Em 2022, Lula venceu em Palma Sola, Campo Erê e Flor da Serra do Sul. Bolsonaro venceu em Anchieta, São José do Cedro e Guarujá do Sul. Em 2026, Flávio Bolsonaro venceu nos seis municípios.
Há domingos que terminam quando as urnas são fechadas. Outros continuam ecoando por muitos dias. O domingo, 4 de outubro de 2026, pertence à segunda categoria.
O Brasil saiu das urnas com uma eleição presidencial ainda em aberto. Flávio Bolsonaro, do PL, terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Como nenhum dos dois alcançou mais da metade dos votos válidos, a decisão ficou para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Mas se Brasília ainda terá de esperar mais três semanas para conhecer o próximo presidente, Santa Catarina não precisará esperar. Aqui, a mensagem das urnas foi uma vitória acachapante.
Jorginho Mello, do PL, foi reeleito governador ainda no primeiro turno, com 2.942.386 votos, ou 68,98% dos votos válidos. Gelson Merísio ficou com 15,66%, enquanto João Rodrigues alcançou pífios 13,35%.
Foi uma vitória ampla. E o Senado produziu talvez a imagem mais simbólica da eleição catarinense.
As duas cadeiras em disputa ficaram com o mesmo partido: Carol de Toni e Carlos Bolsonaro, ambos do PL. Carol recebeu 2.694.918 votos, 33,46%, e Carlos Bolsonaro obteve 2.041.840, 25,35%.
Do outro lado dessa fotografia eleitoral ficou Esperidião Amin. Com uma longa trajetória na política catarinense, ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado e senador, Amin buscava a reeleição. Terminou a disputa em terceiro lugar, com 1.233.034 votos, 15,31% dos votos válidos.
Sua não reeleição encerra, pelo menos por enquanto, um capítulo importante da presença de Amin no Senado.
No Senado Federal, o PL elegeu 19 senadores em 2026, número que fará da legenda a maior bancada da Casa a partir de 2027. O MDB elegeu sete e o PT, seis. A composição prevista para o início da próxima legislatura será de 28 senadores do PL, oito do MDB e nove do PT.
É um número que ajuda a dimensionar o tamanho da mudança. Mas talvez seja olhando para os nossos municípios, que a transformação fique mais interessante.
Nas cidades onde o Sentinela do Oeste circula, o mapa presidencial de 2026 é bastante diferente daquele de quatro anos atrás.
Em Palma Sola, Lula havia recebido 2.278 votos no primeiro turno de 2022, contra 1.833 de Jair Bolsonaro, há época uma vitória de 445 votos para a esquerda. Agora, Lula ficou com 1.704, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 2.327, ou seja, 623 votos a mais para a direita. Pela primeira vez na história de Palma Sola um candidato de direita vence Lula.
Em Anchieta, Lula passou de 1.815 para 1.403 votos. O candidato do PL, por sua vez, saiu dos 2.053 votos obtidos por Jair Bolsonaro em 2022 para 2.330 em 2026.
Campo Erê apresenta uma mudança especialmente interessante. Em 2022, Lula havia sido o mais votado, com 3.088 votos, contra 2.321 de Bolsonaro. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro terminou em primeiro, com 2.932 votos, enquanto Lula teve 2.575.
Em São José do Cedro, a vantagem do campo representado pelo PL tornou-se ainda maior. Bolsonaro havia obtido 5.784 votos em 2022. Flávio chegou a 6.472 em 2026. Lula, que tinha recebido 2.672 votos, caiu para 1.908.
Em Guarujá do Sul, Bolsonaro tinha 1.774 votos em 2022. Flávio chegou a 1.938. Lula passou de 1.183 para 937.
E há ainda Flor da Serra do Sul, no Paraná, onde Lula havia vencido o primeiro turno de 2022, com 1.917 votos, contra 1.559 de Bolsonaro. Em 2026, Flávio Bolsonaro passou à frente, com 1.771 votos, enquanto Lula ficou em 1.413.
Há, portanto, uma mudança que merece ser observada com atenção.
Nos seis municípios que analisei, Lula recebeu menos votos em 2026 do que havia recebido no primeiro turno de 2022. Ao mesmo tempo, o candidato do PL recebeu mais votos do que Bolsonaro havia recebido em 2022 em cinco dos seis municípios.
Mais uma vez as urnas mostram que o Brasil dá uma guinada à direita e pela primeira vez, desde a fundação deste jornal, em 2007, a região também vira à direita.
Mas é possível afirmar algo mais objetivo: o PL saiu das eleições de 2026 muito maior do que entrou.
Em Santa Catarina, isso ficou evidente na Presidência, no governo estadual, no Senado e em diversas disputas proporcionais. O próprio resultado presidencial catarinense foi eloquente: Flávio Bolsonaro recebeu 3.000.020 votos, 66,65% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 1.127.168, 25,04%.
Há ainda uma curiosidade histórica nessa eleição.
Em 2022, Santa Catarina elegeu Jorge Seif para o Senado pelo PL. Agora, quatro anos depois, o partido não apenas conquistou uma cadeira. Conquistou as duas que estavam em disputa. A política catarinense, portanto, começa 2027 com uma configuração bastante diferente.
E Esperidião Amin não estará no Senado para assistir a essa nova composição. Talvez essa seja a parte mais humana da política. Por trás das porcentagens existem histórias. Existem décadas de vida pública. Existem campanhas, alianças, adversários, vitórias, derrotas e momentos que não cabem numa tabela.
Amin pertence a uma geração política que ajudou a construir boa parte da história contemporânea de Santa Catarina, as bases da direita catarinense. Sua derrota eleitoral não apaga essa trajetória. Mas modifica seu lugar no cenário institucional que começa a ser desenhado pelas urnas.
No fim das contas, é isso que uma eleição faz.
Ela muda cadeiras.
Muda governos.
Muda bancadas.
Muda o tamanho dos partidos.
E, às vezes, muda até a sensação que uma região tem de si mesma.
Nas seis cidades acompanhadas pelo Sentinela do Oeste, o mapa presidencial mudou de cor entre 2022 e 2026.
Em 2022, Lula venceu em Palma Sola, Campo Erê e Flor da Serra do Sul. Bolsonaro venceu em Anchieta, São José do Cedro e Guarujá do Sul.
Em 2026, Flávio Bolsonaro venceu nas seis.
A próxima página dessa história será escrita no dia 25 de outubro. E então haverá apenas dois nomes na tela.
Até lá, a melhor fotografia disponível é esta: um país dividido para decidir a Presidência, uma Santa Catarina que escolheu continuar com Jorginho Mello e duas cadeiras do Senado entregues ao PL.
As urnas falaram.
Agora começa a parte mais difícil da democracia: interpretar o que elas disseram sem fingir que disseram aquilo que gostaríamos de ouvir.