Diante de tantas perguntas sem respostas me obrigo a escrever minha coluna depois de horas de leitura entre alguns jornalistas políticos do Brasil.
A leitura mais consistente das análises publicadas na segunda-feira, 26 de outubro, é que a eleição produziu dois resultados políticos diferentes: Lula venceu a disputa presidencial, mas a direita ampliou sua força no Congresso e terá instrumentos importantes para condicionar o próximo governo. A vitória não eliminou a força do bolsonarismo, assim como o crescimento parlamentar da direita não garantiu a ela a Presidência.
O erro da direita foi sucumbir ao bolsonarismo, tivesse ela alçado o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com Michelle Bolsonaro de vice, o resultado seria outro.
Há quatro interpretações importantes nas análises de jornalistas e comentaristas:
- Mônica Bergamo, na Folha: interpreta o primeiro turno como um julgamento do lulismo e o segundo como um plebiscito sobre o bolsonarismo. Na leitura dela, parte do eleitorado resistiu à possibilidade de concentrar ainda mais poder político na família Bolsonaro.
- Leonardo Sakamoto, no UOL: sustenta que o antibolsonarismo voltou a ser decisivo. Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, e ganhou mais de 10 milhões de votos entre os turnos. A vitória, portanto, não deve ser confundida automaticamente com aprovação integral do governo.
- Joel Pinheiro da Fonseca, na Folha: destaca o desafio econômico e fiscal do quarto mandato. Sua análise questiona se Lula adotará uma postura mais pragmática depois da eleição e alerta que a mobilização popular, embora politicamente relevante, não substitui a negociação parlamentar.
- Raphael Di Cunto e Augusto Tenório, na Folha: chamam a atenção para a composição do novo Congresso. Segundo o levantamento publicado pelo jornal, 59% da Câmara e 64% do Senado estarão alinhados à direita. A presidência do Senado, a negociação com o Centrão e o poder sobre a agenda legislativa serão decisivos para a governabilidade.
Essas interpretações convergem em um ponto: Lula terá de demonstrar que consegue transformar uma vitória eleitoral apertada em capacidade de governar. Mas há uma ressalva importante: um Congresso majoritariamente à direita não é um bloco perfeitamente unido. Os interesses do PL, do Centrão, dos partidos de centro-direita e dos parlamentares ligados a governos estaduais podem divergir. O tamanho das bancadas aumenta o poder de pressão, mas não determina sozinho o resultado de cada votação.
A vitória presidencial foi de Lula. A vitória parlamentar foi da Direita. O teste de governabilidade começa agora.