Quando a cidade encontra a própria voz

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Igor Vissotto

Há quem pense que um festival de música é apenas uma disputa por troféus, notas e aplausos. Não é. Um festival municipal é muito mais do que isso. É um daqueles raros momentos em que uma cidade inteira desacelera para ouvir a si mesma.

Nos últimos dias, tivemos bons exemplos disso em nossa região. Campo Erê realizou a décima edição do Festere, consolidando um evento que já faz parte da história do município. Pouco antes, São José do Cedro também promoveu seu festival, reunindo dezenas de intérpretes e um público que fez questão de prestigiar cada apresentação. Ambos merecem reconhecimento por manterem viva uma tradição que vai muito além da música.

Há algo de especial em sentar na plateia e ver subir ao palco o vizinho, o colega de trabalho, a professora dos filhos, o agricultor, o comerciante, o servidor público. Pessoas que encontramos todos os dias no mercado, na igreja ou na praça e que, por alguns minutos, revelam um talento que muitos sequer imaginavam existir.

Talvez seja justamente esse o maior encanto dos festivais municipais. Eles lembram que, por trás da rotina, existem sonhos. Atrás do balcão, da lavoura, do escritório ou da sala de aula, há gente que ensaia escondido em casa, que canta no carro durante as viagens ou que sempre teve vontade de enfrentar um microfone, mas nunca encontrou coragem.

E coragem é uma palavra que combina perfeitamente com esses eventos.

Subir a um palco não é fácil. É enfrentar o nervosismo, controlar a ansiedade e aceitar que a própria voz será ouvida e avaliada por centenas de pessoas. Para muitos participantes, vencer não significa levar o primeiro lugar. A verdadeira vitória acontece no instante em que conseguem dar o primeiro passo e descobrir que são capazes.

Não são poucos os casos de pessoas tímidas que encontraram na música uma forma de ganhar confiança. O festival transforma o medo em experiência, a vergonha em autoestima e, muitas vezes, revela artistas que continuarão cantando por muitos anos.

Mesmo aqueles que não seguem carreira levam consigo algo valioso: a lembrança de terem vivido um momento especial, compartilhado com a família, os amigos e toda a comunidade.

Em tempos em que tanto se fala sobre telas, redes sociais e isolamento, festivais municipais continuam reunindo pessoas de verdade, em torno de emoções igualmente verdadeiras. Ali não existem filtros nem edições. Existe apenas a voz, a interpretação e a coragem de quem decidiu cantar.

Por isso, eventos como o 10º Festere, em Campo Erê, e o festival realizado em São José do Cedro merecem aplausos. Não apenas pela organização, mas por manterem acesa uma tradição que fortalece a cultura, aproxima gerações e faz nascer histórias que dificilmente seriam escritas em outro lugar.

Porque, no fim das contas, um festival não revela apenas bons cantores. Ele revela comunidades que ainda acreditam na cultura, pessoas dispostas a vencer seus próprios limites e cidades que entendem que investir em arte é também investir em pertencimento.

 

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