Houve um tempo em que ouvir o barulho da bicicleta dos Correios era sinônimo de boas notícias. Chegava uma carta de um filho distante, um catálogo, um livro, um documento importante. Os Correios eram motivo de orgulho nacional. Poucas instituições alcançavam todos os municípios brasileiros com a mesma capilaridade.
Mas o tempo passou. O mundo mudou. A tecnologia transformou a comunicação, o comércio eletrônico revolucionou a logística e o consumidor passou a exigir rapidez, rastreamento em tempo real e eficiência. Enquanto isso, os Correios parecem ter permanecido presos ao passado.
Hoje, a estatal acumula prejuízos bilionários, patrimônio líquido negativo e enfrenta uma crise que já não pode ser tratada como passageira. O problema deixou de ser financeiro. Tornou-se administrativo.
Os sinais da deterioração aparecem por toda parte. Há constantes reclamações de atrasos nas entregas, redução de investimentos, dificuldades operacionais, ameaças de paralisações promovidas por sindicatos e um ambiente interno marcado por incertezas. Ao mesmo tempo, a direção anuncia programas de desligamento voluntário e medidas de contenção de despesas, uma admissão implícita de que a estrutura atual se tornou pesada demais para a realidade financeira da empresa.
Não bastasse isso, os Correios carregam uma longa história de indicações políticas para cargos estratégicos. Cada mudança de governo costuma significar uma mudança de comando. Presidentes entram e saem conforme o vento político de Brasília, enquanto projetos de longo prazo acabam substituídos por prioridades de ocasião. O resultado é conhecido: pouca continuidade administrativa e muita interferência política. Quando uma empresa passa a servir mais aos interesses dos governos do que aos interesses de seus clientes, dificilmente consegue competir em igualdade de condições.
É justamente nesse ponto que reside minha maior preocupação.
Tenho a impressão de que o governo federal procura prolongar a sobrevivência dos Correios utilizando a própria estrutura do Estado. Ao ampliar contratos com órgãos públicos, buscar financiamentos e recorrer a outras empresas estatais para dar fôlego financeiro à companhia, parece optar por adiar um problema em vez de enfrentá-lo. Posso estar errado, mas a sensação é de que se estica a vida de uma estatal zumbi; que já perdeu boa parte de sua capacidade competitiva.
Enquanto isso, do lado de fora, o mercado não espera.
Transportadoras privadas cresceram de forma impressionante nas últimas duas décadas. Empresas nacionais e internacionais investiram pesado em tecnologia, automação, centros de distribuição, inteligência logística e atendimento ao cliente. Hoje, oferecem rastreamento em tempo real, prazos cada vez menores e soluções personalizadas para empresas de todos os tamanhos. Elas não contam com aportes públicos. Dependem exclusivamente da confiança de seus clientes. Se erram, perdem mercado. Se inovam, crescem.
É impossível ignorar esse contraste.
Os Correios ainda possuem uma vantagem gigantesca: chegam onde muitas transportadoras não chegam. Essa capilaridade continua sendo um patrimônio estratégico para o Brasil. Mas patrimônio, sozinho, não garante futuro. É preciso gestão eficiente, inovação permanente e responsabilidade com o dinheiro público.
Defender os Correios não deveria significar defender qualquer modelo de gestão. Da mesma forma, criticar a empresa não significa desejar seu desaparecimento. O verdadeiro debate deveria ser outro: como transformar uma instituição histórica em uma organização capaz de competir no século XXI.
Porque nenhuma empresa, pública ou privada, pode viver indefinidamente sustentada apenas por sua história.
A memória desperta respeito.
Mas são os resultados que garantem a sobrevivência.