O gato na calçada
Coluna de opinião do jornal impresso
A cidade pequena acorda cedo. Antes das seis, já tem caminhão da Palmasola SA indo buscar toras de madeira, café passado na academia e vereador reclamando do tempo na fila da padaria. No jornal, a rotina também começa assim: mensagens pipocando, pauta atrasada, cobrança de vídeo atrasado, acidente na rodovia, produtor rural preocupado com a estiagem e algum boato político atravessando o WhatsApp como fogo em macega seca.
No meio disso tudo, a vida vai endurecendo a gente sem pedir licença.
A 12ª regra do livro 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson, parece simples demais para um mundo tão pesado: “Acaricie um gato quando encontrar um na rua”.
À primeira vista, soa quase infantil. Mas talvez justamente por isso ela incomode. Porque o adulto moderno desaprendeu a parar.
O jornalista do interior sabe bem disso. Ele vive correndo atrás da próxima manchete. Hoje é a ponte interditada. Amanhã é o produtor que perdeu a safra de feijão na última geada. Depois é a família que perdeu alguém cedo demais. Quem trabalha contando a vida dos outros acaba carregando um pouco da dor de todo mundo no bolso da camisa.
E então, num fim de tarde qualquer, depois de um dia ruim de fechamento de edição de jornal, aparece um gato. Magro, silencioso, deitado na calçada morna em frente à casa. Sem pressa. Sem boletos. Sem eleição. Sem algoritmo.
O mundo continua desmoronando em algum lugar, mas aquele pequeno animal ainda encontra tempo para tomar sol. Talvez seja isso que a regra queira dizer.
Nem toda vitória vem de grandes conquistas. Às vezes, sobreviver emocionalmente depende de pequenos instantes de humanidade. O chimarrão espumado no fim da tarde. O filho esperando em casa. O barulho da chuva no telhado. O cachorro rondando no quintal de casa. O gato desconhecido que aceita um carinho de um estranho cansado.
Há uma arrogância escondida em acreditar que só os grandes acontecimentos importam. As cidades pequenas ensinam o contrário.
Elas ensinam que a vida verdadeira acontece nas margens das manchetes. No agricultor que ainda planta mesmo depois da seca. Na vizinha que leva cuca para quem perdeu alguém. No comerciante que abre cedo todos os dias sem saber exatamente se o mês vai fechar no azul.
E talvez a sanidade humana more justamente nesses detalhes quase invisíveis.
O jornal vai continuar fechando suas edições nas terças-feiras. A política continuará barulhenta. As contas e boletos continuarão chegando. Mas, entre uma tragédia e outra, ainda existirão gatos dormindo em calçadas ensolaradas.
E talvez Deus, o destino ou simplesmente a vida esteja tentando dizer algo através deles:
“Pare um minuto. Ainda existe delicadeza no mundo.”
Encontrou algum erro? Clique aqui Receba as notícias do Portal Sentinela do Oeste no seu telefone celular! Faça parte do nosso grupo de WhatsApp através do link: https://chat.whatsapp.com/EFKEYeuj7g4GAIoNEfPdgW?mode=r_c
Siga nosso Instagram: https://www.instagram.com/jornalsentineladooeste/