Seja preciso no que diz

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Igor Vissotto

Volto ao resumo do livro as 12 Regras da Vida do escritor Jordan Peterson. Para a edição desta semana correlaciono a 10ª regra: Seja preciso no que diz; com a rotina de um jornal semanário.

Existe um tipo de silêncio que só mora em jornal de cidade pequena. Não é o silêncio absoluto. Pelo contrário. É um silêncio cheio de mensagens de WhatsApp (antigamente era telefone tocando), impressora engasgando papel, secretário de prefeitura pedindo “só uma notinha”, prefeito querendo foto maior, produtor rural reclamando da estrada, e alguém lá no fundo perguntando se “fechou a capa”.

Mesmo assim, há silêncio.

Ele aparece principalmente no fim da tarde de segunda-feira, quando o jornal está quase indo para a gráfica. Nesse horário, o jornalista do interior olha para a tela do computador como quem olha para um espelho meio rachado. E então percebe que a notícia nunca é apenas notícia.

É gente.

 

A décima regra de 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson, diz: “Seja preciso no que diz.”

Parece simples. Mas talvez seja uma das regras mais difíceis do mundo moderno. Sobretudo numa cidade pequena. Nas grandes capitais, o erro vira estatística. No interior, ele vira rosto. Tem sobrenome. Cruza contigo na padaria sábado de manhã.

Quando um jornal local escreve que uma obra “está atrasada”, precisa saber exatamente o que significa atraso. Um mês? Seis? Houve chuva? Faltou verba? A empresa abandonou? Ou apenas o boato da praça cresceu mais rápido que o concreto?

Quando alguém diz que “a saúde está um caos”, o jornalista precisa desmontar a frase como mecânico abrindo motor diesel. Qual saúde? Falta médico? Falta exame? Falta remédio? Ou falta paciência de quem esperou três horas por atendimento?

A precisão não serve apenas para proteger a verdade. Serve para proteger as pessoas do veneno das generalizações.

Porque cidades pequenas vivem de ecos.

Uma palavra mal colocada atravessa lavouras, entra em grupos de WhatsApp, senta na mesa do bar e amanhece deformada no outro dia. O boato no interior não anda. Cavalga.

E talvez seja justamente aí que a décima regra se torna quase uma ética de sobrevivência para jornais semanais.

O jornalista de cidade pequena não trabalha apenas com fatos. Trabalha com equilíbrio comunitário. Ele pisa diariamente sobre uma ponte estreita construída de confiança. Se exagera, perde credibilidade. Se omite, perde relevância. Se agrada demais, vira panfleto. Se agride por vaidade, vira justiceiro de teclado com crachá de imprensa.

Por isso, a precisão exige coragem.

É muito mais fácil escrever frases inflamadas, títulos barulhentos e opiniões em caixa alta. Difícil é sentar diante do computador e separar indignação de realidade, percepção de evidência, rumor de prova.

A internet transformou muita gente em comentarista instantâneo. Mas o velho jornal semanal ainda carrega um ritual quase artesanal. Enquanto as redes sociais operam como metralhadoras de opinião, o semanário continua funcionando como lampião em noite de cerração: ilumina pouco espaço de cada vez, mas tenta iluminar direito.

E há algo de profundamente humano nisso.

Numa pequena redação do interior, entre anúncios de cooperativas, notícias políticas, acidentes na SC e atividades da rede de educação, existe uma batalha silenciosa contra o exagero. Uma tentativa diária de chamar as coisas pelo nome correto.

Talvez porque o jornalista do interior saiba de uma verdade que muita gente esqueceu: palavras não são fumaça.

Palavras constroem reputações.

Derrubam negócios.

Salvam administrações.

Destroem famílias.

Elegem prefeitos.

Enterram inocentes.

Ou ajudam uma comunidade inteira a compreender a si mesma.

 

Na terça-feira, quando a edição fecha e o último PDF segue para a gráfica, sobra novamente aquele silêncio peculiar. O da missão provisoriamente cumprida.

Até porque, numa cidade pequena, o jornal nunca termina totalmente. Aqui no jornal Sentinela temos a edição digital, impressa e o portal de notícias: www.sentineladooeste.com.br. Seja aonde for que esteja lendo esta minha coluna, tenha certeza que aqui há sempre compromisso com a verdade, com aquilo que escrevemos e falamos.

 

 

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