30/06/2020 às 15h10min - Atualizada em 30/06/2020 às 15h10min

Oliveiras na família Roman: seis anos de investimento, ainda sem retorno

Com plantação iniciada há seis anos e bem distribuída em 17 hectares, a família Roman de Campo Erê, trabalha com árvores que podem chegar aos três mil anos produzindo

Apesar de recente, o mercado brasileiro de azeites de oliva é promissor e vem crescendo ano após ano. Entre os alimentos considerados importantes em uma dieta de qualidade está o azeite, um derivado do esmagamento da azeitona, fruto da oliveira (Olea europea L.), cuja cultura pode ser fonte de renda para produtores especialmente localizados no centro-sul do país. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais possuem as maiores áreas de cultivo.
O clima, contudo, é um fator que restringe a cultura a algumas regiões. Para se desenvolver, a oliveira necessita de temperaturas amenas. O promissor consumo nacional de azeite é estimulante para novos empreendedores do campo. O mercado ainda precisa crescer muito para suprir a demanda doméstica do produto, que, atualmente, recorre à importação devido a insuficiente oferta interna. O Brasil está nas primeiras posições de maior comprador de azeite no planeta.
 
Cultivo na família Roman
Com plantação iniciada há seis anos e bem distribuída em 17 hectares, a família Roman de Campo Erê, trabalha com uma cultura milenar, com árvores que podem chegar aos 3 mil anos produzindo. A família do empresário Marcos Roman, possui hoje 110 hectares, destes, 17 estão sendo cultivados com oliveiras. Aproveitando o conhecimento do filho e engenheiro agrônomo Matheus, de 26 anos, a família de Marcos investiu mais de R$ 700 mil no cultivo e aguarda retorno.
Conforme o filho, a expectativa era que neste ano a primeira safra pudesse ser feita, com uma produção estimada em 15 toneladas. “A partir do momento que a área começou a ter o cultivo de oliveira, deixou-se de lado o plantio de grãos, pecuária e outros. Uma das alternativas que tínhamos era o cultivo de caprinos e outros de pequeno porte, mas não achamos interessante. São seis anos com oliveiras e seis anos que deixamos de ganhar para estar investindo”, relata Matheus, que para adquirir conhecimento das oliveiras e do azeite de oliva, fez mestrado em Portugal, com foco nas tecnologias de produção e manejo da cultura.
Entre as variedades produzidas no mundo, a família produz duas: Arbequina e Koroneiki, específicas para a fabricação de azeite. “Temos elas em uma proporção de uma de Arbequina e três de Koroneiki, para melhor polinização e também para um azeite diferente. A azeitona colhida é especialmente para a fabricação do azeite extra virgem. Temos cinco hectares com o padrão de seis anos e 12 hectares com oliveiras um pouco mais novas. Como aqui o clima é muito diferente de outras regiões onde já foram cultivadas oliveiras, temos um problema técnico que é fazer a árvore florescer, para então dar os frutos. Já era pra ter produzido no quinto ano, estamos defasados um ano”, lamenta o jovem empresário.
 
História por trás das oliveiras
Espécie frutífera pertencente à família das oleáceas, a oliveira é uma planta que se dá bem em dias de muitas horas de sol. Também apresenta bom florescimento em invernos amenos e chuvosos, além de verões quentes e secos. Para o desenvolvimento dos frutos, necessita de luz direta e poda, prática que ainda facilita o manejo e a colheita das azeitonas. Árvore de porte médio, a planta pode chegar até 15 metros de altura dependendo da variedade. A oliveira possui tronco com curvas e folhas em formato de bico de lança, com as quais, em infusão, faz-se chá indicado para combater diabetes e hipertensão.
Utilizada pelo homem há milhares de anos, tornou-se alvo de pesquisas brasileiras a partir de 1948 no Rio Grande do Sul. Somente sete décadas mais tarde, em 2008, ocorreu a primeira extração de óleo genuinamente nacional, quando a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e a Embrapa Clima Temperado começaram a engarrafar o produto, rico em ácidos graxos insaturados, que são benéficos para aumentar os níveis de HDL (colesterol "bom").
 
Mãos à obra
Há cultivares para produção de azeite, azeitonas de mesa e ambas as finalidades. A preferência é dada para as que exigem menores quantidades de frio e diversificam o plantio entre três ou quatro cultivares, para assegurar a polinização e reduzir riscos de perder exemplares com pragas e doenças. O uso de um mesmo cultivar em cada fileira ainda facilita a colheita, já que cada um tem sua época de maturação de frutos.
A partir do terceiro ano de plantio, com carga total no sétimo ano. Contudo, a falta de irrigação ou a interferência de outros fatores podem adiar a frutificação por vários anos. Maduras, as oliveiras se tornam pretas, com sabor suave e amanteigado. Há azeites, no entanto, que são feitos da mistura entre azeitonas pretas e verdes de sabor apimentado, que são colhidas durante a mudança de cor. A maturidade para dar frutos pode chegar a partir de seis anos. Quem investe diz que o retorno é garantido. 
“A oliveira comparada com soja e outros grãos, lucra até seis vezes mais, mas demora mais tempo e o investimento é maior. Hoje se pudesse voltar atrás, ainda incentivaria meu pai a fazer o cultivo, pois a rentabilidade é muito alto, especialmente por ser uma área pequena. Acredito que logo resolveremos o problema que estamos encontrando e vamos conseguir produzir de maneira economicamente viável”, conta Matheus explicando que após colhida a azeitona, o azeite precisa ser fabricado em menos de 24 horas. Por esse motivo, a família planeja implantar uma indústria para o processamento da oliva em azeite.
“Ainda não temos a cadeia desenvolvida ou uma cooperativa que compre, e nem uma pessoa que faça no estado. O azeite precisa ser feito imediatamente se não deixa de ser extra virgem. Não podemos deixar armazenado ou esperar carregar um caminhão para mandar até Minas Gerais por exemplo. Nossa ideia é implantar uma indústria e vender o azeite processado, mas para começar, investiríamos cerca de R$ 1 milhão”, explica o agrônomo.
O grande investimento ainda está por vir: a industrialização. “Ainda não fizemos nenhum investimento neste sentido e nem na mecanização para a colheita, porque estamos esperando ver se vai produzir, para daí fazer novos investimentos. Se tivermos feito a indústria no ano passado, na expectativa, teríamos mais um capital imobilizado. Vamos esperar a produção se consolidar, depois que estivermos colhendo um volume considerável, faremos o investimento na indústria”, destaca.
 
Vários técnicos e nenhuma certeza
Segundo Matheus, em vários momentos foram trazidos técnicos para orientar e entender o porquê de ainda não estar produzindo. “As respostas trazidas por eles não foram muito esclarecedoras e são muito próximas ao que já tínhamos suposto. A principal hipótese, é que a variação de temperatura durante o inverno, não permite que a planta tenha o repouso vegetativo, que é o que ela mais precisa”, finaliza. Diferente de países europeus onde há constância no inverno, na região do Extremo Oeste a variação de temperatura num mesmo dia é muito grande. Na região é comum encontrar troncos de árvore que ‘estouraram’ no inverno; os líquidos concentrados no tronco da árvore congelam com as geadas.
Mas, mesmo em um cenário que não conseguem ver as respostas a curto prazo, a família Roman continua otimista com as oliveiras.
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