Nilo Lazaretti: Um legado de música, vinhos e tradição gaúcha

Pioneiro em São José do Cedro e assinante do jornal Sentinela do Oeste, desde 2009, Nilo Lazaretti marcou geração com sua gaita, sua paixão pelas parreiras e pelo vinho

Jéssica Rebelatto - São José do Cedro
18/03/2025 10h00 - Atualizado há 2 semanas
Nilo Lazaretti: Um legado de música, vinhos e tradição gaúcha
A música foi uma das paixões de Nilo ao longo de sua vida, com sua gaita em mãos, levava alegria a aniversários, encontros comunitários e reuniões familiares. (Foto: Divulgação)

No dia 4 de fevereiro, a cidade de São José do Cedro se despediu de um de seus queridos moradores, Nilo Lazaretti, falecido aos 85 anos. Ele foi um dos pioneiros do município, que chegou para desbravar o solo cedrense no ano de 1960. Ele foi símbolo da tradição gaúcha, alegria, e dedicação à comunidade. Sua vida foi marcada pela paixão à música gaúcha, especialmente pelo gosto de tocar sanfona, gaita, pelo cultivo de parreiras, pela produção de vinhos, além de manter um círculo de amizades muito grande e carregar um orgulho imenso pela família que criou.

 

Uma história de trabalho e superação

Nilo Lazaretti nasceu no dia 13 de julho de 1939, no Rio Grande do Sul. Desde pequeno, foi cercado por música, já que sua família tinha uma forte tradição no uso da gaita. No entanto, comprar o próprio instrumento musical não foi fácil. Ele precisou trabalhar duro até conseguir adquirir sua primeira gaita e, a partir de então, a música se tornou uma extensão da sua identidade.

Em 1959 casou-se com Iraci Gasperin, com quem construiu uma sólida família. Juntos, resolveram fixar raízes em Santa Catarina, mais precisamente na Linha Esquina Derrubada, interior de São José do Cedro. Na época, a região ainda estava sendo desbravada e o casal teve que enfrentar sérias dificuldades para transformar a terra bruta em um lar. Nilo e Iraci, dedicaram anos trabalhando incansavelmente na agricultura, sempre priorizando o bem-estar da família e buscando, a cada ano, a cada safra, melhorar suas condições de vida. Queriam plantar, colher e crescer.

O casal teve 6 filhos, 9 netos e 5 bisnetos, e mesmo diante das dificuldades, a fé, a esperança e a alegria nunca faltaram.

 

A música como legado

A música foi uma das paixões de Nilo ao longo de sua vida. O talento que herdou de seu pai, que tocava acordeon e gaita, bem como de seus 4 irmãos, foi compartilhado com os amigos e vizinhos, tornando-se um dos principais animadores das festividades locais. Com sua gaita em mãos, levava alegria a aniversários, encontros comunitários e reuniões familiares.

Em 2009, decidiu transformar essa paixão em algo mais marcante e fundou o Grupo Amigos da Gaita. A iniciativa nasceu com o objetivo de manter viva a tradição da música gaúcha e proporcionar momentos de lazer e diversão àqueles que compartilhavam do mesmo gosto musical. O grupo foi conquistando espaço e passou a apresentar um programa de rádio, ao vivo, todas às terças-feiras, no horário das 18h às 19h, na Rádio Integração FM 95,9 de São José do Cedro. Atualmente, o Grupo Amigos da Gaita, segue fazendo o programa. Nilo não está mais presente fisicamente, mas eles acreditam que em um outro plano, Nilo agora é um ouvinte assíduo e bate palmas para seus amigos que seguem o projeto que ele tanto amava.

Mesmo quando começou a enfrentar problemas de saúde, Nilo não deixou a música de lado. Em seus últimos meses de vida, já debilitado, continuou fazendo questão de participar dos eventos e dos programas de rádio. Apenas 15 dias antes de falecer, ainda esteve presente em um gaitaço na comunidade de Linha Seis Barras, interior do município cedrense, mostrando que sua paixão pela música era mais forte do que qualquer limitação física.

 

A tradição da uva e do vinho

Além da gaita, outra grande paixão de Nilo era o cultivo dos parreirais e a produção de vinhos. Desde os tempos em que morava no interior do município, dedicava parte do seu tempo nos cuidados com seu parreiral, sempre buscando aprimorar a qualidade das uvas e buscando novas espécies.

Mesmo depois de se mudar para a cidade, manteve o hábito de cuidar das videiras no quintal da sua casa, mantendo viva sua conexão com a terra. O cultivo das uvas e a produção de vinhos era prazeroso e ele sempre gostava de presentear os amigos com um cacho de uva da parreira dele ou uma garrafa da bebida feita por ele. Tinha prazer em produzir, mas também em compartilhar sua produção. Quem visitava sua casa, dificilmente saía sem ganhar um cacho de uva ou uma taça de vinho.

O amor pela natureza também se manifestava no carinho que tinha pelas flores. Ele mesmo plantava e cuidava do jardim, e fazia questão de manter um vaso florido todos os dias em homenagem à esposa, que faleceu dois anos antes dele.

 

Um homem criativo e de bom coração

A criatividade sempre foi um traço marcante da sua personalidade. Ele gostava de construir pequenos inventos e era conhecido pelo apelido de “MacGyver” entre amigos e familiares, em referência a um personagem famoso da televisão que conseguia criar soluções inovadoras com poucos recursos.

Ele criava cataventos, brinquedos e esculturas de madeira, além de consertar tudo o que via pela frente: “Um pedaço de pau para ele virava um barquinho”, relembra Délcia Lazaretti Matte, filha de Nilo.

Mais do que isso, ele valorizava as amizades. Amava receber visitas e fazia questão de receber pessoas em sua casa. Todos sempre eram bem-vindos. Quando alguém chegava, ele rapidamente buscava um vinho, um queijo e um salame para servir.

 

Leitor assíduo do jornal Sentinela do Oeste

Além de suas paixões pela música e pelo vinho, Nilo sempre foi um homem informado e atento ao que acontecia em sua cidade e na região. Desde 2009, ele era assinante do jornal Sentinela do Oeste, entre outros periódicos, acompanhando as notícias locais e regionais com grande interesse. Gostava de estar atualizado e compartilhava os assuntos do jornal com amigos e familiares. Para ele, a leitura do Sentinela era mais do que um hábito, era uma forma de se conectar com a comunidade e compreender as mudanças ao seu redor.

 

A última luta e o adeus

Nilo foi diagnosticado com câncer intestinal em 2017. De lá para cá passou por quatro cirurgias e, apesar da gravidade da doença, não precisou de quimioterapia. Demonstrando muita força e vontade de viver, conseguiu se recuperar e continuar aproveitando a vida, mesmo com algumas limitações.

Nos últimos meses sua saúde piorou, aos poucos foi ficando fraco e bastante debilitado, mas ele nunca perdeu o gosto pela vida. Mesmo fraco e com dificuldades para andar, ele insistia em participar dos encontros dos Amigos da Gaita e de momentos importantes com a família.

Foi um guerreiro, lutou até o último minuto de sua vida. Sua partida foi sentida por toda a comunidade que se reuniu, em luto, para dar o último adeus ao homem que, com sua música e seu espírito alegre, marcou a vida de tantas pessoas.  

 

Um legado de amor e tradição

O legado deixado por Nilo Lazaretti transcende sua família. Ele deixou ensinamentos de honestidade, humildade e do valor que as pequenas coisas da vida têm. Seus filhos e netos agora se empenham em manter viva a sua memória. As duas gaitas que tanto amava serão entregues aos bisnetos, na esperança de que a música continue a ser parte da história da família.

A casa onde Nilo e Iraci viveram, está sendo cuidada e preservada para manter viva a lembrança dos momentos mais felizes ali vividos em família.

O exemplo de vida deixado por Nilo, segue vivo em cada acorde de gaita tocado, em cada garrafa de vinho compartilhada entre amigos e em cada história contada ao redor de uma mesa. Ele partiu, mas sua essência permanecerá para sempre na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

 

 

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