16/10/2020 às 14h01min - Atualizada em 16/10/2020 às 14h01min

Cultivando a imaginação

Coluna de opinião do jornal impresso

Larissa Dias
Da redação
Muitos pais recorrem a soluções mirabolantes no afã de estimular os filhos. Pois a Ciência esclarece: o melhor mesmo é ler um bom livro para eles.
                Uma questão existencial vive a rondar os pais: como preencher o tempo dos filhos de modo a ajudá-los a escalar os degraus do desenvolvimento? O risco nesse campo delicado é descambar para o excesso, seja promovendo uma agenda atribulada de atividades, seja equipando a criança com todo tipo de tela – TV, computador, celular. Pois numa das mais antigas tradições da humanidade, a contação de historias de uma geração à outra, reside uma profícua trilha para o estímulo do raciocínio e da imaginação, em que a garotada é lançada para universos onde descobre palavras, associa ideias e acumula saber. A Ciência, que vinha desbravando há algum tempo os benefícios da leitura em família desde os primeiros anos de vida, deu um novo salto de conhecimento ao observar a efervescência do cérebro infantil ao ouvir o enredo de um bom livro.
                Um dos mais abrangentes estudos nessa linha, conduzido por um grupo do hospital de Cincinnati, nos Estados Unidos, resolveu cutucar o problema de um ângulo que esclarece quais incentivos afinal, mais provocam positivamente a mente da criança. O grupo entre 4 e 5 anos foi monitorado por aparelhos de ressonância magnética em três situações distintas, nas quais era apresentado a uma mesma historia gravada: primeiro apenas escutava a fita, depois junto com ela assistia à animação da historia na TV  e, por fim, as imagens eram projetadas sem movimento nenhum, simulando um livro. Os pesquisadores queriam saber em que cenário as cinco regiões fundamentais do cérebro mais se conectavam. A resposta foi incisiva: enquanto a animação agita em demasia a mente, freando a ligação entre neurônios, e o áudio puro e simples pouco a ativa, a imagem parada causa uma pequena revolução. “isso ocorre porque obriga a criança a exercitar a imaginação e, assim, ela vai construindo uma forte conexão entre os neurônios, formando uma rede”, explica o neurocientista Ariovaldo da Silva Junior, da Universidade Federal de Minas Gerais.
                A leitura feita pelos pais funciona como uma alavanca potente, especialmente no começo da vida. Na fase que vai dos primeiros meses à alfabetização (quando a criança já ganha autonomia para as próprias aventuras literárias), o cérebro realiza sinapses como em nenhuma outra etapa. Por isso, costuma ser comparado a uma esponja, tamanha sua capacidade de absorver estímulos – e é aí que os livros desempenham função valiosa. “Os estudos mostram que uma criança de 2 anos com pais que lhe contam historias pode se desenvolver até duas vezes mais rapidamente do que aquela que não tem esse hábito.”, frisa o pediatra Ricardo Halpern. Além da já verificada ampliação do repertório linguístico e da habilidade de transmitir ideias, o minileitor evolui no lado psicológico: o momento em que os pais e filhos compartilham um livro tende a sedimentar os laços, ainda mais se o programa virar uma prazerosa rotina.
                A sociedade Brasileira de pediatria passou a recomendar aos próprios médicos que receitem livros para ser devorados em família, um santo remédio para vários males. Cabe, porém, uma ponderação: que a atividade não se transforme numa corrida maluca pela busca do ponto-final. O mais importante é o trajeto e a conversa que se desenrola a partir dele.
                A leitura é uma extraordinária mola para abrir as portas do saber e, no caso das crianças mais pobres, pode ser a única verdadeiramente proveitosa. De livro em livro, vai se formando uma bem vinda geração de leitores, sem a qual nenhum país pode almejar virar a pagina do desenvolvimento.
               
Por Odila Flach 
Texto de Ricardo Ferraz e Thaís Gesteira  - Revista Veja
                 
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