Entre o direito, os livros e a vida

Advogada, escritora e leitora voraz, Juliane Silvestre Beltrame, natural de Campo Erê, construiu sua trajetória entre o direito, a família, o luto e o desejo permanente de aprender

Igor Vissotto/ Ruthe Kezia - Campo Erê
14/01/2026 08h00 - Atualizado há 1 mês

Entre o direito, os livros e a vida
Aos 54 anos, Juliane que é casada, mãe, advogada, escritora e possui quatro livros publicados, conta que a leitura tornou-se o seu refúgio, após perder pessoas que amava. (Foto: Divulgação)

Juliane Silvestre Beltrame, nasceu em Campo Erê no dia 26 de setembro de 1981, às 8h pontualmente, no Hospital Santo Antônio. Primogênita da família, veio ao mundo já agitando, como ela mesma brinca. Cresceu entre a simplicidade da casa dos pais, a rotina escolar no Jardim das Irmãs e mais tarde, na EEB Emílio Garrastazu Médici, onde desde cedo demonstrava inclinação pelas humanas e uma dificuldade declarada com a matemática.

A infância foi marcada por contrastes, ao mesmo tempo em que era cercada de afeto, Juliane carrega até hoje a lembrança de um episódio que a marcou profundamente. Quando tinha cerca de sete anos, a irmã mais nova nasceu com um grave problema cardíaco e precisou ser transferida às pressas para Curitiba-PR. Os pais partiram imediatamente, e Juliane ficou sem saber exatamente com quem permaneceu. A ausência repentina deixou nela uma sensação de abandono que só viria a compreender e ressignificar, muitos anos depois, já adulta em processo terapêutico.

Mesmo assim, foi uma infância de escola, amizades duradouras e memórias sensoriais fortes, como o cheiro de massinha de modelar e giz de cera, que até hoje a transportam para aquele tempo.

 

A força do pai e a escolha pelo direito

Juliane sempre foi muito ligada ao pai. Fazendeiro e comerciante, homem simples e disciplinado, ele acreditava no trabalho e na responsabilidade. Embora tivesse condições financeiras, mantinha uma vida sem excessos. Foi dele que Juliane herdou a admiração, o senso de ética e, de certa forma, a necessidade de provar que era capaz.

Quando decidiu sair de Campo Erê para estudar, precisou enfrentar o receio paterno comum à época, o medo de que uma jovem mulher, sozinha, não desse conta. Juliane foi, estudou, se formou e voltou. Ao retornar formada, encontrou no pai seu maior orgulho. A conquista não era apenas o diploma, mas a quebra de um paradigma.

Formou-se em Direito em 2004, pela FURB, em Blumenau-SC. Depois de formada foi para Florianópolis cursar Magistratura, pois seu sonho inicial era ser juíza. No decorrer do curso, percebeu que aquele caminho não combinava com sua essência. Juliane queria falar, ouvir, dialogar, fazer amigada e encontrou na advocacia o espaço para isso.

Voltou para Campo Erê e abriu o próprio escritório, inicialmente com o apoio do pai e de seu então namorado Luciano Beltrame. Depois, buscou especializações que ampliaram seu olhar: Direito de Família, Constelação Sistêmica, Direitos Humanos, Comunicação Não-Violenta e Neurociência. A formação ainda segue em sua vida, ela ainda deseja se formar em mais três cursos: psicologia, história e filosofia.

 

Amizade, amor e parceria

A história de Juliane com Luciano começou cedo. Eles se conhecem desde a infância, jogando bola e dividindo corredores escolares. A amizade atravessou os anos, virou primeiro amor, namoro à distância e mais tarde, casamento.

Paciente, estrategista e parceiro, são características que Juliane admira no seu grande amor. Luciano representa um eixo de equilíbrio na vida da campoerense. Casaram-se em 2007, depois de anos de cartas, saudade e escolhas difíceis. Ele deixou uma carreira promissora em Florianópolis para voltar a Campo Erê e construir, ao lado de Juliane, não apenas uma família, mas também um projeto profissional em conjunto.

Os dois aprenderam a crescer juntos, a enfrentar conflitos como qualquer casal, mas sempre sustentados pelo diálogo e pela cumplicidade. Para Juliane, Luciano foi essencial no período mais duro da vida.

 

O luto que reorganizou tudo

Em 2010, poucos meses depois de Juliane engravidar da primeira filha, o pai faleceu subitamente, vítima de um infarto. A perda foi devastadora. Além da dor emocional, veio a responsabilidade de cuidar da mãe, da fazenda, dos negócios e da própria família que estava se formando.

Grávida de três meses, fragilizada e sem preparo algum para lidar com o agro, Juliane precisou aprender rápido. Entrou de vez na administração da propriedade rural, reorganizou os negócios e ajudou a mãe a manter a estrutura que o pai havia deixado. Foi um período de exaustão, amadurecimento forçado e ressignificação profunda. Luciano, mais uma vez, foi o apoio silencioso e constante.

 

A leitura como refúgio e reconstrução

Se o direito foi a profissão, os livros foram seu refúgio. Juliane sempre leu, mas foi após vivenciar perdas, primeiro de uma amiga muito próxima, depois do pai, que a leitura ganhou outro sentido. Passou a buscar livros fora do universo jurídico, mergulhando em espiritualidade, autoconhecimento, filosofia e comportamento humano.

Em determinado período, lia um livro por semana e abriu um canal no Youtube com resenhas literárias mensais. A leitura virou hábito, disciplina e ferramenta de sobrevivência emocional. Com esse novo hábito, Juliane mergulhou em conhecimentos extremos ao ponto de querer passar isso aos outros, sendo assim começou a escrever.

Em 2013 e 2014, publicou seus primeiros textos em coletâneas literárias. Em 2021, lançou o primeiro livro solo, No Cantinho da Consciência, marcado por reflexões espirituais e existenciais. Em 2022, publicou seu segundo livro, Enlace e Desenlace, onde aborda um pouco da parte técnica das famílias.

Em 2024, Juliane lançou seu terceiro livro, Reconexão Familiar, que explora as leis do amor, trazidas por Bert Hellinger, e outros diversos aspectos dos relacionamentos. Neste ano, a advogada e escritora, publicou seu quarto livro, Helena: Feita de Aço e de Amor, que mergulha na realidade das milhões de mulheres brasileiras que criam seus filhos sozinhas.

Juliane explica que a ideia do livro surgiu da necessidade de dar voz às 11,6 milhões de mães solo no Brasil. “Em 2010, nós tínhamos 38% das famílias que eram regidas por uma mulher. Entre 2012 e 2022, esses números cresceram 17%, indo para 49%. Nós temos índices que apontam que em 2025, mais de 51% dos lares são regidos por uma mulher”, destaca Juliane.

Mais do que escrever para vender, Juliane escreve para comunicar, alcançar e oferecer uma reflexão a quem está, muitas vezes, vivendo dores parecidas com as que ela já atravessou.

 

Maternidade, propósito e novos caminhos

Mãe de dois filhos, Giulia e Joaquim, Juliane viveu intensamente a maternidade. Organizada por natureza, nunca abriu mão do estudo, mesmo nos períodos mais exigentes da vida familiar. Para ela, tempo é escolha e conhecimento é prioridade.

Hoje, além da advocacia, da escrita e dos projetos terapêuticos, Juliane cultiva desejos que seguem em movimento, não por status, mas por inquietação.

Juliane Silvestre Beltrame é feita de camadas: filha, esposa, mãe, advogada, leitora e escritora. Uma mulher que transformou perdas em pontes, silêncio em palavras e rotina em propósito. Em Campo Erê, construiu raízes profundas e através dos livros, segue espalhando sementes muito além dos limites da cidade.

 

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