Confessionário guarda memórias da família Feix

Confessionário construído sem máquinas por João Feix com apoio da família segue preservado e relembra tradição da marcenaria artesanal no município de Palma Sola

Por Leticia Diniz

Alice Feix Paetzold relembra o trabalho realizado ao lado do pai, João Feix, na construção do confessionário confeccionado manualmente e preservado até hoje no museu. (Foto: Ana Antonelli)

Um confessionário construído totalmente à mão pelo marceneiro João Feix [em memória], segue preservado até hoje em Palma Sola e carrega junto a memória do trabalho artesanal realizado pela família Feix. A peça, produzida há décadas com auxílio da esposa Francisca Zimmermann Feix e da filha Alice Feix Paetzold, permanece guardada no museu da colonização de Palma Sola e ainda chama atenção pelos detalhes esculpidos manualmente.

Dentro do confessionário João deixou uma carta, escrita à mão por sua filha Alice, com informações pessoais e um relato sobre a confecção da peça. O texto foi escrito no dia 24 de junho de 1965, data em que é celebrado o Dia de São João. Na carta, o marceneiro registrou valores em dólares e deixou uma frase que marcou a família:

Já sou tão velho, com 60 anos, e ainda tenho que fazer confessionário”.

A peça foi produzida originalmente para a Igreja Matriz de Anchieta e, aproximadamente em 2007, acabou sendo trazida para Palma Sola por José Felicio Jung (em memória), que na época presidia a Fundação Cultural e atuava como diretor do museu. João Feix faleceu em 1967, deixando como legado peças artesanais que seguem preservadas até hoje.

Além do confessionário, João Feix foi responsável pela confecção de bancos da igreja e diversos móveis que marcaram época na comunidade. Segundo a filha Alice, o pai dedicava a vida à marcenaria e era reconhecido pela qualidade do trabalho realizado: “Ele fazia de tudo. Guarda-roupa, guarda-louça, cama, mesa, cadeira, tudo o que um marceneiro fazia naquela época”, relembrou.

Alice conta que acompanhou grande parte do trabalho do pai, porque permaneceu mais tempo em casa ajudando nas atividades da família. Ela lembra que a construção do confessionário exigiu meses de dedicação e um trabalho minucioso em cada detalhe da madeira.

Na época, praticamente não existiam máquinas ou equipamentos elétricos, acessíveis para facilitar a produção. Todo o processo era artesanal, desde o corte até a montagem das peças: “Não tinha máquina. A máquina era as mãos, braço, cabeça e pé”, afirmou Alice ao recordar a forma como o pai trabalhava.

Os detalhes curvos do confessionário foram produzidos com uma serra manual fina, utilizada por João para fazer os recortes decorativos. Segundo Alice, o pai passava horas trabalhando cuidadosamente para alcançar o acabamento desejado: “Era tudo recortado. Ele tinha uma serra bem fininha e serrava as curvinhas de cima para baixo”, contou.

Depois da montagem, começava outra etapa considerada ainda mais cansativa: o lixamento. Alice lembra que ela e a mãe passavam horas lixando manualmente, cada parte da peça antes da pintura: “Chegava a doer os dedos. Era tudo lixado à mão. Ele passava a mão na madeira e se não estivesse do jeito que queria, mandava lixar de novo”, disse.

De acordo com a filha, João era extremamente cuidadoso e exigente com o acabamento dos trabalhos. O perfeccionismo fazia parte da rotina da oficina improvisada da família, onde cada móvel recebia atenção especial.

Mesmo após tantos anos, algumas peças produzidas pelo marceneiro ainda permanecem preservadas. Alice conta que guarda um baú feito pelo pai e afirma que as ferramentas usadas por ele continuam armazenadas na casa da família.

O confessionário preservado no museu se tornou mais do que uma peça antiga. Para a família, ele representa a dedicação de um homem que transformava madeira em arte, usando apenas ferramentas simples, esforço manual e conhecimento adquirido na prática.

Descrito pela filha como um: “marceneiro de mão cheia”, João Feix deixou um legado e uma saudade que segue viva, através das peças espalhadas pela comunidade e das lembranças compartilhadas pela família.

 

 

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