No almoço da comunidade Progresso do Oeste, no último final de semana, conversando com um agricultor ele me falou: “o tempo está voando”. A frase saiu com a naturalidade de quem comenta sobre o clima. E talvez seja isso mesmo: falamos do tempo como se ele fosse uma frente fria que passa por cima da gente sem pedir licença.
Coincidência – ou não – neste feriado de carnaval li um pequeno livro do Sêneca, intitulado: A Brevidade da Vida. Esse pequeno tratado foi escrito há quase dois mil anos, em Roma. O título engana. Ele não estava preocupado com a morte precoce. Estava preocupado com a vida mal utilizada.
Sêneca dizia algo desconcertante: a vida não é curta. Nós é que a tornamos curta.
E não é curioso como isso continua atual? Vivemos numa época que promete economizar tempo. O celular resolve, o aplicativo agiliza, o banco é digital, o jornal chega na palma da mão. Ganhamos minutos. Perdemos horas. Ganhamos velocidade. Perdemos densidade.
O problema não é trabalhar muito. Nem produzir. Nem empreender. O problema é viver como se a vida fosse um rascunho eterno, como se o dia importante fosse sempre o de amanhã.
Sêneca criticava os que entregavam sua existência à ambição desenfreada, à política pelo poder, ao acúmulo sem propósito. Dois milênios depois, troque-se o Senado romano por qualquer espaço de disputa moderna, e a engrenagem continua girando com o mesmo barulho.
Quantas pessoas conhecemos que vivem ocupadas demais para viver? Agendas cheias, espírito vazio. Reuniões, metas, compromissos, e quase nenhuma conversa profunda. Trabalha-se para ter tranquilidade no futuro, mas o futuro nunca chega. Ele apenas se transforma em um novo motivo de ansiedade.
O filósofo estoico afirmava que o único bem verdadeiramente nosso é o tempo. Dinheiro se perde e se recupera. Reputação oscila. Cargo vai e vem. O tempo, não. Ele não aceita parcelamento.
Talvez o ponto mais incômodo da obra seja este: não é a morte que encurta a vida. É a dispersão. É viver para agradar os outros. É adiar decisões importantes. É não estar presente nem no que se faz nem com quem se está.
Há pessoas que chegam aos 80 anos e nunca viveram de fato. E há outras que, em menos tempo, vivem com intensidade suficiente para que cada ano tenha o peso de uma década.
Sêneca não defendia fuga do mundo. Defendia lucidez. Defendia consciência. Defendia a capacidade de dizer “não” ao que nos rouba horas e “sim” ao que nos constrói por dentro.
Em tempos de pressa crônica, talvez a maior rebeldia seja a atenção. Atenção aos filhos, atenção a esposa, atenção aos pais, aos amigos. Atenção à conversa na mesa. Atenção ao trabalho bem feito. Atenção ao silêncio.
A vida não está passando rápido demais. Nós é que, muitas vezes, estamos passando rápido demais por ela.
E o tempo, esse juiz invisível, segue caminhando. Sem pressa. Sem pausa. Apenas justo.