Aposentar-se, para a professora Maria Roseli Lucas, de Anchieta, não significou um ponto final, mas a continuação de uma vida inteira dedicada à educação, uma história marcada por superação, sacrifícios e uma inabalável paixão por ensinar. Ao longo de 34 anos, ela enfrentou caminhadas de até 14 quilômetros para dar aula, problemas de saúde, instabilidade financeira e a frustração de um sistema que nem sempre a valorizou. Mesmo assim, ao olhar para trás, ela não hesita: "Eu faria tudo de novo".
A jornada começou em 1990, quando, com apenas 17 anos, Maria Roseli se efetivou como professora em Romelândia. A pressão e o estresse do início da carreira em uma localidade distante a levaram a uma hemorragia cerebral. Após se recuperar, já morando em Anchieta, o desafio se tornou físico. Para chegar à escola no Alto Primeirinho, ela caminhava diariamente entre 9 e 14 quilômetros, dependendo se o ônibus passaria ou não. “Eu caminhava 14 quilômetros, trabalhava meio dia e voltava”, recorda.
A carreira em Anchieta começou de fato em 1991, quando ela acompanhou seus pais na mudança para o município e começou a atuar como professora Admitida em Caráter Temporário (ACT). Em meio às dificuldades, chegou a cogitar abandonar a profissão, levando-a a cursar Ciências Econômicas. A tentativa de migrar para a área econômica não deu certo, e o amor pela sala de aula falou mais alto, impulsionando-a para uma nova graduação em Artes. A partir da década de 2000, já com a nova formação, ela se efetivou no estado e no município, lecionando o componente curricular de arte.
Ao longo de mais de três décadas, Maria Roseli sentiu na pele a desvalorização da carreira. Ela critica a "compactação da tabela" salarial do estado, que fez com que, ao final de 34 anos de serviço, seu salário líquido fosse o mesmo de um professor iniciante. “Depois de 34 anos, nossa, é lamentável, mas esse é o meu salário de hoje de aposentada. Você não consegue sobreviver com isso”, desabafa. Além disso, viu direitos serem perdidos por questões políticas, o que a obriga hoje a recorrer à justiça.
Apesar de todos os percalços, a força de Maria Roseli sempre veio da sala de aula. Ela se orgulha de não ensinar apenas o conteúdo, mas de ensinar "para a vida". Ver a evolução dos alunos, do primeiro ano até a formatura, é a sua maior recompensa. “Essa é uma das melhores partes, nossa, é gratificante. É saber que essa pessoa se deu bem, sabe? Que é um profissional de qualidade”, afirma.
Hoje, mesmo aposentada pelo estado, ela continua trabalhando no município, agora na secretaria do Centro Municipal de Educação Infantil e Fundamental (CMEIF), pois sente que não conseguiria parar. “Se eu tivesse que sair de vez, eu acho que eu estaria em depressão hoje, porque a vida inteira eu fiz isso”, confessa. Sua história é o retrato de uma vocação que o tempo e as dificuldades não puderam apagar, um legado de resiliência construído no amor diário pela educação.