O dia em que o silêncio ensinou mais que a fala

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Igor Vissotto

Na propriedade, o dia começa antes do sol. 

E, às vezes, o aprendizado também.

Era cedo quando dois homens se encontraram encostados na cerca, olhando a lavoura que ainda carregava o sereno da madrugada. Um mais velho, desses que carregam anos de experiência no olhar. Outro mais novo, com vontade de fazer diferente — e pressa de acertar.

— Esse ano eu mudei o manejo — disse o mais novo, ajeitando o boné. — Tô testando uma cobertura diferente no solo…

O mais velho nem deixou terminar.

— Isso aí não dá certo. Já vi. Não compensa.

E ficou por isso.

O assunto morreu ali, antes mesmo de nascer.

Mas a lavoura seguiu. O tempo passou. E, semanas depois, o que era dúvida começou a virar resultado. O solo mais firme, a umidade melhor preservada, a planta reagindo diferente.

Sem alarde. Sem discussão. Só resultado.

O mais velho percebeu. Claro que percebeu. Quem vive da terra aprende a ler sinais que não aparecem em relatório nenhum.

Mas havia um detalhe: ele não tinha aprendido nada com aquilo.

Porque não escutou.

 

O que escrevi acima, foi uma situação que vivenciei junto a uma família de agricultores. Uma situação entre pai e filho. Obviamente não vou revelar nomes, o objetivo não é encabular ninguém, mas continuar o meu resumo do livro as 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson.

A 9ª regra do livro diz algo simples, mas difícil de praticar: admita que a pessoa com quem você está falando pode saber algo que você não sabe.

No interior, onde o conhecimento passa de geração em geração, isso ganha um peso ainda maior.

Experiência é valiosa — mas não é completa.

O mundo mudou. A forma de plantar mudou. As ferramentas mudaram. E, junto com isso, surgiram novas respostas… muitas vezes na boca de quem ainda está começando.

Mas para que essas respostas apareçam, alguém precisa escutar. O problema é que, hoje, tem muita gente falando… e pouca gente ouvindo. Na política, no comércio, na família, na própria comunidade. Todo mundo tem certeza demais. E curiosidade de menos. E aí acontece algo curioso: a gente continua conversando, mas para de aprender.

Escutar não é concordar. É dar uma chance para o novo entrar.

É entender que, mesmo depois de anos fazendo a mesma coisa, ainda pode existir um jeito melhor. É trocar a pressa de responder pela disposição de compreender.

No fim das contas, não é a idade que define quem ensina e quem aprende. É a postura.

Porque, às vezes, o conhecimento vem de onde a gente menos espera — 

numa conversa simples, num teste pequeno, ou numa frase que quase foi interrompida. E quem aprende a escutar… colhe mais do que planta.

 

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