Aos 32 anos, Michele Todescatto, moradora de Anchieta, vive a realização de um sonho que começou ainda na infância. Menina, brincava de fazer unhas com tampinhas de refrigerante, palitos e esmaltes. Atendia mãe, tias, avós e amigas e, sem saber, já ensaiava a profissão que escolheria muitos anos depois.
Aos 16, teve a primeira oportunidade em um salão, mas o trabalho por comissão e o baixo número de clientes fizeram com que deixasse a atividade. Depois de concluir os estudos, trabalhou como merendeira e em uma empresa de móveis. Foi novamente em um salão, ao visitar uma amiga, que descobriu também a paixão pelos cabelos.
Michele chegou a tentar uma vida nova fora de Anchieta. Foi para Porto Alegre-RS, trabalhou em restaurante e produziu adesivos artesanais para unhas. Cerca de três meses depois, retornou. De volta à cidade, passou aproximadamente três anos trabalhando no salão da amiga.
Aos 20 anos, porém, começaram as dores no braço e na coluna. Por orientação médica, deixou o salão e foi trabalhar em um mercado. As clientes, entretanto, continuaram procurando por ela. Primeiro, Michele atendia na cozinha de casa. Depois, passou a levar uma maleta às residências e fazer unhas depois do expediente.
A procura cresceu e vieram também os cabelos. Sem estrutura, improvisava: chegou a lavar clientes no tanque de casa. Mais tarde, montou um pequeno espaço junto à residência, comprou um lavatório e uma cadeira e voltou a alimentar o sonho de ter seu próprio salão.
Em 2020, precisou realizar uma cirurgia de rinoplastia por problemas de saúde, onde teve complicações e resultou em três procedimentos no mesmo ano. As consequências afetaram sua rotina e dificultaram os deslocamentos. Michele passou a atender principalmente em casa, mas o sonho profissional continuava adiado.
A pandemia, as dificuldades financeiras e as limitações físicas a levaram a novos empregos. Trabalhou em uma loja e depois ingressou em uma cooperativa de crédito. Apesar do apoio da família, a mudança trouxe um conflito que se aprofundaria nos anos seguintes.
Michele conta que chorava com frequência e sentia que havia deixado de lado o que realmente gostava. Nesse período, enfrentou desafios profissionais, incluindo uma prova na qual realizou nove tentativas até conquistar uma certificação, além de dificuldades de concentração. Mais tarde, recebeu o diagnóstico de fibromialgia e iniciou o tratamento.
Em outra cooperativa, assumiu uma carteira de clientes e cresceu profissionalmente, mas também enfrentou mais pressão, dores, ansiedade e esgotamento. Chegou a um ponto em que não queria mais continuar vivendo daquela forma.
O diagnóstico e o tratamento ajudaram a compreender parte do que estava acontecendo, mas a mudança decisiva veio depois de uma conversa com uma psiquiatra. Segundo Michele, a médica mostrou que os medicamentos poderiam continuar, mas que a mudança de vida também dependia dela.
Aos 32 anos, decidiu escolher a própria saúde e voltar ao sonho do salão. Planejava pedir demissão, mas acabou sendo desligada. O choque inicial deu lugar ao alívio.
Na semana seguinte, voltou a atender. A procura aumentou rapidamente. Em cerca de 15 dias, já percebia mudanças na disposição e, em dois meses, afirma que sua renda com o salão se aproximava daquela que recebia no banco.
A transformação também chegou à vida doméstica. Antes, as dores e o cansaço faziam com que precisasse da ajuda do marido para tarefas simples. Aos poucos, recuperou atividades que já não conseguia realizar e passou a se sentir mais presente na relação com a família e consigo mesma.
O salão atual começou com uma garagem de quatro paredes e cimento. Com apoio do marido e do pai, Michele foi transformando o espaço até chegar ao negócio que imaginava desde criança. Em quatro meses, a demanda cresceu tanto que ela precisou contratar uma funcionária.
Hoje, trabalha com unhas e cabelos e já pensa no próximo passo. Está fazendo um curso Master Gold para se tornar instrutora de unhas e pretende começar a ministrar cursos no próximo ano, ensinando profissionais de unhas e cabelo. Outro sonho voltou a entrar nos planos: a maternidade.
Michele não esconde as dificuldades que enfrentou, mas não acredita que elas devam definir seu futuro. Para ela, a trajetória teve um sentido.
A menina que fazia desenhos nas unhas com um palito e uma tampinha de refrigerante agora tem seu próprio salão, uma equipe, clientes e novos projetos.
Depois de anos entre dor, incerteza e recomeços, ela resume o momento atual em uma frase: “Hoje eu sou uma pessoa 100% viva. Eu me sinto viva” conclui Micheli.