Uma vida marcada por perdas e superação

A guarujaense Jandira Trevisol Eberhardt, perdeu sua mãe com 6 anos e desde então teve que conviver com a ausência desse amor. Superou a dor e construiu um lar o qual sempre sonhou

Por Ruthe Kezia-Guarujá do Sul

Uma vida marcada por perdas e superação
Hoje com 82 anos, viúva há 6 anos, Jandira carrega em sua história grandes marcas e perdas, mas prefere olhar para aquilo que construiu. Seus filhos, netos, bisnetos e uma família unida. (Foto: Divulgação)

Jandira Trevisol Eberhardt pode ser apenas mais um nome em Guarujá do Sul, mas por trás dessa mulher simples, mãe, avó e bisavó, existe uma história marcada por perdas precoces, coragem silenciosa e uma infância encurtada, onde precisou amadurecer cedo demais. Aos 6 anos, Jandira perdeu sua mãe, Maria Isabela Guarnieri Trevisol, e com ela a infância como se conhece.

Natural de Sério [hoje município emancipado de Lajeado-RS], filha de João Trevisol e Maria, Jandira nasceu no dia 26 de junho de 1944. O casal teve quatro filhos [Leonora Trevisol, Jandira, Tercila Trevisol e o bebê que faleceu no parto].

Entre as poucas lembranças que guarda da mãe, uma cena permanece viva. Jandira estava montada em um cavalo, enquanto a mãe caminhava ao lado, quando o animal se assustou e disparou. Foram cerca de 300 metros de corrida desgovernada. A mãe correu atrás e conseguiu alcançar o cavalo, garantindo que sua filha não se machucasse. Só então veio o desespero, ao perceber o perigo que quase levou sua filha, ela chorou muito. Pouco tempo depois, aquela mãe não estaria mais ali.

Maria Isabela Guarnieri Trevisol, morreu no parto do seu quarto filho, que também não resistiu e morreu. Outra lembrança marcante viva na memória de Jandira é do momento em que viu o corpo de sua mãe sendo trazido em uma cama, semelhante às usadas em hospital. Ela não compreendia o que estava acontecendo, mas aquela imagem se tornaria definitiva.

Com a morte da mãe, a irmã Leonora, de 11 anos, Jandira e a pequena Tercila, de 4 anos, passaram a ser criadas pelo pai, João Trevisol. Ele era ferreiro e precisava trabalhar o dia inteiro. Não havia escolha, as meninas tiveram que crescer rápido.

Jandira lembra de ser colocada em cima de uma cadeira para alcançar a pia e lavar a louça. Muitas vezes, o pai chegava do trabalho e a encontrava gelada, ainda ali, tentando dar conta do serviço. A comida era simples e por vezes escassa. Um episódio nunca esquecido foi o dia em que o pai, ao escorrer a água das batatas, acabou jogando tudo no lixo destinado aos porcos. O almoço precisou ser improvisado com ovos fritos.

Além da falta de recursos, faltava algo ainda mais difícil de substituir, o carinho. Para conseguir trabalhar, o pai recorria a castigos para manter as meninas quietas, porém essa atitude traumatizou as pequenas meninas.

Durante o dia, as meninas se entretinham com os afazeres da casa e da escola, porém à noite, o medo tomava conta. Quando o pai saía por algumas horas para ir ao bar, as três irmãs se sentavam na porta, segurando um lampião, esperando sua volta.

O afeto vinha das tias, que supriram o amor materno. Assunta, Rosa e Lúcia Trevisol se tornaram porto seguro das três meninas. Jandira passava dias na casa da avó paterna, onde encontrava atenção e cuidado. As lembranças desse período são mais leves, a exemplo de viagens de carroça para buscar milho, todas sentadas sobre a carga, cantando no caminho de volta; as travessuras com o tio Pedro, como pendurar pequenas bergamotas nas galinhas do pátio, usando fio e agulha, para fazer brincos.

Da avó materna, guarda um presente simples, mas marcante: um tecido rosa, que virou vestido costurado pela avó paterna: “Até hoje gosto dessa cor”, destaca.

Apesar das dificuldades, as três irmãs cresceram muito unidas, porém a adolescência trouxe ainda mais rigidez. Leonora encontrou no casamento uma forma de sair de casa, Jandira por sua vez, seguiu o mesmo caminho da irmã mais velha. Ela conheceu um rapaz na igreja de São José do Cedro e casou-se aos 16 anos com Senio Miguel Eberhardt: “Essa era a maneira que a gente via para mudar de vida”, relata Jandira.

Se não bastasse as dificuldades da infância e da adolescência, a vida adulta não poupou desafios. Jandira perdeu o primeiro filho com apenas 20 dias de vida; enfrentou a doença grave do marido, que ficou seis meses engessado após uma cirurgia na coluna; passou por dificuldades financeiras severas, mas mesmo assim, algo guiava suas escolhas: fazer diferente do que viveu: “Sempre fui uma mãe muito protetora, dei aos meus filhos o carinho e o amor que não tive”, destaca.

Em 1968, a família se estabeleceu em Guarujá do Sul e foi ali, na pequena cidade [atualmente com cerca de 4.893 habitantes] que Jandira criou raízes, trabalhou, construiu sua casa, sua história e sua família. O casal teve três filhos: Cleusa Maria, que hoje mora em Bagé-RS; Jorge Luiz, tenente da Brigada Militar em Cachoeira do Sul-RS; e Janice, popular Nica, a filha mais nova, atualmente chefe de gabinete da prefeitura de Guarujá do Sul.

Hoje, viúva há 6 anos, Jandira fala com clareza sobre as marcas que carrega. Os traumas da infância resultaram em depressão e ansiedade, sentimentos que ainda a acompanham. A irmã Leonora, que vive com Alzheimer, revive o passado em momentos de lucidez e por vezes, chora ao repetir frases que atravessam décadas: “Pai, não deixe levarem as meninas”.

Apesar disso, Jandira prefere olhar para o que construiu, que são seus filhos, netos, bisnetos e uma família unida: “Minha infância foi muito difícil, mas consegui formar uma família bonita e unida, e isso para mim, é uma grande realização”.

A história de Jandira não se define pelas perdas, pois foram elas que ajudaram a moldar quem ela é hoje. Entre dores, trabalho e afeto, Jandira construiu o que não teve: um lar.

 

 

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