04/01/2021 às 08h14min - Atualizada em 04/01/2021 às 08h14min

Aprisco prevê melhorias

Segundo a coordenadora Nêmora Paula Spillmann, as melhorias beneficiarão os acolhidos com necessidades especiais

Da redação
Com a missão de acolher com amor, respeito e cuidado as crianças e adolescentes de até 18 anos, afastadas do convívio familiar sob medida protetiva de abrigo, a Associação Beneficente, Social, Educacional e Cultural (Aprisco), de São José do Cedro, prevê melhorias e revitalizações na sua estrutura, que beneficiarão os acolhidos com necessidades especiais. De acordo com a coordenadora, Nêmora Paula Spillmann, no entanto, o objetivo é viabilizar recursos para a adequação do espaço onde ficam as meninas.
Aproveitando a ocasião, a equipe do Sentinela visitou a entidade e pode explorar diversos assuntos, como a forma de acolhimento e a vivência em época de pandemia. Acompanhe a entrevista:
 
Quais os trabalhos realizados neste ano?
Mesmo com a pandemia, conseguimos realizar muitas coisas. No ano passado, encaminhamos um projeto ao Criança Esperança e fomos contemplados com um micro-ônibus com acessibilidade, e que será disponibilizado ainda no ano que vem. Durante esse ano, melhoramos a casa, visando a acessibilidade, mas ainda há muita coisa para se fazer; por isso, estamos procurando executar outros projetos, principalmente para melhorar a casa das meninas.
Foi realizado também outro projeto para aquisição de placas fotovoltaicas, prezando a redução do custo de energia, e um laboratório de informática, que ainda encontra-se em análise para a aprovação. Estamos sempre em busca de parcerias e projetos para a melhoria e bem estar dos acolhidos. Contamos muito com o apoio da comunidade e comércio local, que nos ajudam em tudo e até conseguimos empregar três dos nossos adolescentes [em um desses comércios].
 
Como funciona o processo de acolhimento?
Toda vez que um adolescente sofre uma violência física, sexual, uma negligência familiar ou até um abandono, após passar por todos os trâmites legais com conselho tutelar e juiz, é determinado o acolhimento [onde nós entramos]. Depende muito de cada processo, alguns são encaminhados para a adoção e outros retornam para suas famílias de origem. Realizamos também o acompanhamento psicológico e social dos acolhidos e de suas famílias. Hoje, a casa conta com oito adolescentes e uma criança, mas possuímos espaço para 20 – cada um com o seu espaço, cama, roupeiro e pertences.
A cada novo acolhimento, trabalhamos com os que já estão acolhidos para receber quem está chegando de forma calorosa, amorosa e afetiva. Quando o jovem completa a maior idade, ele precisa seguir seus próprios caminhos, mas estamos sempre auxiliando em tudo; muitas vezes nos mobilizamos para conseguir móveis para aqueles que precisam de um cantinho para morar. Dos nove que temos, apenas três é desta Comarca.
 
O abrigo conta com quantos profissionais?
A equipe técnica é formada com uma psicóloga e uma assistente social. Buscamos parceria com outras instituições, em especial da área da educação, para auxiliar nas atividades escolares dos acolhidos, porém, devido a pandemia, neste ano, consideramos prudente evitar o contato físico com estes profissionais a fim de protegê-los do Covid-19. Contamos também com mais 12 pessoas, entre educadores, cuidadores, auxiliares e parte administrativa, que são os que permaneceram trabalhando.
 
Como a entidade se mantém?
Nos mantemos basicamente de convênios e doações. Sempre que os acolhidos precisam de roupas ou algum pertence, precisamos adquirir. Temos muitos parceiros que disponibilizam doações de alimentos, roupas de cama e outros objetos. Hoje, possuímos duas casas e mais o escritório, todas equipadas, mas sempre tentamos melhorá-las. No dia-a-dia, disponibilizamos aos acolhidos uma pequena biblioteca e espaços para descontraírem. Os maiores podem cozinhar e assar carne no domingo. Sempre buscamos deixá-los a vontade para que realmente se sintam em casa e, como toda residência familiar, também prezamos pela ordem.
 
Como estão lidando com o isolamento social?
Tivemos que nos adaptar, não foi nada fácil. No começo, os acolhidos ficaram aproximadamente cinco meses sem contato com outras pessoas, não saiam de casa para nada. Isso afetou também a rotina de cada um, pois eram muito ativos, participavam de muitas atividades, como escolinhas, oficinas e atividades do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Tivemos que nos adaptar dentro do nosso espaço, trazendo uma rotina com jogos e brincadeiras para eles. Como sempre, todos nos surpreendam, encontrando formas para passar o tempo dentro de cada espaço.
 
Como é a rotina de cada um?
Cada um tem seu trabalho dentro da casa, é claro que para cada idade é um tipo de atividade, como cuidar dos seus pertences, manter organizado seu quarto, auxiliar na parte de lavar a louça e secar. Não temos uma rotina fixa e limitada de horários para cada coisa, mas todos sabem dos seus deveres e obrigações. Na parte da descontração, todos interagem. Agora pro Natal, por exemplo, a decoração do espaço foi toda por conta deles. Vamos também mover uma venda de massa, feita por nós e os acolhidos, para arrecadar recursos financeiros que serão investidos exclusivamente nas férias deles, talvez até para conhecer algum lugar diferente.
 
Eles possuem acesso à internet e ‘ao mundo lá fora’?
Sim, todos de uma forma, alguns com celular e outros com o computador. O uso é limitado em questão de horários, e sempre acompanhamos o que eles acessam, entre aplicativos, sites e conversas do WhatsApp. Havendo desacordo sobre horários e regras há consequências, onde perde um dia de acesso ao celular. A aquisição destes aparelhos acontece por intermédio dos familiares, que em datas comemorativas presenteiam ou, ainda, por recursos próprios dos acolhidos que possuem vínculo empregatício e, nestes casos, sempre pedimos a liberação judicial para a realização desta compra.
As saídas sempre são permitidas, mas todos possuem horário para retornar. Neste ano atípico, as saídas foram limitadas, porém, todos conseguiram lidar relativamente bem com a situação e aproveitaram muito o espaço que temos, como jogos, parquinho, tênis de mesa, campo de futebol e outras distrações. Para o próximo ano, planejamos implantar uma quadra de vôlei e um saco de pancada, que é o que eles nos pedem muito.
 
Como é o processo de desligamento, quando eles atingem a maior idade?
O vínculo criado com eles sempre permanece, porém não com a mesma frequência dos que ainda convivem aqui. No próximo ano, teremos alguns que completarão a maioridade e que já estão procurando casa para alugar, mas posso dizer que, o desligamento só acontece no papel, pois sempre mantemos o contato, mesmo os que foram encaminhados a adoção. Conversamos com eles pelo telefone ou redes sociais, e isso é muito gratificante, saber que eles têm um sentimento bom com todos nós, até mesmo das próprias famílias que os acolhem novamente, é um sentimento maravilhoso. É claro, nem sempre temos histórias com finais felizes, mas aqui tentamos dar o nosso melhor, pois o nosso papel na vida deles é de ser pais, que cuidam, com muito amor e carinho.
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