05/12/2020 às 09h33min - Atualizada em 05/12/2020 às 09h33min

Muito além de 2021

Coluna de opinião do jornal impresso

Da redação
A convalescença da Covid-19 será longa e repleta de incertezas.
                Em janeiro do ano passado, ficou constatado que a Covid-19 seria um enorme desafio para a humanidade. Dada às suas proporções catastróficas, a pandemia provocou mudanças que ainda não estão consolidadas. Agora, às portas de um novo ano, volta-se ao tema a partir de algumas considerações que devem ser feitas.
                A primeira refere-se ao curtíssimo prazo: a incerteza quanto a passarmos ou não por uma segunda onda de contaminação, o que já se desenha na Europa e Estados Unidos. Também teremos esse tipo de fenômeno no Brasil? A mera expectativa já é um problema. Uma segunda onda quebraria o ímpeto da retomada econômica, ao demandar políticas de amparo social e socorro para setores que já estão claudicantes.
                A segunda consideração é que a questão da saúde pública está longe de ser resolvida, já que não temos vacinas contra a Covid-19. Enquanto não existirem, de verdade, imunizantes disponíveis para largos contingentes da população, a questão permanecerá com repercussões políticas, econômicas e sociais.
                Vamos imaginar que em meados do primeiro semestre de 2021 as vacinas comecem a ser oferecidas. O efeito psicológico será imediato e extraordinário, mas o efeito prático na vida das pessoas precisará de certo tempo até que o número de imunizados contra o novo coronavírus seja robusto.
                A terceira consideração também se relaciona às vacinas. Serão elas recorrentes, como as utilizadas contra a gripe, ou serão aplicadas apenas uma vez? Os que já tiveram a doença estão imunizados ou não? Essas são as interrogações que, para ser respondidas, influenciarão decisões de políticas públicas e econômicas. Em 2021, o grande desafio será a vacinação em massa com um produto farmacêutico que ainda não sabemos qual será.
                A quarta consideração e que – com ou sem vacina- o mundo não voltará ao “normal” de antes. O trabalho remoto prosseguirá. As entregas de produtos e serviços também. Os megaeventos e o turismo continuarão afetados por anos seguidos. No Brasil, a economia informal será atingida, pressionando as políticas públicas. As repercussões serão profundas na vida de todos.
                O que exatamente preocupa no caso brasileiro? Três aspectos se destacam. O primeiro é a politização de debate sobre a eficácia das vacinas e sobre a sua obrigatoriedade ou não, o que influi negativamente no esforço necessário para enfrentar o problema. O segundo aspecto envolve a incerteza quanto ao caminho a ser adotado para sair da armadilha fiscal do auxílio emergencial. Entre as expectativas políticas e fiscais, o governo ainda trafega em uma pinguela. O que fazer? E como fazer sem destruir, ainda mais, a credibilidade fiscal do país? O terceiro aspecto refere-se à ausência de um conjunto de políticas econômicas que alavanque a retomada. Sem uma abordagem estruturada, a retomada pode ser demorada.
                Estamos preparados para a longa convalescença Covid-19 aqui no Brasil? Acho que não. Tudo indica que os efeitos da pandemia prosseguirão para além de 2021 e cegarão, no mínimo, a 2022, ano da sucessão presidencial. Continuaremos a ter um cenário complexo e desafiador.
 
Texto de Murillo de Aragão                                                             
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