05/06/2020 às 08h11min - Atualizada em 05/06/2020 às 08h11min

Cutelaria artesanal é um hobby em Campo Erê

Edson Voigt é cuteleiro há quatro anos. Fabrica e vende facas artesanais de diversas categorias e preços, valores chegam R$ 5 mil

Os cuteleiros artesanais têm contribuído cada vez mais para a evolução das facas, como ferramentas ou objetos de arte, fazendo surgir um universo de colecionadores e interessados na história e nas técnicas aplicadas na confecção. As facas são ferramentas que foram fundamentais para a evolução e o desenvolvimento da humanidade, seja para a caça, para o preparo de alimentos ou para o combate. Existe hoje uma grande variedade, que se diferenciam pelo tamanho, forma da lâmina, fio e por sua funcionalidade.
A cutelaria é muito conhecida pela arte ou ofício criado pelo cuteleiro, sendo ele fabricante ou vendedor. Na sua produção, o conhecimento sobre a estrutura das facas possibilita a construção de objetos de corte que se adequem às combinações de geometria da lâmina, tipos de metais, empunhadura e métodos de fabricação, utilizados para que a faca proporcione usabilidade, segurança e conforto para o usuário. A arte é complexa e cheia de dificuldades, mas para o cuteleiro campoerense Edson Voigt, de 41 anos, um hobby.
“Sou fabricante de facas artesanais há quatro anos. A ideia veio através das plataformas digitais, principalmente do YouTube. Fui treinador de futsal por quase sete anos e quando parei, precisei encontrar algo para me ocupar e nisto comecei a fazer as facas. Comecei com a intuição de passar o tempo e não com o objetivo comercial, queria mais era fazer algo legal. A faca é uma das coisas mais antigas que existe, algo totalmente histórico. Quando eu comecei a fazer as minhas primeiras, elas ficaram bonitas e as pessoas mais próximas gostaram, nisto, comecei a fazer mais. Começou as encomendas constantes e eu usava muitas para dar de presentes. Isso foi crescendo...”, esclarece Edson.
 
Primeiro contato com a arte
Edson explica que no início, o trabalho era difícil, pela quantidade de aços existentes e também, por cada um possuir um tratamento térmico diferente. “Existe muito conhecimento popular, mas muito restrito, quando você começa a estudar a cutelaria e a metalurgia, você vê que são mitos e quanto mais você se aprofunda, mais você vê que existem mais e mais tipos de metais que podem ser usados para fazer uma faca artesanal. Cada um com um tratamento térmico diferente e muitas facas não aceitam esse tratamento, outras só com temperatura controlada”, conta.
“O trabalho é muito mais complexo do que aparenta ser e é cativante, pois cada vez mais você vai descobrindo métodos novos de fazer as coisas. As ferramentaria são um pouco caras, então você mesmo vai criando as suas. As minhas, 90% foi eu que fiz. Isso vai te motivando e você vai ficando cada vez mais focado e querendo fazer aquilo. Quando comecei não sabia nada, só tinha um pouco de noção sobre as facas que usamos em churrasco e na cozinha. A gente nem se atenta as diferenças de uma faca para outra. Antes de entrar neste universo, faca é faca e depois você acaba descobrindo que cada uma tem seu uso”, enfatiza o fabricante.
 
A criação
“Faço as facas por encomenda. Uso tanto o aço reciclável, quanto o aço virgem. Mas existe o aço ligado, o inoxidável, o damasco e muitos outros. Faço muita faca para churrasco, que pode ser feita com disco de arado ou aço virgem; o material passa por constantes transformações, podendo levar até dois dias para a faca ser criada. Faço praticamente todo o tipo de faca e são totalmente artesanais. Dá um pouco de trabalho, pois umas são mais complexas que outras; faço desde as de churrasco, de cozinha, as para o campo, pesca, espada e outras”, esclarece Edson.
Para o cuteleiro, as suas criações podem chegar a até R$ 5 mil, mas até o momento, tem feito apenas até R$ 1.500. “As facas artesanais são muito valorizadas pelos confeccionadores, muitas podem ir a leilão. Aqui na cidade o movimento de vendas é baixo, pois o pessoal não conhece muito, mas na internet, a procura é maior”, explica complementando que vende suas facas a partir de R$ 150, variando o tamanho, lamina e mão de obra. “Leva para confeccionar um tempo relativo, depende muito do tipo; a simples leva até dois dias. É um trabalho picado, tem outras que podem levar até cinco dias ou oito. Todas devem ter um acabamento de 100%”, ressalta.
 
Aços para cutelaria
A classificação dos aços para o cuteleiro não obedecem a um único critério, existindo classificações quanto à composição química, processamento, microestrutura, propriedades ou mesmo aplicações a que se destinam. No mercado, há inúmeros tipos, que podem ser adaptados para diferentes finalidades e uso, mas de acordo com sua composição, pode-se destacar quatro grandes grupos: os aços carbono, o aço-liga, os aços inoxidáveis e o aço damasco.
“As facas possuem as suas peculiaridades, tem as mais finas e as mais grossas. Sempre que as pessoas fazem as encomendas, eu gosto de saber no que ela vai usar o material e como; por exemplo, se é uma faca de cozinha, se ele irá usar apenas para os cortes mais finos, para finalizar a peça ou até para desossa ou se ele quer para cortar um osso. Entendendo o que o cliente quer, consigo fazer direcionada a ele. Essa é a diferença de uma faca artesanal, pois ela é feita ao gosto do cliente; tem aqueles que gostam de uma mais fina e outros de mais grandes e desenhadas”, complementa Edson.
 
Como afiar e cuidar de sua faca
“As facas com tratamento térmico possuem resistência de fio, quando entrego ela está pelando, pode passar no braço que corta os pelos, mas ela não vai ficar assim para sempre e nem durar. É um material que vai sofrer desgaste e reter o fio muito mais do que uma faca que não tem tratamento térmico”, ressalta enfatizando que o tempo de duração é desconhecido, pois varia do cuidado ao uso do material. “Se é uma faca mais fina e o cliente passou no metal ou no osso, já vai perder um pouco o fio. A força que ele usou interfere muito”, explica.
“Há místicas em que a água quente ou cortar cebola tira o fio. Na verdade, a cebola não tira, o que tira é você cortá-la e deixar a faca ali parada; a cebola possui ácidos, os quais vão atacar o fio e vão corroer e não vai ter o mesmo foco. A água quente também não, o último tratamento da faca é em torno de 200° a 220° logo, nenhuma temperatura abaixo disso vai interferir”, esclarece o cuteleiro.
“O pessoal sempre pede como afiar as facas: quem não tem uma boa pedra para a afiação, eu recomendo lixas para carro ou tábuas; pega a lixa fininha, cola em um pedaço de madeira e faz a afiação – tem vídeos no YouTube contando como faz. O mais ideal são as pedras, mas existem muitas que são caras e com isso, passa a ser mais acessível as lixas”, continua complementando que ao longo de 4 anos fabricou pelo menos 200 facas, sempre tendo como referência cuteleiros profissionais.
“Uso mais esse trabalho para passar o tempo e estou aprendendo muito com isso. Divulgo o meu trabalho no Instagram, Facebook e também no WhatsApp, e todos que se interessarem podem me procurar”, destaca ressaltando que a sua criação mais complexa foi a de uma espada. “Ela está guardada comigo, está para ser entregue nos próximos dias a um comprador. Por ser a primeira, consegui deixá-la muito bem feita e bonita”, finaliza.
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