Nascido em 1941, em São Valentim-RS, Valdir Folador chegou a Palma Sola ainda jovem, no início de 1960. A mudança da família aconteceu por influência do avô, que fazia muita propaganda de Palma Sola. O avô queria trazer a família para perto e para convencer, afirmava que em Palma Sola havia espaço para instalar um moinho, oportunidade essa que trouxe pai, mãe e irmãos de Valdir para o novo território, ainda tomado por mato.
Ao chegar em Palma Sola, a família começou a construção do moinho e depois de tudo pronto, Valdir continuou trabalhando no empreendimento da família. Sua vida era dividida em trabalhar na roça cuidando das vacas e dos cavalos e no moinho moendo milho.
Mesmo sem formação escolar, ele sempre foi muito interessado em aprender coisas novas. Valdir conta que aprendeu muita coisa com o irmão mais velho, que estudava para padre e durante as férias lhe ensinava o básico. Depois de alguns anos, já adulto conseguiu concluir o ginásio.
Passado algum tempo em Palma Sola, a vida o levou para uma nova aventura em Francisco Beltrão-PR, onde serviu por nove meses no quartel. Lá, ele se destacou por sua inteligência, mesmo tendo estudado pouco: “Eu passei em segundo lugar no curso de cabo”, conta, orgulhoso da conquista que marcou a sua juventude.
Na época em que serviu o quartel, alguns familiares de Valdir moravam em Beltrão, então nos finais de semana, quando não estava de plantão, ia lá para poder comer e tomar vinho.
Valdir avalia sua estada no quartel como positiva e inspiradora, pois mesmo sem formação acadêmica, conseguiu se destacar e conquistar títulos importantes. Ainda no quartel, manteve vivo seu interesse pelo aprendizado: nas horas vagas e nos finais de semana, Valdir conseguia dispensa para estudar datilografia no Colégio das Irmãs Glória, em Francisco Beltrão, sem saber que essa habilidade seria crucial para seu futuro profissional. Após sua breve passagem pelo quartel, retornou a Palma Sola, onde retomou os trabalhos da família.
Valdir lembra que a vida em Palma Sola começou a melhorar a partir de 1961, quando o distrito virou município. Os espaços que eram tomados pelo mato, passaram a ganhar casas, ruas e histórias.
A mudança de vida e o início de uma nova profissão
A vida financeira de Valdir começou a mudar quando conheceu Libório Romildo Kuhn, na época Libório estava concorrendo a prefeito e ficou impressionado com a facilidade que o jovem tinha para fazer contas sem olhar: “Ele me disse para trabalhar durante sua campanha, e que ao se eleger, me venderia o cartório. Na hora já disse que poderia me vender, pois sabia que iria vencer a eleição”, conta Valdir.
Assim dito, assim feito. Em 1962, Libório foi eleito como o primeiro prefeito de Palma Sola [1963 – 1968], e com apenas 20 anos, Valdir assumiu o cartório. Ele relembra que no começo, tudo era feito no carimbaço. Sua rotina era cheia, sempre registrando reconhecimentos de firma, escrituras, nascimentos, casamentos e óbitos, Valdir sempre cuidou de tudo com precisão e responsabilidade. “A Palma Sola inteira eu registrei. Já registrei mais de 10 mil nascimentos”, declarou.
Além de atuar no cartório palmassolense, Valdir foi por aproximadamente três anos titular interino do cartório de Campo Erê e agora assumiu como titular interino o cartório de Dionísio Cerqueira-SC. Valdir explica que quando um escrivão se aposenta ou muda para outro cartório, o cartório fica aberto em um concurso público, que sai a cada cinco anos. Durante esse tempo, os cartorários da região assumem o cartório e passam a responder pelo mesmo.
Hoje, aos 84 anos, segue ativo no cartório e afirma que gosta do trabalho que realiza. Diz que não pretende se aposentar enquanto estiver apto e motivado, já que a aposentadoria seria inferior aos ganhos obtidos na atividade laboral. Mesmo trabalhando ativamente, Valdir conta com o apoio do filho, André, o popular Foca, que é o Substituto Legal da serventia.
Durante seus 64 anos como cartorário, ele carrega diversas lembranças de solidariedade. Valdir já foi o responsável por unir familiares que há anos não se encontravam e estavam perdidos. Com um coração bondoso, já ajudou muitas pessoas a encontrar alguns documentos sem cobrar pelo seu trabalho.
“Sempre ajudei qualquer pessoa que precisasse de alguma coisa. Claro que não fazia tudo de graça, por exemplo, se o cara vinha fazer uma escritura, ele tinha que pagar, eu ajudava de outra forma. Se ele precisava de um documento de fora, eu mandava buscar e quando vinha o meu trabalho não custava nada”, relembra.
Vida familiar e amorosa de Valdir
A história de amor de Valdir começou de maneira especial. Ele conheceu Jecy, carinhosamente chamada de Nega [in memoriam], e após algum tempo, os dois iniciaram um namoro. A relação evoluiu rapidamente e se transformou em casamento quando Nega engravidou. Dessa união nasceram sete filhos: Marcos, Jonas, Jackson, Álvaro, Luciano, André e por fim, a tão sonhada menina, Aglaé.
Quando os filhos começaram a chegar, a casa de madeira foi se tornando pequena e cheia de barulho. Valdir lembra que seus filhos jogavam bola na frente de casa, brincavam com os amigos e se divertiam. Ele lembra de um episódio que ficou marcado na família Folador: “Tinha tido uma comemoração na cidade, acho que foi quando um prefeito se elegeu, e os meninos encontraram um foguete e trouxeram para casa. Eles chegaram em casa e colocaram no fogo pra acender, de repente aquilo estourou e só dava pra ver panela voando. Tinha feijão espalhado por tudo”, Valdir ri ao relembrar.
Questionado sobre como foi criar seis meninos, ele conta que eram, em geral, bem comportados, mas que às vezes precisava corrigi-los. “Quando era necessário, eu chamava atenção. Na primeira vez que aprontavam, eu orientava e dizia para não repetir. Se acontecia de novo, recebiam uma punição, ficavam de castigo e, depois, eu os colocava para rezar”, lembra.
Ele acrescenta que os pais não podem atender apenas aos desejos dos filhos; quando algo está errado, é preciso corrigir, até mesmo restringindo aquilo de que o filho gosta. Correção e amor nunca faltaram na casa dos Folador. Os filhos cresceram sendo amados e mimados pela mãe, e, mesmo em épocas difíceis, Valdir sempre garantiu o sustento da família: “Nunca tive dificuldade em criá-los. Trabalhando duro para que nunca lhes faltasse nada, eu e a Nega sempre cuidamos com muito carinho deles. Sempre procurei oferecer o melhor possível e, até hoje, quando precisam, continuo ajudando”.
Com esse pensamento, Valdir criou seus sete filhos e lhes ensinou três valores: ser honesto, trabalhar sério e estudar mais do que ele. Valdir sempre incentivou seus filhos a estudar, inclusive financeiramente, ele queria que seus filhos fossem além dele.
Além de pai presente, foi companheiro de sua esposa até o fim. A matriarca da família ficou muito doente, acamada, dependente de oxigênio e a família se uniu para cuidar. Há aproximadamente dois anos, Nega partiu deixando um vazio no coração da família e nas festas familiares.
Mesmo assim, em memória de Nega, a família segue se reunindo e mantendo a festa característica dos Folador: casa cheia, conversas altas, risadas e, principalmente, relembrando os velhos tempos. Nessas reuniões, estão presentes os filhos, noras, genro, netos e amigos, que sempre foram bem-vindos. Hoje, os filhos de Valdir estão espalhados: dois moram em Palma Sola, três em Florianópolis-SC, um em Passo Fundo-RS e outro em Sorriso-MT.
Caminhadas, leitura e uma vitalidade que impressiona
O tempo envelheceu o corpo, mas não conseguiu parar a mente. Aos 76 anos, se formou na primeira turma da Universidade da Terceira Idade (Uniti), na Unoesc, em São Miguel do Oeste-SC. Mesmo já com uma certa idade, ele ia uma vez por semana a São Miguel estudar, até se formar. Valdir sempre foi uma pessoa determinada, dedicada, pontual e curiosa.
Ainda hoje lê dois livros grossos por semana e faz academia três vezes por semana. Até algum tempo atrás, fazia longas caminhadas, para exercitar o corpo e a mente. “Não tem ninguém da minha idade que faz tudo o que eu faço”, diz orgulhoso.
Valdir e Nega eram frequentadores assíduos do grupo dos idosos, mas, após a partida de sua companheira, Valdir deixou de comparecer por um tempo. Atualmente, ele voltou a participar, embora não com a mesma frequência de antes, pois sente falta de um par para dançar. Para matar a saudade, em alguns domingos ele dança com a nora Cristiane, esposa de seu filho André, com quem, junto com a neta Antonella, todos moram com Valdir — uma alegria imensa para ele ter a família por perto e compartilhar os momentos do dia a dia juntos.
Depoimentos de filhos e da primeira neta
A seguir você irá acompanhar alguns depoimentos dos filhos de Valdir, contando algumas histórias e expressando seu amor pelo pai:
O filho Marcos [primeiro filho do casal], parabeniza o pai pelos 64 anos dedicados ao cartório de Palma Sola e ressalta que essa trajetória foi marcada por seriedade, compromisso e amor pelo que faz. Ele lembra que praticamente todos os Palmassolenses passaram pelas mãos do pai, registrando momentos importantes da vida, e que ele sempre acompanhou cada transformação do trabalho, da escrita manual ao digital, com ética e dedicação. Marcos destaca que, além do profissional exemplar, seu pai é um pai admirável, que ensinou valores, humildade e respeito, sendo um exemplo constante para a família. Emocionado, afirma que o legado construído é motivo de orgulho não apenas para Palma Sola, mas para todos eles, encerrando com gratidão e carinho: “Te amo muito, pai.”
O filho Jonas Folador [segundo filho do casal], parabeniza o pai pelos 64 anos dedicados ao cartório e afirma que a profissão foi conquistada por mérito, exercida sempre com sabedoria e honestidade. Ele destaca que seu Valdir nunca mediu esforços para atender a comunidade, fosse no cartório ou na casa das famílias. Segundo Jonas, essa disponibilidade constante revela o compromisso genuíno do pai com o próximo e com o serviço público.
Com emoção, Jonas diz que sempre teve orgulho do pai por cuidar tão bem do cartório, e sobretudo da família, garantindo educação, valores e o caminho certo para todos os filhos. Ele afirma que a homenagem recebida é mais do que justa e reforça o legado construído ao longo de toda uma vida. Agradecido por tudo que o pai fez e ainda faz, encerra dizendo: “Te amo muito, pai”.
O filho Jackson Folador [terceiro filho do casal], parabeniza o pai pelos 64 anos dedicados ao cartório e destaca que sua trajetória é marcada por trabalho duro, honestidade e compromisso. Ele afirma sentir enorme orgulho do pai, que sempre foi um exemplo de responsabilidade e de como realizar qualquer tarefa com seriedade. Jackson agradece pelo carinho e pelas lições que recebeu ao longo da vida, desejando que o momento de homenagem seja celebrado com alegria e gratidão.
Entre as lembranças que guarda com carinho, ele conta episódios divertidos da infância e das viagens em família, como o dia em que, a caminho de Florianópolis, o pai passou por uma lombada sem perceber e todos no banco de trás bateram a cabeça no teto. A brincadeira do placão, criada pela irmã Aglaé, depois de um segundo salto, rendeu risadas até o destino. Outra memória marcante é de quando, ainda pequeno, ele se escondia atrás do banco do carro [na época Valdir tinha um Corsel], para acompanhar o pai à rodoviária depois do expediente. Certa vez, escondido durante o trajeto, o pai bateu atrás de um caminhão em meio à poeira da estrada. Jackson só saiu do carro depois que tudo havia se resolvido e desde então, o pai sempre conferia se o filho não estava escondido antes de sair.
Luciano Folador [quinto filho do casal, gêmeo do Álvaro], agradece e parabeniza o pai pelos anos dedicados à família, lembrando o quanto ele trabalhou incansavelmente para garantir uma vida digna à esposa e aos filhos. Destaca que o pai sempre priorizou a educação dos sete irmãos, nunca medindo esforços para oferecer estudos e todo o suporte necessário para o desenvolvimento de cada um.
Com emoção, ele recorda da mãe, descrita com respeito e saudade. Segundo Luciano, ela foi uma verdadeira guerreira, uma chefe de lar exemplar, destacando que enquanto o pai se dedicava ao cartório, ela cuidava de tudo com amor. Amiga, protetora e dona de um coração enorme, sua presença marcou profundamente a vida da família e sua memória permanece viva em todos eles.
Álvaro Folador, [quinto filho do casal, gêmeo do Luciano] presta sua homenagem reconhecendo a longa e sólida trajetória do pai no Cartório de Palma Sola, construída com seriedade, compromisso e respeito às pessoas. Destaca o exemplo deixado dentro e fora do trabalho e o orgulho que sente por tudo o que o pai representa para a família e para a comunidade. Com simplicidade e afeto, resume seus sentimentos: “Pai, parabéns por todos esses anos de dedicação. Que venham muitos outros. Tenho orgulho do senhor. Te amo”.
O filho André [último filho homem do casal) expressa sua profunda admiração e gratidão pelo pai, reconhecendo tudo que ele fez e ainda faz, tanto no cartório de Palma Sola quanto na vida da família. Morando com ele, André valoriza cada ensinamento recebido, cada exemplo de dedicação, ética e amor pelo trabalho e pelas pessoas, que moldou não apenas sua visão sobre o serviço público, mas também sobre a vida. Ele lembra que conviver com o pai é uma lição diária de paciência, humildade e responsabilidade, e que cada ato do pai, seja profissional ou pessoal, inspira e ensina. Com emoção, André encerra afirmando: “Te amo muito, pai, e sou grato por tudo que me ensinou”.
Aglaé Folador [filha mais nova e única mulher entre os filhos], expressa um profundo orgulho pela trajetória do pai. Para ela, os 84 anos de vida de Valdir são marcados por trabalho, ética e responsabilidade, valores que renderam não apenas reconhecimento profissional pelos mais de 60 anos dedicados ao Registro Civil, mas uma história pessoal construída com firmeza e amor. Ao lado da esposa, ele criou sete filhos unidos, transmitindo direção, princípios e coragem para que todos seguissem pelo caminho certo.
Aglaé recorda com carinho o quanto o pai sempre reforçou a importância dos estudos, dizendo que o conhecimento é a única coisa que ninguém pode tirar de alguém. Suas lembranças mais afetuosas vêm das manhãs frias da infância, quando ele preparava seu café, aquecia o uniforme no fogão a lenha e o levava até a cama para que ela se vestisse ainda sob as cobertas. Esses gestos simples, mas repletos de cuidado, foram fundamentais para sua formação e para o amor que ela nutre pelo pai até hoje.
Ela agradece por todos os ensinamentos que carregou para a vida pessoal e profissional, incluindo a dedicação que a levou a conquistar o Mérito Estudantil na faculdade de Direito. Ela afirma que cada vitória sua, também é do seu pai: “Tudo o que sou, carrega um pedaço do que aprendi com ele”, relata. Aglaé destaca que Valdir continua sendo exemplo de determinação, disciplina e vontade de viver.
Marina Folador [primeira neta do casal, filha de Álvaro, mãe do Gael, primeiro bisneto], recorda que o avô marcou sua infância de maneira simples e especial, sempre presente à sua maneira e demonstrando carinho em pequenos gestos, como quando lhe dava um dinheirinho escondido, gesto que para ela dizia muito mais do que palavras. Marina afirma que apesar da passagem do tempo e das mudanças da vida, essas lembranças permanecem vivas e representam o verdadeiro valor da relação dos dois. Para ela, a homenagem recebida por seu Valdir simboliza não apenas sua trajetória profissional, mas também a pessoa íntegra e o legado afetivo que ele construiu ao longo dos anos.
O legado: trabalho, retidão e afetos
Hoje, com 84 anos, viúvo, com sete filhos, nove netos, uma bisneta e uma vida inteira de histórias guardadas na memória e nas páginas do cartório. É respeitado, querido e conhecido no município. Valdir Folador vive uma vida com simplicidade, sempre se exercitando, lendo bons livros e tomando dois copos de vinho por dia, bebida que nunca falta na hora do almoço e da janta.
Neste ano, ele recebeu uma placa de ouro da Associação dos Registradores das Pessoas Naturais de Santa Catarina (Arpen-SC), pelos seus mais de 60 anos como titular da Escrivania de Paz de Palma Sola.
Mas para sua família, o maior orgulho é do exemplo que ele foi e da história de vida que construiu baseada no trabalho, honestidade e cuidado.