Quando o interesse é amar e constituir família?

Coluna de opinião do jornal impresso

Por Juliane Silvestri Beltrame

“No fundo, em toda união há um interesse, nem que seja o de amar e constituir família.” A afirmação de Rodrigo da Cunha Pereira, na Revista n. 87 do IBDFAM, provoca porque aproxima duas palavras que, à primeira vista, parecem incompatíveis: amor e interesse.

Costumamos associar interesse à vantagem. Mas interesse, em sua origem, também remete a estar entre, estar presente, importar. Interessar-se por alguém é deixar de ser indiferente a ele.

A pergunta, então, talvez não seja se existe interesse no amor, mas: o que buscamos quando escolhemos amar alguém?

Buscamos companhia, segurança, pertencimento, reconhecimento, filhos, família? Ou buscamos no outro algo que acreditamos faltar em nós?

Freud nos ajuda a perceber que o amor também contém idealização. Nem sempre enxergamos apenas quem está diante de nós; projetamos desejos, expectativas e imagens construídas a partir de nossa própria história. Por isso, uma pergunta incômoda se impõe: eu amo o outro ou amo aquilo que ele representa para mim?

Bert Hellinger, por outro caminho, também nos convida a olhar para aquilo que antecede o encontro amoroso. Na perspectiva sistêmica, chegamos às relações trazendo histórias, pertencimentos, expectativas e emaranhamentos. Há movimentos que parecem amor, mas podem estar vinculados a necessidades e lealdades que sequer percebemos.

Freud e Hellinger partem de referenciais distintos, mas permitem uma reflexão comum: nem sempre aquilo que buscamos no outro pertence verdadeiramente ao outro. Talvez seja justamente aí que o amor precise amadurecer.

Porque amar e relacionar-se não são a mesma coisa. O amor acontece em mim; o relacionamento acontece entre nós. Posso amar sozinho, mas não posso me relacionar sozinho.

É no relacionamento que minha expectativa encontra a realidade do outro. E amar alguém exige reconhecer que ele possui história, desejos, limites e projetos próprios. Talvez o verdadeiro interesse de amar comece justamente quando o outro deixa de existir apenas em função daquilo que pode me oferecer.

Isso também exige reciprocidade. Na leitura sistêmica de Hellinger, as relações entre adultos procuram equilíbrio entre dar e receber. Quando apenas um dá, ou apenas um recebe, o vínculo perde equilíbrio. Amar não é dar tudo. É conseguir construir uma troca na qual ambos tenham lugar.

E então chegamos ao segundo elemento da frase de Rodrigo: constituir família.

Amar alguém e querer constituir família com essa pessoa não são necessariamente a mesma coisa. Podemos amar sem desejar uma família naquele momento. Podemos imaginar a família apenas como projeto futuro. E podemos, ao longo da relação, transformar esse projeto em realidade.

É justamente nessa passagem que o Direito encontra dificuldade: identificar quando duas pessoas deixaram de apenas compartilhar uma relação afetiva e passaram efetivamente a constituir família. O artigo que inspira esta reflexão questiona justamente a capacidade das categorias jurídicas de apreender integralmente a complexidade dos vínculos humanos.

Talvez, antes de perguntar qual é o nome jurídico desta relação? seja preciso perguntar: O que estamos construindo juntos? O que eu procuro quando escolho você?

Talvez o interesse de amar não se revele quando dizemos “eu preciso de você”, mas quando conseguimos dizer: “Eu vejo você como você é. E, ainda assim, quero construir algo com você.”

É nesse momento que o interesse de amar pode deixar de ser apenas desejo e começar a se transformar no interesse de constituir família. Importante diferenciar esse interesse do namoro, onde um tem o desejo atual e presente e o outro é um projeto para o futuro.

 

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