Quem vem acompanhando a minha coluna de opinião aqui no jornal Sentinela, está me acompanhando na leitura do livro: 12 Regras para a Vida: Um Antídoto para o Caos, de Jordan Peterson. No fim das contas estou interpretando e resumindo cada uma das regras por semana. Acabo correlacionando estas regras ao meu dia a dia, a matérias, entrevistas e reportagens que faço. Nos últimos dias acabei conversando com professores, diretores e profissionais ligados à escolas de diferentes municípios.
A 4ª regra de “12 Regras para a Vida: Um Antídoto para o Caos”, de Jordan Peterson, sugere algo simples e incômodo: compare-se com quem você foi ontem, não com quem outra pessoa é hoje. É uma regra que desloca o eixo da comparação — sai o olhar enviesado para o outro, entra o espelho honesto do próprio percurso.
Mas o que isso tem a ver com uma escola de interior, com carteiras riscadas e reuniões de pais cada vez mais vazias?
Tem tudo.
O aluno de hoje cresce sob o peso de comparações impossíveis. Ele não disputa mais apenas com o colega ao lado, mas com influenciadores, com versões editadas da vida, com a ilusão de sucesso instantâneo. Nesse cenário, a régua nunca para de subir — e quase sempre está fora de alcance. O resultado é um cansaço precoce, uma desistência disfarçada de desinteresse.
Se a regra fosse levada a sério, talvez o foco mudasse: não seria mais sobre ser o melhor da turma, mas sobre ser um pouco melhor do que ontem. Pequenas vitórias, quase invisíveis, mas acumulativas. O aluno que lê uma página a mais, que entende um conceito antes nebuloso, que levanta a mão pela primeira vez. Há dignidade nisso. E progresso também.
Do outro lado da mesa, o professor enfrenta seu próprio espelho.
Há aqueles que ficaram congelados no tempo, repetindo a mesma aula como quem reza um terço antigo, acreditando que o mundo lá fora não mudou. E há os que correram demais na direção oposta, abraçando a tecnologia como uma muleta, transformando a aula em espetáculo — cheio de recursos, vazio de presença.
Entre um extremo e outro, perde-se algo essencial: o ato de ensinar como encontro humano.
A 4ª regra também serve para eles. O bom professor não é aquele que tenta competir com a internet, nem aquele que ignora sua existência. É o que se pergunta, ao final do dia: fui melhor hoje do que ontem? Consegui alcançar mais um aluno? Expliquei com mais clareza? Escutei com mais atenção?
É um progresso discreto, quase invisível. Mas é ali que mora a verdadeira autoridade.
E então há a ausência mais ruidosa de todas: a das famílias.
Pais que delegaram à escola não apenas o ensino, mas a formação. Que esperam resultados sem participar do processo. Que cobram disciplina, mas não oferecem exemplo. Nesse vazio, o aluno cresce sem referência, e a escola tenta preencher um espaço que não lhe pertence por inteiro.
Se a lógica da 4ª regra atravessasse também as famílias, talvez o cenário fosse outro. Não seria sobre ser o pai perfeito, mas sobre ser um pouco mais presente do que ontem. Perguntar mais, acompanhar mais, ouvir mais. Pequenos gestos que, como na aprendizagem, se acumulam.
No fim, a sala de aula se revela como um retrato ampliado da sociedade: todos se olhando demais para os lados e de menos para dentro.
A 4ª regra não resolve o caos. Mas oferece uma bússola.
E talvez, no meio de tanto ruído, seja isso que ainda falte: menos comparação, mais consciência. Menos espetáculo, mais evolução. Menos expectativa sobre o outro, mais responsabilidade sobre si.
Porque, no fundo, aprender — e ensinar — continua sendo um exercício íntimo. Quase silencioso. Como quem melhora um milímetro por dia, sem aplauso, mas com sentido.