A maior herança do produtor rural não é a terra, e a continuidade do seu legado

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Juliane Beltrame

O produtor rural acorda cedo todos os dias para enfrentar desafios que fazem parte da vida no campo: o clima, o mercado, o preço dos insumos, a safra, o rebanho, os financiamentos e tantas outras responsabilidades. Mas existe um assunto que muitos evitam pensar e que pode colocar em risco tudo o que foi construído durante uma vida inteira: a própria sucessão.

A verdade é simples e, ao mesmo tempo, difícil de enfrentar. A morte chega para todos. A diferença está em como a família estará preparada quando esse momento acontecer.

Quando um produtor rural falece, a terra continua ali. O gado precisa ser alimentado. A lavoura não espera. Os funcionários precisam receber seus salários. Os contratos continuam existindo. Os financiamentos vencem. Os fornecedores cobram. A natureza segue seu ritmo, independentemente da dor da família.

É justamente nesse momento que muitos patrimônios começam a perder valor.

Isso acontece porque, na maioria das vezes, toda a atividade rural está concentrada na figura do produtor. É ele quem administra as contas, negocia com bancos, compra insumos, vende a produção e toma as decisões do dia a dia. Quando ele parte sem planejamento, além do sofrimento da perda, a família precisa enfrentar uma série de questões burocráticas e jurídicas.

Você já ouviu a frase: a fazenda da viúva está para negócio? Ou pior: vamos ter que vender um pedaço para pagar o inventário? E é aí que mora o grande perigo, muitos ficam de olho e torcendo para que tudo de errado para comprar as terras por preço de banana, outros só ficam na plateia para ver o circo pegar fogo e na realidade o dia a dia da fazenda é difícil para os herdeiros e não sucessores.

Muitas vezes, as contas bancárias ficam indisponíveis, contratos precisam ser regularizados e diversas decisões passam a depender do inventário e da atuação do inventariante. Enquanto isso, a propriedade continua produzindo despesas diariamente.

E o campo não espera.

Uma janela perdida para plantar pode significar uma safra inteira comprometida. Um atraso na compra de fertilizantes pode reduzir a produtividade. A falta de recursos para alimentação do rebanho pode gerar prejuízos irreversíveis. O tempo da agricultura e da pecuária é diferente do tempo da Justiça.

É importante compreender que o inventário é um procedimento necessário. Ele existe para organizar a transmissão do patrimônio aos herdeiros. Mas ele não foi criado para administrar uma empresa rural em pleno funcionamento.

Hoje, a propriedade rural deixou de ser apenas um pedaço de terra. Ela é uma empresa, mesmo quando conduzida por uma pessoa física. Existe planejamento financeiro, crédito rural, contratos, tecnologia, funcionários, fornecedores e clientes. Tudo isso precisa continuar funcionando para que o patrimônio mantenha seu valor.

Por isso, cada vez mais se fala em planejamento sucessório.

Planejar a sucessão não significa abrir mão do patrimônio nem antecipar a herança. Significa organizar a continuidade da atividade rural para que a família tenha segurança quando o inevitável acontecer.

Uma sucessão bem estruturada pode evitar conflitos familiares, reduzir custos, diminuir a burocracia, preservar a atividade produtiva e impedir que anos de trabalho sejam comprometidos justamente no momento em que a família mais precisa de estabilidade.

Infelizmente, muitos produtores passam décadas construindo um patrimônio extraordinário, mas deixam para seus filhos um problema difícil de administrar.

O verdadeiro legado de um produtor rural não está apenas nas terras, nas máquinas ou no rebanho. Está na possibilidade de seus filhos e netos continuarem produzindo, preservando aquilo que levou uma vida inteira para ser construído.

A sucessão familiar não começa após a morte.

Ela começa quando o produtor decide proteger sua família enquanto ainda está presente.

Esse talvez seja o maior investimento que alguém pode fazer pelo futuro de seu patrimônio e pelas próximas gerações. Lembre-se: O patrimônio está todo na terra, e a conta da sucessão chega em dinheiro.

 

Por: Juliane Silvestri Beltrame Advogada familiar e escritora.

 

 

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