Ivo Feldkircher, o homem que deseja passar dos 100 anos

Natural de Selbach-RS, Ivo Feldkircher chegou em Anchieta em 1965 e ali construiu sua família e angariou amigos. Um homem de um coração grande que faz parte da história anchietense

- Anchieta
07/01/2026 08h00 - Atualizado há 2 meses

Ivo Feldkircher, o homem que deseja passar dos 100 anos
Aos 87 anos de idade, a rotina de Ivo inclui jogos de baralho, leituras de jornais e caça-palavras. Dono de uma memória invejável, ele pretende passar dos 100 anos de idade. (Foto: Ruthe Kezia)

Aos 87 anos, Ivo Feldkircher carrega no olhar e no falar a memória viva de uma vida inteira dedicada ao trabalho, à família e às amizades. Nascido no dia 18 de agosto de 1938, em Selbach-RS, foi o terceiro de 12 irmãos e desde cedo aprendeu que responsabilidade não se escolhe, se abraça. Aos 12 anos, com o pai doente e os irmãos mais velhos trabalhando fora, foi ele quem assumiu a roça e a administração da pequena propriedade da família.

Plantávamos arroz e tínhamos gado leiteiro, com 12 anos eu já tocava tudo. Gostava da roça, nunca tive medo de trabalhar”, lembra. A infância foi marcada pela simplicidade, por jogos improvisados no potreiro e pela convivência com a natureza. A juventude, pelo serviço militar em Cruz Alta-RS, onde fez amizades que guarda até hoje.

Mas talvez a lembrança mais forte seja na adolescência, aos 14 anos, quando viu Iracema Hoffmann Feldkircher pela primeira vez, que anos depois se tornou sua esposa e a mãe de seus quatro filhos [Airton, Janice, Clarice e Zoneide]. “Estávamos brincando num potreiro e de repente ela passou lá. Era uma menininha, tinha 10 anos, caminhava pulando, magrinha, ela sempre foi faceira”, recorda Ivo do dia que viu o seu grande amor pela primeira vez.

Depois de conhecer a mulher com quem iria construir uma família, a vida continuou e aos 19 anos foi servir o Exército em Cruz Alta: “Hoje eu acho que é bem diferente, mas naquela época os comandantes, coronéis, generais, eram piores que o diabo”. Mas entre marchas e noites em barracas, ele aprendeu a importância da amizade, lição que carrega até hoje.

Ele conta que na sua companhia havia um cabo que brincava com eles na hora da folga e tratava bem os recrutas, porque queria ser convidado pelos soldados durante as férias, para pescar nos açudes da região: “Ele tinha uma ideia que nem eu sempre tive de conquistar os amigos, porque se você tem amigos, você é bem visto em tudo”, declara Ivo.

Após retornar do exército, ele reencontrou sua amada e o primeiro contato mais próximo entre os dois, foi em um baile: “Estávamos em um baile da comunidade e eu fui dançar com ela. Ela era muito papuda e simpática. Aí no próximo domingo, em um outro baile, dançamos juntos outra vez e já se atraquemo”, relembra Ivo, dos primeiros beijos.

A partir disso, Ivo e Iracema nunca mais se deixaram, na época ele tinha 20 anos e ela 15 anos. Namoraram por aproximadamente seis anos e no dia 5 de janeiro de 1965, aos 26 e 21 anos, respectivamente, Ivo e Iracema se casaram.

 

Saindo do RS rumo a Anchieta

Alguns anos antes de se casarem, em 1950, o pai de Iracema [Afonso Hoffmann] comprou três colônias de terra em Anchieta e entre elas, um pequeno Moinho que descascava arroz e moía milho. Com o tempo a família veio vindo do Rio Grande do Sul ao município anchietense e dando início ao novo empreendimento familiar que marcou gerações.

Casados a apenas 23 dias, Ivo e Iracema encararam uma nova mudança que mudou por completo o futuro do casal. Ivo, que sempre trabalhou na roça, encontrou no Moinho da nova família, um novo rumo. Ali atuou por quatro décadas, muitas delas em jornadas que duravam em torno de 18h.

As histórias que coleciona são inúmeras, mas para ele nada supera a importância da família e dos amigos. O casal teve quatro filhos e viveu alegrias e dores profundas, entre elas a perda de dois netos, Jean e Suellen. Jean, o neto mais velho, que na época tinha 18 anos, faleceu em um acidente de carro e Suellen foi vítima de um câncer no intestino. Além disso, a família sofreu com a perda da filha Janice, que faleceu em 2020 vítima de um AVC. Cada relato vem acompanhado pela emoção contida e pela fé que o sustenta.

Tínhamos uma família muito feliz, mas o destino é assim. Como Deus quer, a gente tem que ir”, destaca o patriarca. Aos 87 anos de idade, ele resume que o maior bem do ser humano é a família e os amigos, e esse foi o ensinamento que passou aos seus filhos.

 

Tocando o empreendimento familiar

Ivo e Iracema vieram a Anchieta com a proposta de trabalhar no Moinho. Inicialmente ele cuidava do chiqueirão e auxiliava no transporte com o caminhão, onde aprendeu a dirigir de forma intuitiva, sem aula, sem instrução formal e sem medo. O primeiro volante que encarou foi justamente o do caminhão do Moinho, carregando grãos, fazendo entregas e encarando estradas difíceis, como se já tivesse anos de experiência. Mais tarde passou a atuar diretamente no Moinho e permaneceu ali por cerca de 40 anos.

Na edição 866, o jornal Sentinela publicou uma matéria de memória sobre a história do antigo Moinho, intitulada: “O Moinho de Anchieta é símbolo de trabalho e união”. Mesmo duas décadas após o fechamento do Moinho, a filha mais nova, Zoneide Feldkircher, conta que o pai ainda sonha com a rotina que o acompanhou por mais de 40 anos: “Ele sonha quase toda noite com o Moinho, que trancou alguma coisa, que o motor não funciona, que está descarregando”.

O barulho das máquinas e a rotina, que por tantos anos embalou seus dias e noites, permanece vivo na memória e na imaginação. O moinho encerrou as atividades, mas nunca saiu da vida de Ivo.

 

Ensino aos filhos

Zoneide descreve seu pai como coração e a mãe como a razão. Com orgulho do ensinamento que recebeu, ela conta que o pai sempre ensinou a pensar nas consequências de qualquer atitude: “Ele me fala todo dia, tudo o que for fazer, primeiro tem que saber as consequências que aquilo vai dar”.

Além de ensinar os filhos na prática, ensina com exemplos. Ivo é um homem de uma conduta admirável, um pai que nunca precisou surrar seus filhos e um avô amável. Ele conta que isso foi possível graças ao lar de seus pais, onde nunca ouviu o pai e a mãe brigarem e replicou isso em sua casa depois de adulto.

Ivo e Iracema construíram juntos um lar acolhedor para seus filhos e netos e até hoje colhem os frutos dessa escolha. Mesmo após as perdas, Ivo destaca que os netos são sua maior riqueza: “Como a gente cria os filhos, os netos respondem em dobro”, destaca Ivo.

Carinhoso, apegado à família e extremamente trabalhador, Ivo nunca parou. Mesmo depois de se aposentar, continua cuidando da horta, dos animais e da pequena chácara onde vive com a esposa e a filha: “Eu gosto da terra. Se deixar, eu trabalho o dia inteiro”, admite.

Além de cuidar da horta, a sua rotina inclui jogos de baralho nos finais de semana, leituras de jornais e caça-palavras. Querido na comunidade, reconhecido pela humildade e pela leveza com que encara a vida, Ivo possui uma memória invejável e uma história que mistura fé, superação, simplicidade e humor.

Hoje com 87 anos de vida, casado com seu grande amor, com quatro filhos [uma falecida], quatro netos [dois falecidos], pretende viver ainda mais de 13 anos, passando dos 100 anos de idade. Se depender da força que o move, não será surpresa. Ele construiu uma vida pautada pela honra, cercada de amigos que o admiram e de uma família que o tem como referência.

 

 

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