O peso invisível da cadeira

Coluna de opinião do jornal impresso

Igor Vissotto
28/02/2026 10h00 - Atualizado há 1 semana

Existe algo curioso nas cadeiras. Algumas têm rodinhas, outras têm brasão. Umas ficam atrás de balcões, outras atrás de mesas de gabinete. Há as que rangem na sala dos professores, as que giram na redação aqui do Jornal Sentinela, as que ficam na ponta da mesa de reunião. Todas parecem iguais quando estão vazias. Mas basta alguém sentar e, de repente, ganham peso.

Não é o estofado. É a responsabilidade.

O cargo de secretário, de vereador, de prefeito, de diretor de escola, de professor, de dono de um negócio ou de repórter não é um troféu pendurado na parede. É um compromisso que pulsa. Quem ocupa uma dessas cadeiras não recebe apenas um título. Recebe uma conta corrente moral que será debitada todos os dias.

Responsabilidade não é só fazer. É responder. Responder pelo que foi feito e, principalmente, pelo que não foi feito. Responder pela decisão assinada com tinta azul e também pela omissão assinada com silêncio. A cidade que não recebeu atendimento, o aluno que não foi ouvido, o servidor que foi mal orientado, o cliente que ficou sem retorno, o cidadão que acreditou na promessa. Nada disso é etéreo. Tudo tem consequência.

Há quem confunda cargo com autoridade. Autoridade é o poder de mandar. Responsabilidade é a obrigação de arcar. São irmãs siamesas. Quando se separa uma da outra, nasce o autoritarismo ou nasce o caos.

Quem lidera uma secretaria responde pelos atos da equipe. Quem dirige uma escola responde pela cultura que permite florescer ou apodrecer. Quem administra uma empresa responde pelo ambiente que constrói. Quem edita um jornal responde não só pelo que publica, mas também pelo que escolhe não publicar.

Não existe escudo hierárquico capaz de proteger alguém da própria decisão. Se um subordinado erra, é preciso perguntar: que orientação recebeu? Que exemplo viu? Que limites foram estabelecidos? Se alguém falhou abaixo da linha de comando, quase sempre há uma falha acima dela.

O cargo amplia a voz, mas também amplia o eco.

É confortável colher os aplausos quando o resultado é bom e distribuir as culpas quando a tempestade chega. Mas maturidade institucional não se mede no sol. Mede-se na chuva.

A responsabilidade verdadeira não aparece apenas na prestação de contas formal. Ela se revela na postura. No pedido de desculpas público. Na correção de rumo. Na disposição de dizer: “Foi decisão minha”. Ou ainda: “Eu deveria ter agido”.

Isso vale para o prefeito que administra recursos públicos. Vale para o vereador que fiscaliza. Vale para o secretário que executa. Vale para o empresário que paga salários. Vale para o professor que forma caráter. Vale para o repórter que informa uma comunidade inteira.

Cargo não é privilégio. É serviço. E serviço exige consciência de que cada ato tem um rastro. Às vezes, um rastro curto. Às vezes, um rastro que atravessa anos.

Quando alguém aceita uma função de liderança, aceita também carregar nas costas os resultados de todos que estão abaixo na estrutura. Isso não é injustiça. É a própria definição de liderança.

Se a equipe erra, o líder corrige. Se a equipe acerta, o líder compartilha. Se nada acontece, o líder explica. O que não pode acontecer é o cargo virar apenas uma moldura de vaidade. A cadeira pode até ser confortável, mas ela não foi feita para descanso moral.

Em tempos de discursos rápidos e justificativas ainda mais rápidas, talvez o maior gesto de grandeza seja simples: assumir. Assumir o que fez. Assumir o que deixou de fazer. Assumir as pessoas que dependem das suas decisões. Porque, no fim das contas, toda cadeira tem peso. E quem se dispõe a sentar precisa ter coluna.

 

 

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