O poder não imuniza ninguém

Coluna de opinião do jornal impresso

Igor Vissotto
07/02/2026 10h00 - Atualizado há 1 mês

Há momentos em que a República parece um romance mal encadernado. As páginas se soltam, os personagens se contradizem e o leitor, desconfiado, passa a reler parágrafos tentando entender onde a história começou a desandar. O caso do Banco Máster, envolto em versões, silêncios e suspeitas que circulam no debate público, entrou nesse enredo como mais um capítulo indigesto. Não tanto pelo banco em si, mas pelo eco que produziu ao tocar nomes do mais alto andar do Judiciário, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, citados em narrativas políticas e jornalísticas que alimentam a sensação de desgaste da imagem do Supremo Tribunal Federal.

Não se trata aqui de sentença, nem de veredicto. Trata-se de percepção. E percepção, quando se espalha, corrói. O STF, instituição que deveria pairar acima do ruído, hoje caminha sob o peso da desconfiança de parcelas significativas da sociedade. Não é pouca coisa. Em um país onde a lei sempre foi um terreno escorregadio, a erosão da confiança no guardião da Constituição soa como rachadura em barragem antiga.

O Brasil, convenhamos, já normalizou o extraordinário. Já vimos prefeitos algemados, vereadores afastados, deputados cassados, senadores investigados, governadores presos e até presidentes da República julgados, condenados ou encarcerados. O que antes parecia impensável virou parte do noticiário cotidiano. Nesse ambiente, não espanta que se fale, ainda que em tom de especulação, na possibilidade de ministros também serem alcançados pelo mesmo rigor que tantas vezes recaiu sobre outros agentes públicos. O simples fato de isso ser cogitado já diz muito sobre o momento institucional que atravessamos.

E é justamente aí que a lupa precisa descer do Planalto e da Praça dos Três Poderes para o asfalto irregular dos pequenos municípios. Palma Sola, Campo Erê, Anchieta, São José do Cedro, Guarujá do Sul. Cidades onde todos se conhecem, onde o prefeito cruza com o eleitor no mercado, onde o vereador senta na arquibancada do ginásio ao lado de quem o fiscaliza. Nesses lugares, a “coisa pública” não é conceito abstrato. Ela tem nome, sobrenome e endereço.

Se o Brasil grande ensina pelo mau exemplo, o Brasil pequeno precisa aprender pelo bom senso. Administrar recursos públicos exige zelo redobrado justamente porque o erro, ali, não se dilui em planilhas gigantes nem em discursos técnicos. Ele aparece na rua sem pavimento, no posto de saúde sem médico, na obra inacabada que vira monumento ao descuido.

Talvez a maior lição desse cenário turbulento seja simples e antiga. O poder não imuniza ninguém. Cargo não blinda reputações para sempre. E a confiança pública, uma vez perdida, custa décadas para ser reconstruída. Nos tribunais superiores ou nas prefeituras do interior, a regra deveria ser a mesma: transparência como hábito, responsabilidade como método e prudência como norte.

Porque quando as instituições falham lá em cima, o reflexo chega rápido aqui embaixo. E quem paga a conta, quase sempre, é o cidadão que só queria que a história do país tivesse menos escândalos e mais capítulos de bom exemplo.

 

 

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