A rotina exaustiva das mães escancara uma realidade que a sociedade insiste em romantizar: o amor materno virou sinônimo de sacrifício, e o cuidado, de dever.
Acordar, dar banho, preparar o café, garantir que o filho se alimentou bem, levá-lo à escola, cuidar da casa, buscar, ajudar nas tarefas, cozinhar, limpar, dar banho novamente, contar uma história, zelar pelo sono — e recomeçar tudo no dia seguinte. Essa rotina, silenciosa e incessante, é o retrato do trabalho invisível das mulheres, sustentáculo de muitas famílias e pilar não reconhecido da sociedade.
O tempo, o cuidado e a atenção dedicados à criação de uma criança representam um capital invisível, quase sempre imputado às mães sob o argumento do “amor incondicional”. O problema é que esse amor, quando confundido com renúncia, se transforma em cárcere.
A romantização do sacrifício feminino converte o cuidado em dever e o dever em identidade. Assim, a mulher autossuficiente, com sonhos e trajetória própria, é gradualmente reduzida à figura da mãe multitarefas — exausta, silenciosa e invisibilizada. A ausência de divisão das responsabilidades faz do afeto um fardo e da maternidade, um ato de sobrevivência.
Normalizar essa sobrecarga é perpetuar um sistema desigual, que reforça papéis de gênero e mantém as mulheres aprisionadas à ideia de que amar é abdicar. Não se trata de questionar o amor, mas de reconhecer que o cuidado é trabalho — e trabalho tem valor, tem custo e tem limite.
As mães acumulam funções que vão muito além do papel materno: são cozinheiras, motoristas, professoras, cuidadoras e gestoras do lar. Esse esforço contínuo e não remunerado cobra um preço alto — saúde mental comprometida, carreiras interrompidas e uma dolorosa perda de identidade pessoal.
Dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) revelam que, entre agosto de 2024 e agosto de 2025, nasceram 2.607.113 crianças no Brasil. Destas, 125.444 foram registradas apenas com o nome da mãe. Mães solo que, além de prover o sustento, carregam sozinhas o peso da presença e do cuidado.
Enquanto isso, o senso comum ainda sustenta que o pagamento da pensão e uma visita quinzenal bastam para cumprir o dever paterno. Mas o amor não se mede em depósitos. A maternidade integral, solitária e ininterrupta não encontra equivalência financeira possível.
Alguns propõem que o tempo de dedicação exclusiva das mães seja considerado no cálculo da pensão alimentícia. É um passo importante, mas insuficiente. Nenhum valor monetário compensa a exaustão física e emocional de uma mulher que vive em função de todos, menos de si.
O problema é estrutural e cultural. Nossa sociedade ainda enxerga o cuidado como atributo feminino, e não como uma responsabilidade compartilhada. A mudança começa quando os pais compreendem que paternidade não é ajuda, é dever.
O verdadeiro avanço está em reconhecer o trabalho do cuidado como um pilar social essencial e digno de valorização. Libertar as mulheres do mito do “amor incondicional” é permitir que elas amem com leveza — e não com culpa.
Porque o amor materno não deve exigir a anulação da mulher, mas celebrar a sua inteireza.
Por: Juliane Silvestri Beltrame Advogada especializada em Direito de Família e escritora.