Pela primeira vez na história do Brasil, as separações com guarda compartilhada dos filhos se tornam maioria absoluta. O dado, divulgado pelo IBGE a partir dos registros em cartórios, não é apenas estatístico — é simbólico. Ele revela uma mudança profunda na forma como entendemos família, responsabilidade e afeto.
Desde 2014, quando a guarda compartilhada se tornou o padrão legal no país, esperávamos que esse modelo — que reconhece a importância do pai e da mãe na vida dos filhos — fosse crescendo. No entanto, ver essa transformação se consolidar mostra algo ainda mais importante: estamos amadurecendo como sociedade.
A guarda compartilhada não significa “metade do tempo com cada um”, mas sim 100% de responsabilidade para ambos. É participação ativa. É decisão conjunta. É colocar o bem-estar da criança acima das dores da separação. E quando uma sociedade compreende que filhos não são propriedade, mas sujeitos de direitos, estamos todos avançando. As famílias estão mudando — e o Direito também.
Os números revelam mais do que novas práticas jurídicas; revelam novas dinâmicas afetivas, como:
1. Menos nascimentos.
O levantamento mostra que, ano após ano, o Brasil registra menos bebês. A queda mais recente foi de quase 6% em relação a 2023.
Essa redução não é aleatória: nasce da realidade das famílias contemporâneas, da economia, dos novos projetos de vida e do entendimento cada vez mais claro de que criar um filho exige rede, corresponsabilidade e presença real — não apenas biológica.
2. Maternidade cada vez mais tardia.
Em 2004, a maioria das brasileiras que se tornavam mães tinha menos de 25 anos. Em 2024, essa proporção caiu drasticamente: apenas um pouco mais de um terço das mães está nessa faixa etária.
3. As mulheres esperam mais.
As mulheres em um geral estudam, empreendem, consolidam carreiras e, principalmente, querem exercer a maternidade de forma consciente e estruturada. Não se trata de rejeitar a maternidade, mas de reposicionar o tempo dela.
O que conecta esses três movimentos? Há um fio invisível costurando todas essas mudanças: A evolução da consciência família, com pais mais participativos, mulheres mais protagonistas das próprias escolhas, filhos reconhecidos como sujeitos centrais das decisões, e casais que, mesmo quando se separam, buscam construir parentalidade — não disputa.
A guarda compartilhada se expande porque a mentalidade coletiva está mudando. Menos nascimentos e maternidade tardia surgem porque as famílias querem estrutura, equilíbrio e relações mais saudáveis. Estamos caminhando para um país onde a parentalidade é compromisso, não obrigação. Onde o cuidado é compartilhado, não terceirizado. E onde a lei não é apenas um instrumento coercitivo, mas um espelho da sociedade que queremos ser.
Para onde estamos indo?
A resposta está nas entrelinhas dos números: Estamos indo em direção a famílias mais diversas, mais conscientes e mais verdadeiras. Se antes o Direito de Família lidava com rupturas, hoje ele também é uma ferramenta de reconstrução. E esse é o maior avanço: compreender que, quando as relações mudam, o Direito não resiste — ele acompanha.
Ele se molda. Ele se humaniza. Assim como nós.
Por: Juliane Silvestri Beltrame Especialista em Direito das famílias e escritora.