Em cidades pequenas, as amizades nascem como nascentes: discretas, constantes, inevitáveis. Em Palma Sola, Campo Erê, Guarujá do Sul, a vida se organiza em torno de rostos conhecidos. O colega da escola vira o parceiro do futebol, que vira o conhecido da padaria, que vira o contato salvo no celular sem nunca ter sido realmente apagado da vida.
A terceira regra de 12 Regras para a Vida, de Jordan Peterson, propõe um filtro simples, mas exigente: escolha estar ao lado de quem quer o seu bem. Não de quem esteve, não de quem aparece, mas de quem, de fato, torce por você.
O tempo, esse editor implacável, vai depurando as relações. Aqueles amigos de infância, construídos na inocência das primeiras descobertas, começam a seguir caminhos diferentes. Alguns crescem junto, outros apenas envelhecem ao lado. E há os que ficam pelo costume, como móveis antigos que ninguém tem coragem de retirar, mesmo já não servindo mais.
Em algum momento, quase sempre silencioso, a vida exige uma triagem. Não formal, não anunciada. Apenas percebida. É quando se nota que nem toda companhia soma, que nem toda risada é leve, que nem toda presença é sincera.
Entre 2001 e 2006, longe do interior e imerso no ritmo de Florianópolis, novas amizades surgiram na minha vida. Ali, não há o peso da história compartilhada desde a infância. Há escolha. Afinidade. Conversas que atravessam a madrugada, ideias que desafiam, sonhos que ainda não foram testados pela realidade. E, curiosamente, são dessas relações mais recentes que muitas vezes surgem os vínculos mais sólidos.
Porque amizade verdadeira não se mede pelo tempo, mas pela intenção.
Ao voltar para casa, anos depois, a comparação é inevitável. De um lado, os laços antigos, alguns firmes, outros frágeis. De outro, as conexões construídas com mais consciência. E no meio disso tudo, a percepção clara de que a vida melhora — e muito — quando se escolhe caminhar com quem empurra para frente, não com quem puxa para trás.
A regra não fala em cortar pessoas, mas em ajustar proximidades. Em entender que nem todo mundo precisa ocupar o mesmo espaço de antes. Que maturidade também é isso: saber que algumas amizades pertencem à memória, enquanto outras merecem lugar no presente.
No fim, ficam poucos. Mas ficam os certos.
E isso, numa vida inteira, faz toda a diferença.