Na segunda regra do livro 12 Regras para a Vida, o psicólogo canadense Jordan B. Peterson propõe algo que parece simples, quase banal: “Trate a si mesmo como alguém que você é responsável por ajudar.”
É curioso como essa frase tem uma força quase desconfortável. Porque, na prática, muitos de nós fazemos exatamente o contrário.
Se um amigo de Campo Erê nos conta que está cansado, que precisa descansar mais, que deveria cuidar melhor da saúde, rapidamente oferecemos conselho: “Você precisa se cuidar.” Se um vizinho de Guarujá do Sul está sobrecarregado de trabalho, logo surge alguém dizendo: “Assim você vai acabar doente.”
Mas quando o assunto somos nós mesmos, a história muda.
O agricultor levanta antes do sol e trabalha até depois do escurecer. O comerciante abre cedo e fecha tarde. O servidor público carrega processos que parecem não terminar nunca. O jornalista corre atrás de pauta, texto, edição e impressão. E assim seguimos, dia após dia, como se cuidar de si mesmo fosse um luxo reservado para outra vida.
Peterson sugere que existe algo estranho nisso. Muitos pacientes, por exemplo, tomam melhor conta de seus animais de estimação do que de si mesmos. O cachorro tem vacina, horário de comida e visita ao veterinário. Já o dono adia exames, ignora dores e empurra a própria saúde para “depois”.
Nas pequenas cidades, essa contradição ganha um tom ainda mais silencioso.
Aqui, existe uma ética do esforço. Trabalhar muito é quase uma virtude cívica. Descansar demais pode parecer preguiça. Reclamar do cansaço soa como fraqueza.
Só que a vida não funciona bem quando o próprio protagonista se trata como figurante.
Uma comunidade inteira depende de pessoas que estejam minimamente inteiras. O agricultor precisa de saúde para plantar. O professor precisa de equilíbrio para ensinar. O vereador precisa de lucidez para decidir. O empresário precisa de clareza para conduzir o negócio.
Quando alguém se abandona, ainda que discretamente, o mundo ao redor também perde um pouco de ordem.
A segunda regra de Peterson não fala sobre egoísmo. Não se trata de colocar-se acima dos outros. A proposta é outra: assumir responsabilidade pela própria vida.
Responsabilidade pela saúde.
Pela disciplina.
Pelos hábitos.
Pelas escolhas.
É como se cada pessoa tivesse recebido, ao nascer, uma pequena propriedade invisível chamada “vida”. E, assim como acontece com qualquer terreno no interior, se você não cuidar, o mato cresce.
No começo, é só capim. Depois vêm os espinhos.
Talvez seja por isso que essa regra tenha um tom quase moral. Não cuidar de si mesmo não é apenas um erro pessoal. Em certa medida, é também uma negligência com aqueles que dependem de nós.
Em cidades como Palma Sola, Anchieta ou Flor da Serra do Sul, onde todo mundo se conhece, isso se torna ainda mais evidente. Cada pessoa ocupa um lugar na engrenagem da comunidade. Quando alguém enfraquece, essa engrenagem sente.
Cuidar de si mesmo, portanto, não é vaidade. É responsabilidade.
E talvez seja exatamente isso que Peterson tenta lembrar: antes de tentar organizar o mundo inteiro, é preciso tratar com respeito o pequeno território que nos foi confiado. Nós mesmos. Particularmente, uso uma frase há muitos anos: Antes de você querer organizar a cidade, comece organizando o seu quarto.