Aos 62 anos, o professor Laudir Gonçalves, diretor do CEM Nossa Senhora de Fátima e do CEI Balão Mágico, em Campo Erê, mantém vivo o brilho no olhar de quem encontra sentido em ensinar. Com mais de quatro décadas dedicadas à educação, Laudir testemunhou gerações crescerem, filhos de ex-alunos se alfabetizarem e profundas transformações no ensino. Apesar das mudanças — dos cadernos simples e brincadeiras no pátio às telas e à tecnologia —, a paixão pela profissão permanece intacta. “Se tivesse que fazer tudo de novo, escolheria a mesma profissão”, afirma.
Natural de Quilombo-SC, Laudir chegou a Campo Erê ainda menino, vindo de uma família humilde que comprou uma pequena terra no interior. O sonho de estudar e se tornar professor nasceu entre dificuldades e preconceitos. “Ao contrário do que costuma acontecer, em que os filhos fogem de casa para ir a festas, eu fugia para ir à escola estudar”, relembra.
Aos 17 anos, em 1980, ingressou na comunidade jovem da Igreja Católica, tornou-se presidente do grupo e começou a dar aulas de catequese. O dia 16 de abril de 1984 marcou sua estreia como professor em sala de aula. Desde então, nunca mais parou. Hoje, casado, pai de quatro filhos — três deles também professores — e avô de oito netos, Laudir se emociona com o reconhecimento: “Dizem que sou o professor referência do município e isso me enche de orgulho”.
Aposentado e recontratado, ele continua com a mesma rotina de sala de aula, os mesmos gestos e a mesma meta que define sua carreira: alfabetizar com amor e firmeza. Quando percebe os frutos do seu trabalho, se emociona com o desenvolvimento de seus alunos.
Desafios e mudanças na educação
Laudir recorda que, no início da carreira, o professor acumulava funções: “Era professor, merendeiro, fazia tudo. Não tinha especialistas em educação física, religião, artes ou inglês. Era só você”. Para ele, a principal diferença entre ontem e hoje está na qualidade do ensino. “Hoje estamos mais preparados, mas a educação perdeu qualidade. Existem muitos meios que competem conosco, como celular, TV e internet. Na minha época, brincar era o mais lúdico que existia”, compara.
O professor observa que a educação familiar também mudou. “Antes, o pai era tudo e o filho tinha medo do pai. Hoje, há pais que têm medo dos filhos. Isso afeta o preparo dos alunos, que chegam à escola com todas as condições de serem melhores, mas sem parâmetros claros”, avalia.
Laudir defende que o professor deve ir além da sala de aula, preparando o aluno para o mundo moderno. “Temos que oportunizar as crianças, não dar o peixe, mas o anzol para que aprendam a pescar”, diz.
Reflexões sobre a profissão
O educador critica a facilidade de acesso ao ensino superior atualmente e a falta de compromisso de alguns profissionais. “Hoje, qualquer um serve para ser professor. Quando não serve para outro mercado, vai para a educação”, lamenta. Para ele, o foco deve ser no aluno bom, pois é o desempenho desses estudantes que garante recursos para investir na educação do município.
Laudir acredita que o professor precisa de três pilares: conhecimento de causa, domínio da sala de aula e postura profissional. “Se tiver postura, ninguém discute comigo. Estou preparado para debater qualquer assunto”, afirma. Reconhece, porém, que muitos colegas adoecem devido à pressão e insegurança.
O retorno à sala de aula
Após a aposentadoria, Laudir sentiu falta da rotina escolar e do contato com alunos e colegas. “Na escola, você amplia horizontes, participa de reuniões, cursos, conhece novas pessoas e está sempre aprendendo”, relata. Para ele, estar em sala de aula é mais prazeroso do que ocupar cargos de direção.
Com meta de trabalhar por pelo menos mais cinco anos, Laudir diz que pretende continuar enquanto sentir que está contribuindo. “Quero ser professor enquanto estiver rendendo. Quando perceber que não estou mais contribuindo, não quero ser um estorvo na vida de ninguém”, conclui.
Planos para o futuro
Quando decidir se aposentar definitivamente, Laudir planeja viver no interior, cuidar da pequena propriedade rural e passar mais tempo com a família. “Vivemos muito acelerados e não percebemos os detalhes da vida, que se resume em simplicidade, gentileza, amor, fé, família e conhecimento. O conhecimento ninguém tira, é algo sagrado”, finaliza.