.

É acompanhar consultas médicas, participar das reuniões escolares, ajudar nas tarefas, conhecer os amigos, estabelecer limites, comemorar conquistas, consolar nas dificuldades, dividir responsabilidades e estar presente nos momentos bons e também nos difíceis. Quem exerce apenas momentos de lazer não participa verdadeiramente da criação.

A separação encerra o casamento, mas nunca a parentalidade. Quando um casal decide colocar fim ao relacionamento, termina a vida conjugal. O vínculo entre pais e filhos, porém, permanece intacto.

A Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código Civil deixam claro que ambos os pais continuam responsáveis pelo desenvolvimento, educação, proteção e bem-estar dos filhos.

Não existe ex-pai ou ex-mãe. Existe ex-marido e ex-esposa. A responsabilidade parental permanece para toda a vida. A guarda compartilhada não é apenas um papel assinado. Muitas pessoas acreditam que guarda compartilhada significa apenas dividir decisões importantes. Compartilhar a guarda significa compartilhar responsabilidades. Isso não quer dizer que a criança precise morar metade do tempo em cada casa, mas exige que ambos os pais participem efetivamente da rotina dos filhos.

Infelizmente, em muitos casos, a guarda é compartilhada apenas no documento. Na vida real, a mãe continua assumindo praticamente todas as tarefas, enquanto o pai permanece restrito às visitas quinzenais.

A criança precisa construir vínculos com ambos os pais. Esses vínculos não surgem apenas em passeios, viagens ou presentes. Eles são construídos na rotina. É na ida à escola. Na conversa antes de dormir. Na ida ao médico. Na ajuda com a lição de casa. São exatamente esses momentos que fortalecem o relacionamento entre pais e filhos.

Quando um dos pais participa apenas dos momentos agradáveis, deixa de vivenciar aquilo que realmente forma uma família: o cuidado diário. O peso invisível que recai sobre as mães. Na maioria das famílias, ainda é a mãe quem organiza toda a vida dos filhos. Esse acúmulo recebe o nome de carga mental e representa um trabalho invisível que raramente é reconhecido.

O cuidado não pode continuar sendo tratado como uma obrigação exclusivamente feminina. Pais e mães possuem os mesmos deveres perante seus filhos.

Quando falamos em guarda, convivência ou pensão, muitas vezes o foco acaba sendo os direitos dos adultos. Entretanto, a pergunta mais importante deveria ser outra: O que é melhor para a criança? A resposta quase sempre aponta para a presença ativa dos dois pais. Salvo situações que envolvam violência, negligência ou riscos à criança, o desenvolvimento saudável acontece quando ambos participam efetivamente da criação.

O filho não precisa apenas de um pai presente nos aniversários ou nos finais de semana. Precisa de um pai presente na vida.

Como advogada atuante há 25 anos na área de família, acompanho diariamente os impactos que a ausência parental causa não apenas nas crianças, mas também na sobrecarga emocional, física e financeira enfrentada por muitas mães.

Os filhos não precisam de um "pai de domingo". Precisam de pais presentes, participativos e verdadeiramente comprometidos com sua formação. Porque educar um filho nunca foi tarefa de apenas um dos pais.

Juliane Silvestri Beltrame

Advogada familiar e escritora.

 

 

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