15/12/2020 às 11h12min - Atualizada em 15/12/2020 às 11h12min

“Estamos vivenciando um novo luto!?”

A psicóloga Alessandra Ludwig esclareceu do seu ponto de vista profissional como viver o luto e a ausência dos rituais de despedida

Da redação
Em meio a inúmeras atividades, em uma manhã de sexta-feira, a psicóloga pós-graduada em avaliação psicológica, Alessandra Ludwig, de 25 anos, concedeu esta entrevista ao Sentinela. Usufruindo das tecnologias e de seus atendimentos presenciais em Palma Sola e Salgado Filho, a jovem procura amenizar a dor daqueles que tiveram a vida desordenada pelo Covid-19. Atenta aos detalhes, esclareceu do seu ponto de vista profissional como viver o luto e a ausência dos rituais de despedida, propondo uma espécie de acolhimento no momento em que o Brasil extrapola o número de mil mortes por dia.
 
Pelo começo: o que é o luto? E que diferenças existem neste experimentado em tempos de pandemia?
O luto é uma resposta esperada e natural que temos ao sofrermos uma perda muito significativa, podendo ser uma separação, perda de emprego, mudança de cidade ou pela morte de alguém. Nem sempre estamos preparados para encarar esse processo e podemos nos sentir desestabilizados, vulneráveis e frágeis. Além disso, cada pessoa vivencia a perda de uma forma diferente, e não tem um período estipulado para terminar e nem um roteiro a ser cumprido. Esse processo é natural e essencial para que possamos nos reconstruir e nos reorganizar diante do rompimento de um vínculo. 
Em relação ao Covid-19, por se tratar de uma doença recente ainda não temos muito estudo sobre o luto, mas o que tem se percebido é um prolongamento, pois não conseguimos realizar um ritual de despedida, que é super importante. É necessário lembrarmos dos momentos bons que tivemos com aquela pessoa, além de abraçar e se sentir acolhido pelos amigos queridos. Essas mudanças tem tornado o processo de luto mais desafiador, podendo dar aos familiares a sensação de negligencia ou tratamento desumano no final da vida, o que aumenta o risco de desenvolvimento de doenças mentais.
 
Vem se desenhando um novo luto?
A forma de vivenciá-lo é única e específica de cada pessoa. Quando estamos falando em um contexto de doenças, ficamos nos perguntando “e se eu tivesse feito diferente”, “e se eu tivesse levado ao médico antes” ou como no Covid-19, “e se não tivéssemos saído” ou “será que fui eu que transmiti o vírus”. Normalmente, esses questionamentos trazem consigo o sentimento de culpa. Ainda não sabemos ao certo como lidar com esse luto sem os rituais de despedida e sem o contato humano e, com isso, estamos construindo e buscando encontrar uma forma de lidar com essa perda da melhor forma possível, talvez com o tempo desenharemos um novo luto desencadeado pelo Covid-19.
 
Como vivê-lo sem despedidas ou rituais?
Diante das orientações sanitárias vigentes, os rituais de despedidas estão acontecendo de uma forma diferente. As famílias devem ser informadas de maneira cuidadosa e sensível sobre os procedimentos necessários, pois elas precisam ter a oportunidade para esclarecer dúvidas e tomar decisões relativas ao falecido, conforme apropriado. Quando possível, recomenda-se a realização de estratégias presenciais de despedida adaptadas às restrições do período ou mesmo estratégias remotas, dentre elas: inserir uma foto da pessoa falecida no caixão ou no espaço de velório.
Quanto às remotas, sugere-se a realização de rituais individuais, como acender uma vela em uma janela, e rituais coletivos, envolvendo incentivo à rede familiar e entre amigos, para expressar seus sentimentos por meio de telefonemas, cartas, mensagens de texto e áudio. Salienta-se também a criação de memoriais on-line, em que familiares, amigos e outras pessoas manifestam suas condolências e compartilham pensamentos sobre o falecido. Essas são formas de enfrentamento que podem ajudar, já que, neste momento, não conseguimos nos encontrar presencialmente.
 
E o que resta às famílias ‘atropeladas’ pelo Covid-19? 
Em nossa cultura, não temos espaço para viver as nossas dores, pois nos dizem há todo momento que precisamos ficar bem ou ser fortes. Precisamos sim, mas não no momento em que estamos despedaçados e perdidos. Precisamos vivenciar a nossa dor, acolher, chorar, olhar para ela, senti-la e permitir-se sofrer. Negar a realidade é algo recorrente, e aqui não teremos a chance de resolver e elaborar o vazio deixado por uma pessoa que se foi. Somente a partir da aceitação que o fato ocorreu, teremos a oportunidade de ressignificá-lo. O importante é se sentir acolhido, de ficar mais próximo das pessoas que nos fazem bem, pelo simples fato de estarem ao nosso lado e, buscar um conforto em quem ficou e que realmente podemos contar.
 
Como o processo do luto não vivido pode agravar sofrimentos psíquicos? É possível dimensionar o que isso pode representar coletivamente?
Não há ainda como dimensionar os agravamentos psíquicos pelo luto não vivido. Neste ano, o que podemos perceber é um aumento significativo em sintomas relacionados ao estresse, a ansiedade e a depressão. Com o aumento de casos e óbitos, aumenta o medo e o número de pessoas que conhecemos ou são da nossa família que tiveram Covid-19 ou acabaram falecendo em decorrência dele, nos dando a sensação de um luto coletivo e que pode durar mais tempo do que o esperado. Precisamos cuidar dessa dor, nem sempre o tempo cura nossas cicatrizes, precisamos também estar atentos a elas, e a buscar ajuda, tanto um acompanhamento dos profissionais de saúde como dos familiares, afim de auxiliar neste momento de muitas perdas, de pessoas queridas e de nossas liberdades. 
 
Para concluir: o que essas perdas repentinas nos dizem da vida e da finitude?
Essa questão é bem existencial. Bem, esse ano com certeza não foi comum para ninguém. Acredito que devemos tirar dele o melhor que podemos e entender que nossa vida é finita e que do futuro realmente não sabemos. A dor do luto não deve durar para sempre, ela é um processo, por isso devemos valorizar mais as pessoas que amamos e que estão ao nosso lado, aproveitar os momentos bons e cuidar da nossa saúde mental e física.
Em casos de perdas e separações de pessoas, precisamos lembrar que parte delas, o que aprendemos e sentimos, está em nós e no que nos tornamos. Quando precisamos nos despedir de alguém, não estamos nos despedindo do que ela representa e significa para nós. Aceitar não significa esquecer e sim ter a pessoa dentro de nós, mesmo sendo um processo demorado e dolorido. E lembre-se, não precisamos passar por esses momentos sozinhos! Essa pandemia nos mostrará o quanto é importante mudar.
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